“Mas foi muito inteligente da parte do ‘Correio da Manhã’ ou de qualquer outro jornal que pegou na notícia, em assumir aquilo como uma verdade absoluta. A minha irmã estudou jornalismo e explicou-me: ‘Se tu estás a dizer que aquilo é real, mesmo que o jornalista saiba ou possa pôr em consideração que não é, a partir do momento em que o protagonista diz que é, então é porque é’.”

Houve uma pequena parte de mim que morreu no momento em que li estas palavras. Foram ditas por João André, que ficou conhecido pelo papel de Kiko em “Morangos com Açúcar”, numa entrevista à MAGG publicada esta terça-feira, 30 de abril. O jornalista Fábio Martins esteve à conversa com o ator para falar sobre as alegadas revelações bombásticas da série juvenil, onde supostamente houve orgias e bacanais.

Era tudo mentira. Uma forma de chamar a atenção disfarçada de peça de humor, uma tentativa de tornar viral algo que era pura fantasia. Claro que o desmentido só chegou dois dias depois, mas isso não interessa. Resultou: com estas “dez coisas que ninguém contou dos Morangos”, João André conseguiu quase 530 mil visualizações no YouTube. Já o “inteligente” “Correio da Manhã“, muito provavelmente fez o dia no que diz respeito aos cliques.

A quantidade de coisas aterradoras neste assunto é petrificante. Mas vamos tentar analisar este filme de terror infelizmente verídico em duas partes: primeiro João André, depois o “Correio da Manhã”.

“Estávamos a pinar como se não houvesse amanhã”

Tenho pena. Tenho pena que hoje em dia seja necessário regurgitar mentiras na internet para chamar a atenção. O vídeo publicado pelo João André está longe de ser o verdadeiro problema nesta história toda, mas não sejamos hipócritas: este é um caminho perigoso. Se toda a gente pode dizer o que lhe apetece na internet, seja verdade ou não, onde é que se traça o limite?

“Ah, mas era óbvio que era apenas uma piada”. Para mim foi. Mas toda a gente sabe (ou devia saber) que não podemos julgar o mundo segundo a nossa realidade. Nem toda a gente dispõe das mesmas ferramentas de interpretação, reflexão e informação. Para mim foi óbvio, para outra pessoa não foi.

Não havia uma única frase a dizer que aquilo era mentira. Aliás, o “desmentido” só chegou dois dias depois. Porquê? Qual era o problema de ter uma pequena nota na descrição a dizer que era um vídeo humorístico? Ah, pois… porque assim já não chamava tantas pessoas.

Editorial. Desculpem, mas os leitores não querem jornalistas

Se começar toda a gente a cair no desespero de contar mentiras só para ganhar visualizações, não tarda temos vídeos com títulos pomposos como “Tive sexo com Marcelo Rebelo de Sousa e conto tudo aqui”, “10 segredos sobre o Continente que ninguém conhece” ou “Fui empregada do casal McCann e sei o que aconteceu à Maddie”. O desmentido chega dois dias depois e fica tudo perdoado porque era uma piada. Ah, ah. Piada.

Como se não bastasse, parece que toda a gente se esqueceu de um pequeno pormenor: houve várias pessoas envolvidas neste “vídeo de humor”. Que o Edmundo se tenha rido com o facto de supostamente não ter um dedo no pé, ainda acredito. Agora Ana Zanatti certamente que não ficou muito contente por ver a sua imagem associada a sexo com um miúdo (que o era na altura) ou orgias. Numa altura em que se fala tanto em privacidade na internet, sou só eu que não percebo a discrepância de pensamento?

“Ex-moranguito João André revela affair e orgias com Ana Zanatti”

Não podia discordar mais da frase dita pela irmã de João André. Não, não é suposto assumir o que o “protagonista” diz como verdade. Não, isso não é jornalismo. Não, esse não é o mundo onde quero viver.

Em primeiro lugar, o próprio título está errado — João André fala no vídeo de um relacionamento com Ana Zanatti e de orgias entre os membros do elenco, nunca diz que a atriz esteve envolvia do bacanal. Mas que se lixe, é mais giro juntar tudo.

Em segundo lugar, não podemos assumir uma qualquer diarreia humorística que circula na internet como verdade. Não pode valer tudo. Não podemos fazer uma notícia com base num vídeo destes e não confirmar os factos. É só pegar no telefone, caramba. Só que neste caso ninguém queria pegar no telefone porque isso ia estragar o artigo, e o artigo era demasiado bom para ser estragado.

Nenhum órgão de comunicação social está isento da possibilidade de se enganar. Com a falta de recursos humanos nas redações atualmente, com a quantidade de informação que circula e a pressa da era da internet, todos falhamos. Eu já falhei. Mas aqui a falha não foi só gritante, foi propositada. Tanto que, desmentido feito, a notícia continua no site.

Mas… Já estamos todos a cagar-nos para o que é verdade, não é? É que se não é, parece.

Editorial. Será que os jovens são mesmo uns preguiçosos?

Esta semana, a MAGG conta-lhe a história impressionante de Tales Cotta, o modelo brasileiro que morreu na passerelle. Não tinha vícios, era vegano, licenciado em educação física e estava a realizar o sonho de uma vida. Em poucos minutos, tudo mudou.

Já Carolina Deslandes chamou a atenção depois de publicar uma fotografia em cima do palco. “Por baixo deste vestidos estão três cintas”, escreveu. A justificação está na diástase abdominal, que acontece nas mulheres depois da gravidez. Em alguns casos é subtil, noutros pode revelar-se verdadeiramente grave. A jornalista Ana Luísa Bernardino falou com uma cirurgiã plástica e com uma fotógrafa que teve que fazer uma cirurgia, e explica tudo sobre o assunto.

Há mais. Fomos conhecer o novo E-Fit Isabel Silva, explicamos-lhe o significado de 20 regionalismos e contamos-lhe tudo sobre o novo podcast que quer falar sobre maternidade sem filtros. A psicóloga da MAGG, Sara Ferreira, conta-lhe ainda como é que pode deixar de comer emocionalmente e a avó mais fofa da internet revela o melhor da televisão portuguesa na semana que passou.