Editorial. Maddie, Michael Jackson, CR7 e as diarreias verbais na internet

Ainda há quem acredite que Kate e Gerry McCann mataram a filha. O argumento é sempre o mesmo: "Epá, só podem ter sido eles".

Toda a gente tem direito de acreditar que Michael Jackson, Cristiano Ronaldo e os pais de Maddie são culpados ou inocentes. Ninguém tem o direito de tecer acusações

Não há uma única prova que diga que Madeleine McCann foi morta pelos pais. Isto não é uma opinião pessoal, é um facto. Foram feitas análises de ADN, ouvidas testemunhas, procederam-se a interrogatórios e nada, zero. Depois de tudo o que foi feito para tentar provar a culpa dos pais — e quem acompanhou a situação sabe que foi feito mesmo tudo para culpar os pais —, o tribunal chegou à conclusão de que não havia provas. Kate e Gerry McCann eram inocentes.

Cristiano Ronaldo foi acusado de violação por Kathryn Mayorga. Cristiano Ronaldo ainda não foi a julgamento, logo ninguém pode dizer neste momento que é culpado ou inocente.

Michael Jackson foi acusado de abuso sexual contra menores e foi ilibado dos crimes. Em “Leaving Neverland“, da HBO, Wade Robson e James Safechuck garantem ter sido abusados pelo cantor, tendo inclusivamente aberto uma ação judicial contra o cantor em 2013 e 2014, respetivamente. Tendo em conta que o rei da pop morreu há quase dez anos, porém, o tribunal entendeu que as empresas que foram propriedade do cantor não podiam ser responsabilizadas. Era a mesma forma que culpar uma escola por juntar um pedófilo e um aluno, disseram. Sobre as acusações, não foi emitida nenhuma opinião sobre a sua veracidade ou falta dela. Wade e James recorreram, e aguardam-se agora novos desenvolvimentos.

Aparentemente, o caso de Maddie, Cristiano Ronaldo e Michael Jackson têm pouco em comum, exceto num pormenor: hoje em dia, não interessa o que dizem os tribunais, juízes, advogados, provas de ADN ou testemunhas. Antes de tudo isso, e indiferente a tudo isso, as sentenças são dadas nas ruas. E são essas que ficam.

Quase 12 anos depois de Madeleine McCann desaparecer, a Netflix lançou “O Desaparecimento de Madeleine McCann”. O documentário vem mostrar aquilo que deveria ser óbvio para quem acompanhou o caso e, portanto, tem uma opinião sobre o assunto (só assim se constroem opiniões, certo?): não há nada que indicie a culpa dos pais. No entanto, ainda há quem acredite que Kate e Gerry McCann mataram a filha. O argumento é sempre o mesmo — “Epá, só podem ter sido eles”.

Lembrei-me imediatamente de Cristiano Ronaldo. O processo ainda não arrancou nos tribunais, no entanto os portugueses já decidiram que Kathryn Mayorga é uma puta e que o jogador de futebol está outra vez a ser perseguido por dinheiro. Como esquecer a corrente lançada por Dolores Aveiro, que vestiu o filho de super-homem e pediu ao mundo que mostrasse o seu apoio? “Quero ver quem tem coragem de pôr esta foto no perfil por uma semana e fazer uma corrente por ele”, escreveu.

Bem mais recentemente, tivemos o caso Michael Jackson. Neste caso, nem sei bem para onde pende a maioria. Ainda assim, multiplicam-se os comentários: uns a dizer que Michael Jackson era um pedófilo asqueroso, outros garantindo que as alegadas vítimas só querem dinheiro.

Toda a gente tem direito à sua opinião. Toda a gente tem direito de acreditar que Michael Jackson, Cristiano Ronaldo e os pais de Maddie são culpados ou inocentes. Ninguém tem o direito de tecer acusações. Ninguém tem o direito de condenar em praça pública os alegados acusados e acusadores, como se fossem detentores da verdade. Ninguém tem o direito de partilhar a imagem de um homem vestido de super-herói quando está em causa uma alegada violação. Ninguém tem o direito de opinar sobre uma história publicamente sem se ter informado sobre os factos todos.

