O desaparecimento de Madeleine McCann em maio de 2007 da Praia da Luz, no Algarve, é talvez um dos casos mais mediáticos dos últimos anos. Quase 12 anos e várias teorias depois, pouco ou nada mais se sabe sobre as investigações — a não ser que há uma forte possibilidade de Maddie ter sido raptada por uma rede de tráfico humano a operar a sul de Portugal.

A propósito da estreia do documentário “O Desaparecimento de Madeleine McCann”, produzido em exclusivo para a Netflix, a MAGG revisitou o caso e foi à procura dos mitos mais conhecidos que, durante anos, serviram para manipular a opinião pública em relação a Gerry e Kate McCann — os pais da criança que, durante parte da investigação, foram considerados os principais arguidos.

Além de a Polícia Judiciaria (PJ) nunca ter sido capaz de encontrar sangue de Maddie no carro (que foi alugado quase um mês depois do seu desaparecimento), todo o interrogatório que se seguiu a Gerry e Kate McCann foi feito com base em provas falsas.

Mas não se ficou por aqui: o casal nunca se viu envolvido num pacto de silêncio para encobrir um crime e sempre recusaram a hipótese de terem dado sedativos aos filhos para que eles dormissem melhor durante a noite.

Mostramos-lhe os 7 maiores mitos do caso Maddie.

1. Os McCann recusaram um detetor de mentiras

Em 2007, vários tabloides britânicos escreveram que os McCann teriam demonstrado, publicamente, a sua vontade de se submeterem a um detetor de mentiras se isso significasse limpar os seus nomes — numa altura em que toda a imprensa os acusava de estarem envolvidos no desaparecimento da filha.

Segundo as mesmas publicações, Gerry e Kate terão mudado de ideias e decidido não realizar o teste. Mas ambos os “factos” são mentira e consequência de uma má interpretação dos eventos. Na verdade, os McCann nunca disseram estar disponíveis para realizar o teste e todas as declarações foram feitas por alegadas fontes próximas ao casal.

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A 21 de setembro de 2007, o “Daily Mail” escrevia que uma fonte tinha revelado que os McCann “estariam disponíveis para fazer o que fosse preciso para limpar a sua imagem e que se lhes fosse pedido para se submeterem a um detetor de mentiras, concordariam.”

No mesmo dia, o jornal “The Times” assegurava ter a mesma informação: “Os McCann revelaram ontem à noite que estariam disponíveis para um detetor de mentiras se tal fosse pedido pelas autoridades portuguesas, revelou uma fonte próxima ao casal.”

Não demorou muito até que outros meios pegassem na mesma história, como foi o caso do “Metro News” que afirmava, com toda a certeza, que os pais de Madeleine McCann estavam “preparados para provar a sua inocência através de um detetor de mentiras”. A fonte? Alguém próximo à família.

Depois de muita especulação, Clarence Mitchell, porta-voz da família, emitiu um comunicado onde explicava a posição da família.

“A Kate e o Gerry McCann não têm nada a esconder e se as autoridades portuguesas pedissem um teste com base num detetor de mentiras, eles não teriam qualquer problema em aceitar desde que fosse supervisionado por um profissional da área que fosse capaz de garantir o correto funcionamento do equipamento. No entanto, estas máquinas não são usadas nos casos portugueses porque a informação que contém não é admissível nos tribunais em Portugal”, explicou.

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Em dezembro de 2007, o caso voltava a ser notícia depois de os McCann terem, alegadamente, recusado um teste deste género depois de lhes ser pedido.

No entanto, o pedido não foi feito pelas autoridades portuguesas ou inglesas (que também não usam este tipo de máquinas), mas sim por Don Cargill, um técnico do polígrafo de um programa britânico chamado “Trisha” — reconhecido por fabricar ou dar voz a histórias sensacionalistas.

2. O sangue e o ADN de Maddie foram encontrados no carro e no apartamento

Foi uma das supostas provas que serviu para que Gonçalo Amaral e a restante equipa da PJ pudessem considerar Gerry e Kate McCann como arguidos.

Durante as investigações, os cães cedidos pela polícia britânica terão detetado não só o cheiro a cadáver no apartamento onde os McCann estavam hospedados, como sangue no carro usado pela família — que foi alugado quase um mês depois de Maddie ter desaparecido.

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Depois de os McCann terem argumentado que a utilização de cães para detetar odores era um processo pouco fiável, Martin Grime, um dos treinadores, revelou que Eddie, o cão que terá detetado sangue no carro, levava já seis anos de operações de sucesso em mais de 200 casos. Mas a verdade é que não há registo da taxa de sucesso do animal para suportar esta afirmação.

De qualquer das formas, todos os vestígios encontrados pelos cães têm de ser sempre apoiados por provas forenses que, neste caso, nunca foram encontradas.

Segundo os inspetores forenses a trabalhar no caso, nunca foi encontrado sangue algum na bagageira do carro ou atrás do sofá do apartamento. No entanto, isso não quer dizer que não tenham sido encontrados vestígios de ADN. Foram encontrados, mas pertenciam a três pessoas vivas e já identificadas.

