O dia em que contei aos meus pais que sou homossexual

"Era só isso que tinhas para contar?", "Eu só quero que sejas feliz". Reações de pais que ouvem os filhos assumirem a sua homossexualidade.

Ana recorda a comparação que o pai fez entre o facto de ser lésbica e o Afeganistão

Jana Sabeth Schultz/Unsplash

“Ó Pedro, tu és gay?” Foi esta a pergunta que desarmou Pedro Azevedo, de 22 anos, que no 9.º ano foi confrontado pela irmã com esta questão. “Ela quase me forçou a pensar no assunto, que era uma coisa que eu tentava não fazer. Tentava adiar o máximo possível e estar bem com isso”, confessa o jovem portuense.

Na altura, Pedro achou que seria bissexual, e foi o que respondeu à irmã. Até porque já tinha tido namoradas, e tinha realmente gostado delas. No entanto, acabou por perceber que se tratava de uma descoberta. “Se passas a vida toda a comer batatas, vais gostar de batatas só; mas se calhar se provas arroz, já gostas de arroz e batatas, e depois até começas a gostar mais de arroz do que batatas”, diz Pedro, rindo com a comparação. A pergunta da irmã foi crucial, no entanto, pois considera que “já mostra uma aceitação, sem julgamento, o que é meio caminho andado para te aceitarem melhor”.

Para Pedro é difícil datar o momento exato em que soube que era homossexual, pois considera que se tratam de fases da vida. Sempre teve “uma série de comportamentos que, à partida não seriam, segundo os papéis de género” — com os quais hoje discorda totalmente — “estranhas”, nomeadamente não gostar de jogar futebol ou gostar de brincar com as bonecas da irmã.

Em criança, ninguém associa essas questões à homossexualidade. No entanto, quando começou a crescer, Pedro começou a perceber que os seus interesses eram outros, e que algo era, realmente, diferente. Na altura, e embora não goste “muito de dizer isso”, de alguma forma o Facebook fez com que pudesse entrar em contacto com pessoas que à partida teriam “mais a ver” com ele. “De alguma forma, fez-me perceber que afinal não estava assim tão sozinho neste mundo”, confessa.

“Dizer que é por isto é redutor, mas a verdade é que, aos poucos, começas a perceber que há pessoas que gostam das mesmas bandas que se calhar os teus amigos não gostam, dos mesmos filmes. Ou seja, não estou a dizer necessariamente que os homossexuais gostam de umas coisas e que os heterossexuais gostam de outras, mas na fase da adolescência há sempre uma tendência para optar por vários caminhos, e eu senti que os meus amigos não estavam no mesmo mood que eu”, esclarece.

Os nossos pais, quando de facto estão atentos e quando gostam de nós e se preocupam, sabem. Não dei novidade nenhuma a nenhum dos dois”

Pedro disse aos pais em momentos diferentes que era gay, embora tenha a certeza que não foram precisas estas conversas para descobrirem. “Os nossos pais, quando de facto estão atentos e quando gostam de nós e se preocupam, sabem. Não dei novidade nenhuma a nenhum dos dois”.

Pedro recorda à MAGG o momento em que assumiu aos pais a sua homossexualidade — primeiro à mãe, anos mais tarde ao pai. Já para Francisco foi preciso ter a mãe de um lado e o pai do outro para dizer aquilo que realmente era. Hugo revela a chamada telefónica que o “denunciou”, Carmo admite que o pai nunca soube que ela era lésbica e Ana conta a comparação que o pai fez entre o facto de ser lésbica e o Afeganistão.

O dia em que contei à minha mãe que sou homossexual (Pedro Azevedo, 22 anos)

“Num sábado, à hora de almoço, estávamos a almoçar e houve uma grande discussão, em que eu saí dramático da mesa e vim a correr para o quarto. A minha mãe veio atrás de mim. Foi nesse momento, em que eu estava completamente alterado, stressado e a chorar por causa da discussão, que lhe contei. Disse-lhe que achava que gostava de pessoas — não gostava de homens, nem de mulheres, gostava de pessoas. A minha mãe acabou por reagir da forma esperada, dizendo-me que o que a mais preocupava era a maneira como eu aceitava isso. Por ela obviamente que não havia nenhuma questão, mas tinha medo que eu não me aceitasse. Tinha medo que eu não conseguisse viver bem com aquilo que eu era. Disse-lhe que podia estar descansada, eu conseguia viver muito bem.

Depois a minha mãe perguntou mesmo: ‘Mas achas que és bissexual ou estás a dizer-me isso só para ver se eu aceito melhor porque és de facto homossexual?’. Na altura eu achava mesmo que era bissexual. Hoje, e tendo uma relação super estável com um rapaz há cinco anos, é impensável para mim ver-me como bissexual. Mas lá está,  também não nego porque não sei, não gosto de separar as coisas.”

