Entrevista à assessora dos McCann. “Tive vários jornalistas a ligarem-me a dizer que iam descobrir os meus podres”

Cláudia Nogueira trabalhou no caso durante três anos. Na primeira entrevista à imprensa, garante que precisamos de voltar ao essencial.

A 3 de maio, vai fazer 12 anos que Maddie desapareceu na praia da Luz, no Algarve

Quando a entrevista termina, Cláudia Nogueira dá um suspiro de alívio. Aos 46 anos, há mais de duas décadas que está ligada à área da comunicação, portanto está habituada a lidar com jornalistas. Mas neste momento é ela quem está do outro lado do gravador, ainda por cima para falar de um tema tão sensível: Madeleine McCann. Não foi fácil aceitar dar esta a entrevista, a primeira de sempre, mas tinha que ser feito.

Maddie desapareceu a 3 de maio de 2007. Dentro de poucos dias, vai fazer 12 anos desde que os pais se depararam com uma cama vazia e a filha mais velha em parte incerta. Das primeiras buscas à constituição de Kate e Gerry McCann como arguidos, muito se disse sobre esta família. Nos primeiros 19 dias, o caso Maddie foi abertura do Telejornal da RTP por 14 vezes. Entre maio de 2007 e julho de 2008, o “Público” escreveu 214 notícias sobre o desaparecimento — o “Correio da Manhã” fez um total de 384.

O frenesim dos media, mais tarde assente na divulgação de informações falsas por parte dos responsáveis pelo caso, está bem representado no recente documentário da Netflix “O Desaparecimento de Madeleine McCann”. Cláudia Nogueira esteve três anos ao lado dos McCann e acompanhou isto de perto, razão que a fez querer falar agora mais do que nunca.

Maddie desapareceu e todos nos esquecemos disso — entre artigos que diziam que os pais não registaram Madeleine à nascença ou que Kate perdeu o desejo sexual pelo marido. Maddie continua em parte incerta, e ninguém sabe se está viva ou morta. Os pais não desistem, mas os que fizeram esta luta com eles também não. À MAGG, Cláudia Nogueira garante que foram tempos complicados, mas que independentemente das nossas crenças há um facto que ninguém pode negar: a história não está fechada. E enquanto a história não estiver fechada, nenhum de nós devia conseguir descansar.

Recorda-se da altura em que ouviu dizer que tinha desaparecido uma menina no Algarve?
Acompanhei a notícia já uns dias depois, mas recordo-me. Fiquei assoberbada, como acho que ficámos todos.

Quando é que começou a trabalhar com os McCann?
Só entrei neste caso em 2009, dois anos depois de a menina desaparecer.

Durante esses dois anos, foi acompanhando os desenvolvimentos da história?
Sim, mas confesso que a partir de determinada altura deixei de ouvir para além daquilo que para mim era óbvio, que era a menina ter desaparecido.

Começou a gerar-se muito ruído.
Sim, sim.

Nesse momento já se apercebia de que havia desinformação?
Acho que o primeiro momento em que me apercebi de que havia de facto desinformação foi quando Gonçalo Amaral disse publicamente qualquer coisa como: “A mãe é super fria, eu não gostaria de ter uma mãe assim”. Foi nessa altura que o caso, pelo menos para mim, teve um volte-face muito negativo.

Juntou-se então ao caso em 2009. Estava na agência de comunicação Lift, correto?
Sim, era diretora-executiva da Lift. Houve um contacto internacional — a pessoa que fazia assessoria do casal em Inglaterra [Clarence Mitchell] entendeu que deveria haver o mesmo paralelo em Portugal, e chegou até nós por uma questão de proximidade de agências, de realidades. Convidaram-nos e nós aceitámos.

Conheceu os McCann nessa altura?
Já não me recordo das datas exatas, mas penso que tenha recebido o caso antes do verão de 2009, e conheci-os logo de seguida — eles vieram a Lisboa em maio, salvo erro. Já não vinham há algum tempo e eu fui buscá-los ao aeroporto.

O que é que achou do casal?
Achei na altura, e cheguei a comentar com o meu marido, que eram iguais a nós. Eram comuns mortais, não tinham a mesma profissão do que eu e o meu marido, mas em tudo o resto eram uma família como a nossa. De férias como a nossa. Mais ou menos da mesma idade. Não havia nada que eu pudesse dizer “Eram mais isto ou aquilo”.