3. O interrogatório a Gerry McCann foi feito com base em provas fidedignas

Apesar de vários cientistas britânicos terem alertado para o facto de as provas encontradas no apartamento e no carro serem inconclusivas e poderem pertencer a qualquer pessoa, a polícia portuguesa tentou forçar uma confissão de Gerry McCann sem bases.

Face ao que estava a acontecer, o porta-voz da família alertou os órgãos de comunicação social que os McCann não tinham sido acusados de nada e recomendou cautela.

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“Toda e qualquer prova que possa ou não ser encontrada e que leve a polícia a suspeitar do Gerry e da Kate pode ser facilmente explicada, se alguma vez chegar a esse ponto. Por favor, lembrem-se que nenhum deles foi acusado de nada”, explicou.

4. Os McCann nunca mostraram emoção

Foi talvez um dos argumentos mais utilizados pela imprensa ou pelos críticos da família: o facto de os McCann se terem apresentado muito controlados e pouco emotivos desde o primeiro dia após o desaparecimento da filha. No entanto, vários vídeos de entrevistas dadas pelos dois mostram os pais visivelmente perturbados à medida que vão recordando os últimos momentos que passaram com Maddie.

Ao jornal “The Independent”, Kate McCaan revelou que a melhor forma de ajudar a procurar a filha foi pôr de lado a histeria e a emoção de maneira a que a mensagem fosse entendida por todos. Mas admite ter-se sentido em estado de choque durante os primeiros momentos. “É muito assustador ver aqueles primeiros momentos. Parecia incrivelmente frágil, confusa e perdida.”

Além disso, sabe-se agora que Kate McCann foi instruída a não mostrar qualquer tipo de emoção sob pena de levar o possível raptor a sentir algum prazer no desespero dos pais.

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A informação foi revelada numa entrevista a Oprah Winfrey, mas nem isso impediu a família de ser enxovalhada quando chorava, perdia a voz ou estremecia durante as entrevistas que dava.

“Se quer falar de reações, a Kate na verdade chora. Ainda ontem chorou numa entrevista a um canal espanhol”, explicou Clarence Mitchell, porta-voz da família, que depressa foi interrompido por Sandra Felgueiras, jornalista da RTP: “Mas acha que chorou para mostrar às pessoas que chora?”.

5. Os filhos dos McCann tomaram sedativos para dormir durante a noite

Nos vários depoimentos que deram à polícia e à comunicação social, Kate e Gerry disseram sempre que apesar de levarem consigo vários medicamentos e sedativos na mala, nem Maddie nem os gémeos alguma vez estiveram sedados durante as férias em Portugal — nem mesmo durante a noite do desaparecimento.

No entanto, vários tabloides britânicos assumiram que sim após uma entrevista de Brian Healy, pai de Kate, a uma estação de televisão. “A Kate nunca usou Calpol para que a Maddie adormecesse naquela noite. Acredito que, como qualquer mãe, ela usasse esses medicamentos, mas é ridículo pensar que fez isso com os filhos. Nunca fariam uma coisa dessas”, explicou.

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Era tarde demais. No dia seguinte, as manchetes dos vários tabloides abriam com a notícia de que Kate poderia ter usado medicamentos para sedar Maddie.

6. Gerry tentou ser engraçado quando foi pressionado pela jornalista da RTP

Na primeira entrevista que o casal McCann deu à RTP depois de deixarem de ser arguidos, a jornalista Sandra Felgueiras pressionou-os com a informação relativa ao cheiro a cadáver no apartamento. Na altura, foram vários os meios que usaram a resposta de Gerry (“pergunte aos cães, Sandra”) como o intuito de danificar a imagem do casal.

No entanto, a resposta de Gerry foi mais do que isso, tal como se pode na transcrição. “Posso dizer-lhe que olhámos para todas as provas que existem sobre cães cadáver e elas são pouco fiáveis. É isso que as provas mostram, se forem testadas cientificamente.”

7. Havia um “pacto de silêncio” entre os amigos dos McCann

Além de a PJ ter suspeitado que todos os amigos à mesa na altura do desaparecimento de Maddie estavam numa espécie de conspiração para ocultar um suposto crime, o jornal “Sol” terá perguntado a um dos amigos da família, David Payne, se poderia dar detalhes sobre a noite em que Maddie desapareceu.

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À mesma publicação, Payne terá dito algo como: “Este é um assunto que só a nós nos diz respeito. Temos um pacto de silêncio e todos as perguntas e comentários devem ser passados por Gerry McCann.” No entanto, a citação terá sido mal interpretada pelo jornalista.

Num comunicado oficial emitido pelos McCann e todos os seus amigos, negaram existir um pacto para encobrir uma conspiração.

Segundo explicaram, aquela resposta dizia respeito apenas à necessidade de cooperar com as leis portuguesas referentes ao segredo de justiça — em que um caso não pode ser discutido sob pena de colocar em risco o seu desfecho e a possibilidade de um julgamento justo.