O dia em que contei ao meu pai que sou homossexual (Pedro Azevedo, 22 anos)

“Durante as férias de verão, estávamos a discutir todos pela casa aos berros, a disparatar, e eu tive uma saída triunfal em que disse ao meu pai: ‘E tu tens um filho homossexual e nem sabes’. O mais engraçado é que foi só isto. Largar a bomba e fugir. Disse isto, bati com a porta e ficou assim. Depois desta situação, nunca tive uma conversa calma com o meu pai. Acabei por vir morar para o Porto, e a verdade é que o meu pai agora vem a minha casa e do meu namorado. Aceita o meu namorado e eles dão-se super bem.

Agora ia ser estranho ter uma conversa séria com o meu pai, pois já não sinto essa necessidade. Talvez, numa altura, tivesse gostado de ter uma conversa como tive com a minha mãe. Agora é quase como se sentisse que o meu pai já me provou por todos os motivos e mais algum, que aceita como eu sou e que gosta do meu namorado. A nossa relação de pai e filho mudou, mesmo a postura do meu pai. Desde que lhe contei, tudo mudou radicalmente para melhor.”

O dia em que contei aos meus pais que sou homossexual (Francisco Andrade, 24 anos)

Não sou 50% composto pela palavra homossexual, é uma pequenina parte, somos várias coisas. Essa pequenina parte, não estava exposta aos meus pais”

“Os meus pais tinham vindo a Lisboa, tínhamos ido passear por Belém, e eu estava a por na balança ‘é hoje, não é hoje, é hoje, não é hoje’. O medo sempre foi muito traiçoeiro para mim, porque eu nunca sabia qual é que era o momento e eu nunca sabia o que havia de dizer. Não sou 50% composto pela palavra homossexual, é uma pequenina parte, somos várias coisas. Essa pequenina parte, não estava exposta aos meus pais.

Nesse dia de verão, eu tinha acabado de gravar uma novela, estava muito feliz com a minha parte profissional, e lembro-me que partilhei isso com eles, foi das minhas primeiras experiências a fazer telenovela e senti-me realizado, só que, ao mesmo tempo, nesse dia, senti uma grande frustração, porque, a minha parte profissional estava realizada e estava a exteriorizar isso aos meus pais, e um parte de mim sentia-se triste: ‘porque é que não podia dizer que estava a conhecer um rapaz da mesma forma que estava a dizer que fazia novelas e que tinha de decorar texto?’

Viemos para casa, e eu sempre angustiado. Cheguei cheio de fome, e eram cerca das 20h quando pedi à minha mãe para aquecer uma sopa. Enquanto a minha mãe estava a aquecer as outras sopas, eu, como estava cheio de fome, comecei a comer sem esperar por eles. Quando comecei a comer a minha mãe berrou-me: ‘Mas nem esperas por nós? Foi essa a educação que eu te dei?’ E foi a partir desse momento, que essa frustração, que estava mesmo à iminência de sair cá para fora, começou a sair. Lembro-me que comecei a soluçar, não comecei logo a chorar, comecei a soluçar, eu parecia, metaforicamente, uma moto4 que quer arrancar e não consegue. Entretanto, a minha mãe percebeu ‘calma, ele não está só assim por eu lhe ter falado mal e por estar a comer primeiro do que toda a gente, passa-se qualquer coisa’. Os meus pais sentaram-me e lembro-me que estavam muito preocupados comigo — estou todo a tremer por me lembrar do momento, desculpa.

Fiz uma birra de miúdo de 12 anos, atirei a colher para o chão e fui para o quarto, porque eu próprio não queria ser confrontado com aquela realidade. Entretanto comecei aos berros, eu não estava em mim, de tão nervoso. Deitei-me a chorar, pus a cabeça na almofada e desatei a chorar, a chorar, a chorar, e a minha mãe apareceu a perguntar “mas o que é que se passa? o que é que se passa? conta-me”. Eu só dizia ‘sai daqui, sai daqui’, como se de repente, os meus pais não fossem os meus melhores amigos, e eu não me quisesse confrontar com isto. Era o medo que estava bloqueado, que de repente, estava a agitar e que, ou vinha cá para fora, ou inventava alguma coisa, que nem enquanto ator conseguia fazê-lo naquele momento. Os meus pais perguntavam: ‘mas estás doente?’

A minha mãe deu-me uns minutos para eu chorar e voltou a perguntar se eu queria jantar e se já podia voltar para a mesa e começou a dar-me colo e mimos, que é a coisa mais maravilhosa que podemos ter, que é o colinho da mãe e do pai, daí eu dizer que, aos 22, parecia que tinha12 anos.