Qual foi o primeiro passo depois de receber este caso?
Fui à procura de tudo: das notícias, do dossiê policial, dos livros, dos blogues (havia um inglês que era uma coisa relativamente sórdida). Fui ver tudo e perceber tudo o que já tinha sido produzido efetivamente sobre o caso.

Voltando ao início dos acontecimentos. Maddie desapareceu a 3 de maio de 2007, a 31 de agosto o casal McCann já estava numa “campanha europeia”, palavras de Kate no livro “Madeleine“, para espalhar a palavra do desaparecimento. Era uma estratégia essencial?
Eu trabalho em comunicação, portanto tenho algum defeito profissional de como poderia pôr as coisas. Mas eles foram sendo sucessivamente aconselhados, e de facto o mote deles era encontrar a filha, perceber o que é que tinha acontecido. Portanto, fizeram tudo o que lhes foi sendo sugerido como as melhores práticas em casos similares. Sentiram que tinham de montar aquela campanha porque foram aconselhados que, se não fizessem algo tão pró-ativamente…

… a história caía no esquecimento.
Sim.

E fazia sentido?
Acho que fazia sentido, sim. Se nós pensarmos noutras circunstâncias de crianças desaparecidas, foi exatamente o que os pais fizeram: chegaram ao maior número de pessoas possível. No início acho que houve uma mobilização. Mesmo falando depois com jornalistas, que estiveram desde o início a acompanhar o caso no Algarve, eles diziam: havia pessoas em todas as ruas à procura da criança. Os jornalistas viviam o caso com muita intensidade, porque um desaparecimento nestas circunstâncias não era comum — nem para os portugueses, nem para os ingleses —, mas para nós… Felizmente não temos exemplos de muitos casos destes, portanto foi algo muito emocional.

A partir de determinada altura, começam a surgir as primeiras notícias de que os pais podem estar envolvidos no desaparecimento de Maddie. De repente, a imprensa começa a ficar contra Kate e Gerry.
Sim.

Terá havido alguma coisa na gestão da campanha que não foi bem feita, ou deveu-se apenas à divulgação de informações pela Polícia Judiciária (PJ) que mais tarde vieram a revelar-se falsas?
Há uma combinação de vários fatores. Em primeiro lugar há uma questão de língua: nós somos portugueses e eles ingleses. O facto de haver uma motivação para encontrar uma criança devia aproximar-nos, e aproximou no início; mas a partir de determinado ponto, quando começam a surgir as primeiras críticas ao trabalho da PJ, começa a haver a primeira reação cá. “Somos nós contra eles. Estão a atacar-nos”. Acho que é humanamente compreensível em termos de reação.

Em segundo lugar, o gabinete de comunicação que foi constituído privilegiava sempre os jornalistas ingleses, e nem sempre os jornalistas portugueses. Ora se nós gostaríamos de ter mantido sempre um grupo coeso à procura da criança, não deveria ter havido essa diferença. Na minha opinião, foi o erro que mais prejudicou a campanha — abriu a porta a haver inúmeras interpretações sobre o porquê dos portugueses não fazerem parte do role.

A partir daí, as observações do próprio Gonçalo Amaral [não ajudaram], a dizer que a mãe era muito fria, que em muitos destes casos o mais comum é serem os pais os envolvidos.

E ele tinha como exemplo o caso Joana.
Sim. Mas se formos mais a fundo — e eu fui mais a fundo nas minhas pesquisas —, o que as estatísticas dizem é que é de facto muito comum ser alguém próximo da criança. Dentro desta esfera, porém, estão os familiares diretos, os familiares indiretos, os vizinhos, os amigos. Engloba muito gente antes dos pais. Ainda que fosse uma possibilidade, acho que nunca se deveria ter descurado outras possibilidades.

Acho que foi isso que os ingleses nunca perdoaram aos serviços de cá. E os serviços de cá depois não tinham como se defender, porque houve de facto partes da investigação que não andaram para a frente, e isso foi mais ou menos óbvio para todos.

Gonçalo Amaral não ajudou quando classificou Kate de uma mulher fria, mas nessa altura a imprensa já dizia que era estranho os pais não mostrarem emoções. No livro de Kate e no documentário da Netflix, é explicado que foram aconselhados nesse sentido, para não dar prazer aos possíveis raptores. Foi errado?
Ninguém está preparado para uma situação destas. Nós não aprendemos em miúdos na escola que se um dia isto acontecer, devemos agir assim e assim. Numa situação destas, e eu depois também aprendi isso quando comecei a trabalhar neste caso, aparecem todas as pessoas e mais algumas que são alegadas especialistas em vários temas.