E, no entanto, basta dar uma vista de olhos aos comentários que foram deixados em cada uma das notícias sobre estes casos.

Michael Jackson

— “Não faz sentido… não se deve julgar alguém que já morreu!”;
— “Mais uns trocos a custa desta polémica. Nada de novo: nem no assunto nem quanto toca a ganância”;
— “Cães fundamentalistas, canalhas, cobardes. Depois de morto é que vos deu para as acusações sem sentido. Quem me dera que acabar convosco de uma vez, seus imbecis, idiotas e estúpidos”;
— “Este fulano era nojento, nunca gostei dele, filho da mãe que arda no inferno”;
— “A porca enquanto ganhava dinheiro achava mal mas ele era o boss e não podia dizer nada. É tão porca quanto ele” [sobre a notícia da empregada que disse em entrevista que Michael Jackson era pedófilo];
— “Um pervertido obsessivo degradado já o facto de querer ser branco a todo o custo revela uma pessoa perturbada horrenda”.

Cristiano Ronaldo

— “E então, os incêndios? É que esta campanha contra o Ronaldo já mete mesmo NOJO!”;
— “Já chega e ela de inocente não tem nada pos se a jeito agora acarretem com as consequências. Só que o assunto já mete nojo”;
— “Vê se mesmo que ela não o incentivou é só olhar para a foto!”;
— “Então, ao que consta, é professora. Mas em ” Vegas” ensina o quê? Julgo que sei ……”
— “Tretas 9 anos depois de gastares os 375 mil?? Então e o Jacuzzi? Não estiveram lá todos contentes e felizes? (…)”;
— “Nesta foto parece que quem foi violado foi ele não a gaja”.

Kate e Gerry McCann

— “Eles são os únicos culpados”;
— “Estes dois já deviam estar presos à muitos anos mas vão pagá-las não existe perdão para ninguém”;
— “Irra! Já mete ‘nojo’ este assunto! Os ingleses gostam mesmo da sua arrogância. Tomam nos como totós (…)”;
— “A expressão dos Pais sempre mexeu comigo. Não dizem a verdade, nunca disseram! E só não vê quem não quer. A Mãe já esteve quase a confessar mas o Jerry não deixou…”
— “Pois pois a nossa PJ não presta!!!!!!! Os McCann é que são verdadeiros, vão mas dar banho ao cão no Támisa. Só gostava de ser esclarecido o porquê do governo britânico ter investido milhares de libras neste caso???”;
— “Parecem que são eles que mandam na polícia”;
— “Os pais terem-na morto é que não é mito de certeza”;
— “E que tal escavarem o adro da igreja cá pra mim…. Essa senhora até à noite ia pra igreja de ursinho na mão com um ar falso como tudo, se fosse em Londres estes senhores estavam atrás das grades”.

Poderíamos passar horas a discutir sobre se cada uma destas pessoas é culpada ou inocente. Mas e se refletíssemos antes um pouco sobre isto? Podemos dizer tudo o que nos apetece na internet? Eu acho que não. Sobretudo quando estamos a falar de uma criança de 3 anos que desapareceu, de duas crianças que foram alegadamente violadas toda a infância e de uma mulher que foi alegadamente violada na casa de banho de um hotel.

Já chega de diarreias verbais na internet.

Esta semana, o caso Maddie marcou a atualidade com a chegada do documentário. Numa entrevista exclusiva à MAGG, a primeira alguma vez dada à imprensa, a assessora portuguesa que representou a família McCann durante três anos fala sobre o caso. Fomos também ver as coisas mais mirabolantes que a imprensa escreveu sobre o desaparecimento de Madeleine e reunimos os 7 maiores mitos sobre a história.

Mas há mais. Sofia Venâncio entrevistou uma mulher natural da Beira que descreve a situação caótica que se vive neste momento em Moçambique. Ana Luísa Bernardino falou com uma especialista para perceber quanto dinheiro é preciso neste momento para viver bem em Lisboa — nem rico, nem pobre, simplesmente bem. Já Catarina da Eira Ballestero conta-nos histórias de pais que educam os filhos sem género, e Rita Espassandim juntou homens e mulheres homossexuais para recordar o dia em que contaram aos pais que eram gays.

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