Eles ficaram à mercê de muitos desses conselhos. Portanto, eles foram agindo como iam achando que seria melhor, e isso beneficiou-os em determinados momentos e prejudicou-os noutros. Agora, acho uma tontice, mais do que uma hipocrisia, nós julgarmos estas pessoas aos nossos olhos de comuns mortais. Basicamente, depois o desporto preferido das pessoas foi dizer: “Eu não faria assim, eu não faria assado”.

Eu não sei o que seria melhor se uma coisa destas me acontecesse. Provavelmente seguiria a minha convicção, e provavelmente foi isso que eles fizeram.

Na altura em que Kate é constituída arguida, é aconselhada pelo advogado a não responder a nenhuma das questões. Há 48 perguntas que ficam sem resposta. Foi a melhor decisão ou acabou por virar-se contra o caso?
Acho que, depois, tudo o que podia virar-se contra o caso, contra eles, virou-se. Sinceramente. Acho que não foi preciso um determinado acontecimento ter tido lugar para que depois se virasse contra eles. A partir de determinada altura valia tudo. E ela é de facto aconselhada a não responder, provavelmente também para se defender disso — qualquer coisa que respondesse podia virar-se contra ela.

Claro está que nós, comuns mortais, vamos analisar tudo isto com os nossos olhos de leigos, de quem não percebe nada disto. Quem eu acho que esteve efetivamente mal foi, outra vez, a PJ, que não deveria ter libertado pontos de vista não factuais cá para fora. Eles próprios, com o conhecimento de causa que tinham, deviam manter-se factuais e manter a opinião pública naquilo que era — e ainda é — o mais importante: o que é que aconteceu? Onde é que está a criança?

Acha que a PJ foi a principal responsável para que houvesse uma mudança na opinião pública sobre o caso?
Acho. Não diria a PJ, mas sim o Gonçalo Amaral, que deu a cara por muitas observações que foram pouco factuais, objetivas, sérias. Personalizo nele. Acho que alargar isto à instituição da PJ é uma maldade, mas ele em particular acho que conduziu muito mal o caso.

Há um determinado momento em que os McCann acabam por decidir voltar a casa. Foi a melhor estratégia?
Há uma altura em que eles sentem que têm de voltar a casa pelos outros dois filhos, pela normalidade da família dentro desta anormalidade de acontecimento. E eu percebo [esta decisão]. Nem imagino a tristeza que deve ter sido fechar as malas e ir embora sem uma criança que continuava desaparecida. Custa-me imaginar como é que é possível arranjar força.

Kate disse-o publicamente, pelo menos no livro: as outras duas crianças mereciam este respeito, a vida continuava para elas.

Falando precisamente no livro. Kate parece uma mulher muito extremosa, com um lado muito maternal. Ela escreve inclusivamente que ter ou não filhos nunca foi uma questão, a questão era quando. Também ficou com essa sensação quando a conheceu?
Sim. Era uma mãe muito presente, muito de contacto. Falámos muito de mãe para mãe, e nunca foi uma questão para mim haver ali qualquer coisa menos clara neles enquanto pais.

Nunca duvidou da inocência deles?
Nunca. Para mim nunca foi uma questão. Não tinha nada na altura, como não tenho hoje, que me diga que eles fizeram alguma coisa. Nunca esteve em cima da mesa. Também houve sempre abertura da parte deles para fazer todas as perguntas, para colocar todas as minhas questões. E eles sempre me responderam.

Quando começa a trabalhar com o caso McCann, o que é que achou que tinha de mudar?
O que na altura nós falámos foi precisamente aquele ponto que lhe tinha dito: achei que separar portugueses para um lado e ingleses para o outro não era uma coisa que fizesse sentido. E não fazia sentido porque devíamos estar todos alinhados com aquilo que era, e ainda é, a verdadeira questão: saber o que é que aconteceu e onde é que está a criança.

Eles foram a julgamento, e quase de imediato apercebemos-nos que havia dois julgamentos a decorrer: um dentro da sala do tribunal e outro cá fora, na opinião pública”

Fazia sentido juntar toda a gente. Aquilo que fizemos na altura foi como se estivéssemos a começar de novo: convidar todos os jornalistas e aproveitar a vinda dos McCann a Portugal para pô-los a conversar. E não impedir ninguém de colocar questões. Eles acederam de imediato e foi uma conversa, uma espécie de conferência digamos, em que eles estiveram muito disponíveis. E acho que os jornalistas portugueses sentiram isso, que havia uma abertura a partir daquele momento.

Para minha surpresa, houve alguns jornalistas portugueses que disseram isso mesmo: continuava tudo “fresco”, a criança continuava desaparecida, e era essencial que houvesse esta abertura para que todos se focassem em perceber o que é que tinha acontecido.

Naturalmente, houve meios que já tinham seguido numa determinada direção e que se mantiveram fiéis a ela, mas abriu-se uma porta para falarem com outros argumentos. Achei isso bastante marcante e positivo. A partir daí fomos falando sempre com os jornalistas, e respondendo às questões que colocavam sem deixar ninguém sem resposta.

Mas dois anos depois, Kate e Gerry já tinham sido ilibados, e já se sabia que a PJ tinha divulgado informações não factuais. Os media continuavam a seguir a linha de que os pais eram culpados?
O forte começa a ser perseguido quando Gonçalo Amaral publica o livro dele [“Maddie — a Verdade da Mentira“]. Aí há um novo fôlego na teoria de que eles são os culpados, porque ele era o investigador principal e vem a público dizer uma coisa destas. Ele alegava que tinha de se defender.

A família processou Gonçalo Amaral por difamação. Como é que o público sentiu isso?
Eles foram a julgamento, e quase de imediato apercebemos-nos de que havia dois julgamentos a decorrer: um dentro da sala do tribunal e outro cá fora, na opinião pública. E o da opinião pública correu sempre muito mais célere do que dentro da sala de julgamentos. No final, sabíamos que se a decisão tomada dentro do tribunal fosse diferente da opinião do público, pareceria sempre que eles estavam ser ajudados por uma força maior. E não era verdade: ali as coisas passam-se num registo meramente legislativo, factual, com provas e indícios, e deste lado não vale tudo mas quase. Era uma coisa difícil de ir gerindo.

Nesta altura a opinião pública estava toda com Gonçalo Amaral?
Não diria que estava toda. Havia duas nuances muito díspares: nessa altura, Gonçalo Amaral saía da sala, vinha cá fora e falava com os jornalistas, resumia tudo o que tinha dito e ainda acrescentava mais alguma coisa. Os jornalistas que estavam a assistir eram portugueses, tinham muito mais à vontade e proximidade de língua. Havia a questão do tribunal e a questão da língua.

Podemos dizer que houve um certo nacionalismo?
Não sei se colocaria como nacionalismo, mas houve várias manifestações negativas para o caso. Houve quem dissesse que nunca se tinha visto este género de movimento com uma criança portuguesa. Bem, eles não tinham culpa disso.

Quem era o pai que, com o poder de mexer o mundo, não o mexia.
Não acho que eles tiveram o poder de mexer o mundo. Acho que houve uma combinação de fatores sucessivos que deu a este caso uma magnitude completamente diferente. Aconteceu em Portugal, sim, mas a criança e a família eram inglesas. Quando os pais comunicam à família, alguém se predispõe a falar com alguém que conhece alguém que conhece um jornalista, portanto pode ser que ajude. E chega a um jornal. Um jornal que depois tem capacidade para mobilizar uma equipa para vir para Portugal. Isso gera um movimento inglês de virem outros a reboque.

Dá uma dimensão ao caso que dificilmente daria se fosse português. Depois, o embaixador inglês, que foi prontamente para o local; o facto de os serviços ingleses terem disponibilizado vários serviços para ajudarem o casal fora de portas; o Gordon Brown era primeiro-ministro há pouco tempo, queria também mostrar um lado mais humano. O papa Bento XVI também precisava, diziam, de mostrar um lado mais humano. Há uma série de fatores que tornaram este caso único.

A partir de determinada altura, isso gerou anti-corpos. Não sei se lhe chamaria nacionalismo, mas anti-corpos, sim.

Foi difícil para si acompanhar este caso?
Aconteceu-me tudo: jornalistas que estavam do lado contrário serem impecáveis no trato, dizerem que iam fazer uma peça num determinado sentido e se o casal queria dizer alguma coisa. Isso é jornalismo. Aconteceu também ter jornalistas que estavam do lado do casal e que iam fazer perguntas aos intervenientes do outro lado. Isso é jornalismo.

Tive vários jornalistas a ligarem-me a dizer que iam descobrir os meus podres, e que iam publicar os meus podres. Eu sou um livro aberto. Esqueletos no armário? Não sei o que isso é. E eu dizia: força. “Não, mas vais ver, vou descobrir tudo, e os teus filhos”. Pôr os meus filhos de repente neste relambório é desviar as coisas do jornalismo para uma parte que não sei bem que nome lhe dar. Não é jornalismo de certeza.

Aconteceu-me também estar em tribunal a acompanhar o julgamento e fazerem-me esperas. Uma vez deixei o carro mal estacionado e foram fazer queixa ao polícia para me multarem. O polícia depois pediu-me desculpa, porque tinha sido aquela pessoa ali — e identificava as pessoas — que tinha ido fazer queixa a um polícia, e depois tinha vindo outro, e outro.

Isto tudo por parte de jornalistas?
De jornalistas e de apoiantes do Gonçalo Amaral. Mas de jornalistas também, por incrível que pareça. Na altura isso não me fez ter medo absolutamente nenhum, mas deu-me vontade de trabalhar ainda mais e de ir à procura da verdade.

Acredita que ainda há muita gente hoje em Portugal que acha que eles são culpados?
Vou aceitar que sim. Ainda hoje — já não trabalho com eles há algum tempo [desde 2012] — há pessoas que me dizem que eles fizeram mal nisto, ou bem naquilo; ou que a criança morreu, ou que está viva. Eu já ouvi, e continuo a ouvir, todo o género de teorias, portanto acredito. O que eu gostava que fosse comum a todos é que há uma criança que continua desaparecida vai para 12 anos. Ninguém sabe o que é que aconteceu, para onde é que ela foi. Não há uma pista que valha a pena ser seguida.

Não acho que a família guarde rancor à instituição [PJ]. Eles sabem que houve muito boa gente a dar o seu melhor, fora de horas, a fazer sacrifícios”

E isso acho que nos deveria afligir a todos. Para os que defendem que a criança está viva, isso é absolutamente fundamental. Para os que defendem que a criança infelizmente já terá morrido, não parece justo que os pais não possam fechar este tema com uma certeza. Para os que dizem que eles fizeram bem, continua tudo em aberto, continuemos então à procura. Para os que dizem que eles fizeram mal, ok, mas continuemos todos à procura.

Ao final do dia, isto é que deveria preocupar todas as pessoas: há uma criança que vai fazer 15 anos, assumindo que está viva, que continua desaparecida e não há ninguém no mundo que tenha a mais pequena ideia do que é que terá acontecido. E isso deveria tirar-nos o sono a todos.

Uma das maiores críticas aos pais foi o facto de terem deixado as crianças sozinhas. No documentário fiquei com a sensação de que poderia ser algo um bocadinho cultural — para os ingleses eram normal, para os portugueses impensável.
Segundo várias pesquisas que fiz na altura, não é tão impensável assim. Nós é que depois relativizamos as distâncias. E aquilo que para nós parece impensável neste casos, há pais que levam as mãos à cabeça e pensam “Já fiz isto” ou “Já fiz aquilo”. “Pus em risco os meus filhos, sem ter a intenção”.

Em todo o caso, a minha resposta é: ok, assumindo que eles erraram por terem deixado as crianças no quarto, isso é escancarar a porta para que as crianças sejam raptadas? Não.

Também há outra questão associada a essa. Há quem diga que eles deixavam as crianças no quarto para puderem ir jantar e beber à vontade, e culturalmente até podemos pensar que os ingleses bebem mais do que nós, mas as faturas do restaurante não revelavam nada disso. Havia álcool a circular no jantar mas ninguém estava alcoolizado. Foi mais uma coisa que foi deturpada e mal apresentada.

Acha que a família McCann ainda guarda rancor a Gonçalo Amaral e à restante equipa que acompanhou o caso?
Não acho que a família guarde rancor à instituição [PJ]. Eles sabem que houve muito boa gente a dar o seu melhor, fora de horas, a fazer sacrifícios. Não há de ter sido fácil para as equipas no terreno terem acompanhado tudo e sido incansáveis. Não acredito que a PJ tenha falhado enquanto instituição. Agora, uma coisa é a instituição, outra coisa é a equipa. E em todas as instituições e profissões, há quem faça um bom trabalho e um mau trabalho; mesmo os bons profissionais têm dias maus, não é verdade?

Agora, se conseguíssemos ser todos maiores do que isso e ser mais responsáveis para com a Madeleine, que estava desaparecida e continua desaparecida, acho que teria sido manifestamente muito mais aceitável como humanos que somos. O mesmo para a polícia, e o mesmo para os investigadores.

Não sei se teve oportunidade de ver o documentário.
Ainda não vi todo, vou no segundo episódio.

Não querendo fazer spoiler, mas tendo que fazer, no final o documentário sugere que pode haver uma ligação entre o caso Maddie e Joana. Acredita que poderia haver uma rede de tráfico a atuar no Algarve?
Não tendo visto o documentário completo, mas do que li de resumo, é licito que se abra portas a outras possibilidades. Outra vez, gostava que as nossas atenções se focassem no que aconteceu. Se esta for mais uma pista, ok. Percorram-se as pistas todas mas descubra-se o que é que aconteceu à Madeleine. E a outras crianças — se essa é uma teoria com alguma substância, se há indicadores que apontem nesse sentido, então que se investigue. É uma acusação muito grave e que deveria ser investigada.

Os McCann não quiseram fazer parte do documentário. Faz ideia porquê?
Não faço ideia, não falei com eles recentemente, mas não me surpreenderia que, de tantas vezes que já foram maltratados, tivessem receio que esta fosse mais uma circunstância em que eles participam porque pode ser mais uma oportunidade e no final vira-se contra eles.

Quase 12 anos depois, eles estão cansados da imprensa?
Acho que cansados com a imprensa em geral não estão. Acho que devem ter uma grande frustração por não terem uma pista nova 12 anos depois. Isso acredito que deva dar a muitas emoções.

Acha que ainda vai ser possível encontrarmos respostas?
Eu acho que sim. Não me parece que existam aqui cenários otimistas ou pessimistas. Enquanto não se souber nada, tudo é possível. Até porque há efetivamente muitos casos de crianças que estavam mesmo ali ao lado de casa e foram descobertos por uma circunstância feliz qualquer. Outras que foram levadas para mais longe, mas que depois também foram descobertas.

Gostava de acreditar que o que aconteceu naquela noite se vai saber, e gostava que fosse o mais rápido possível.

No documentário, Gonçalo Amaral parece manter a posição de que foram os pais.
Ele tem um livro escrito sobre essa teoria, portanto não vai nunca defender outra coisa.

No final do documentário, Jim Gamble, especialista em proteção de crianças, diz: “Acredito que, enquanto sou vivo, ainda vamos saber o que aconteceu a Madeleine McCann.” Também acredita?
Eu gostava. Ainda trabalhei com Jim Gamble, e de facto aquilo que ele diz no primeiro episódio, que são os avanços da tecnologia usados nestes casos, dão-nos esperança que venhamos a saber o que aconteceu.

Acredita que Maddie está viva?
Tenho espaço para todas as possibilidades. Gostava de acreditar que ela está viva, mas, efetivamente, o que eu gostava mesmo era de saber o que é que aconteceu. Acho que é o que me marca mais. Claro que quero acreditar que ela está viva, claro que quero acreditar que estando viva está bem. Não faço a menor ideia, como ninguém faz, de quais são as implicações em nenhum desses cenários. Prefiro não pensar nisso, prefiro acreditar que ela está viva e que estará bem. Mas, antes de tudo mais, gostava de saber o que é que aconteceu.

Acha que alguma vez os pais vão desistir de a procurar?
Acho que não. Esta agonia de não saber o que é que aconteceu… Não quero imaginar o que é isso.

É como se fosse um limbo.
Exatamente.

Não conseguem avançar para uma vida “normal” nem sair do luto.
Sim. Nunca consegui imaginar o que é isso, e foi algo que esteve lá durante todo o tempo em que trabalhei com eles. Por isso acredito que eles nunca desistam. Como é que uma pessoa se deita todas as noites a pensar que há um capítulo em aberto? E este capítulo não é um novo par de botas, é uma filha. Ano após ano, como é que é possível lidar com isto? Eu não sei.

Ficou uma relação de amizade?
Ficou. Eu escrevo-lhes ocasionalmente, eles escrevem-me de volta. Continuo a inclui-los sempre que rezo ou sempre que peço que aconteça alguma coisa boa. Gostava muito que eles tivesse uma resposta.

Texto de Marta Gonçalves Miranda, fotografia de Samuel Costa.
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