Entretanto, comecei a chorar outra vez, e aí apercebi-me que era checkmat. Disse à minha mãe para chamar o meu pai e ele veio também ao meu quarto. Os meus pais levantaram-me da cama, sentaram-me, e eu respirei fundo. Acho que foi um momento muito bonito, visto de fora, se eu tivesse uma máquina fotográfica, acho que devia ser um momento muito bonito, porque era a minha mãe a pegar-me na minha mão esquerda, era o meu pai a pegar na minha mão direita, e ambos a agarrarem-me com as duas mãos, e eu continuava tal e qual como uma moto4, que tem toda a potencialidade e todo o apoio dos meus pais para arrancar, só que naquele momento estava uma moto4 perra. Então, foi aquela força que os meus pais me deram, que é inexplicável, portanto, foi através daquele trocar de mãos, que de repente, no meio de tanto soluçar lá me saiu “eu, eu, eu gosto de meninos” e continuei a chorar.

Ó seu parvahão, é isto, é isto que que tinhas para contar?

Entretanto, a minha mãe desmanchou-se em lágrimas, acho que de alívio, por saber que não era nada de grave, não era uma doença grave, e só sei que me chamou de parvalhão, “ó seu parvalhão, é isto, é isto que que tinhas para contar?” Depois claro, vieram as palavras reconfortantes, lembro-me do meu pai dizer ‘Ó pá, tu realmente és o nosso orgulho, então os pais amam-te e tanta coisa para dizeres isto! Estávamos aqui a sofrer contigo, a acharmos que tinhas uma doença, ou que era grave e era só isto?’

Demos um abraço os três, fomos jantar, e  foi um grande alívio, saiu uma pedra dentro do meu coração, enorme. No entanto, lembro-me que aquele jantar, foi estranho, porque eu sabia que era eu, continuava a ser eu, mas ao mesmo tempo estava a estranhar porque os meus pais tinham descoberto aquele segredo que era só meu, e que pertencia só aos meus amigos e ao meu universo só de Lisboa”.

O dia em que contei ao meu irmão que sou homossexual (Francisco Andrade, 24 anos)

Mas…isso quer dizer que eu não vou ser tio?”

“O meu irmão soube primeiro que os meus pais, uns meses antes. Ele tem uma namorada, estávamos na praia, eu estava a fazer perguntas relativamente ao namoro deles, que na altura era recente, “olha tu vê lá que ela é boa miúda, vê se a tratas bem” e ele vira-se para mim e perguntou-me ‘então e tu? miúdas?’, e eu olho para ele, e faço uma pausa, não digo nada.

De repente, desviámos o olhar, olhámos para o mar e como eu não tinha dito nada, ele olha para mim e pergunta-me ‘mas… isso quer dizer que eu não vou ser tio?’ e, portanto, através de um olhar cúmplice de irmãos, percebi que ele já sabia, nunca ouviu da minha boca ‘eu sou gay, ou eu sou homossexual’, ele soube, desde o início, e sempre aceitou. E eu disse “claro que vais, e vais ter muitos sobrinhos!”

O dia em que contei aos meus pais que era lésbica (Ana Correia)

“Tinha 24 anos quando decidi contar tudo aos meus pais. Inconscientemente sempre soube que era lésbica, mas só aos 24 anos assumi isso, para mim mesma, e para os meus pais. Estava na casa dos meus pais, em Viana do Castelo, a preparar-me para apanhar o comboio para Lisboa. A minha mãe estava a pressionar-me para falar sobre o meu ex-namorado — tinha acabado com ele há cerca de 8 meses, quando realmente tinha aceite para mim aquilo que realmente sou — porque ela pensava que eu ia reatar a minha relação com ele. Então comecei a ficar frustrada e fui fazer a mala para a viagem.

A minha mãe seguiu-me até ao quarto para me continuar a perguntar o que se passava. Eu tive uma relação um pouco conturbada com a minha mãe a certa altura da minha vida, então não achava que ela ia querer ouvir o que eu tinha para dizer. Disse lhe mesmo: ‘acho que não queres ouvir aquilo que eu tenho para dizer’. Ela continuou a fazer perguntas até ao momento que perguntou: ‘então o quê? És lésbica?’

E eu pensei, ‘é agora ou nunca’ e disse-lhe que sim. Ela deu dois passos para trás e começou a chorar. Eu pensei logo ‘pronto, é agora, vão me deserdar’ (risos). Entretanto a minha mãe diz: ‘eu só quero que sejas feliz’, e saiu-me um peso enorme dos ombros.

Olha, já vi muita merda no Afeganistão, isto não é nada”

Continuou-me a fazer perguntas e eu fui respondendo, até que ela diz ‘então e o teu pai?’ Eu pensei: ‘hum, não lhe vou contar agora, não quero passar por isso agora’, tendo em conta que era ele que me ia levar à estação de comboios. Mais tarde, quando já tinha saído do comboio, a minha mãe liga-me a dizer que lhe tinha contado. Fiquei super apreensiva com a opinião dele. Ela passou-lhe o telemóvel e ele disse: ‘olha, já vi muita merda no Afeganistão, isto não é nada’, enquanto se ria. Esta foi a maneira do meu pai, que já tinha sido militar, dizer que estava tudo bem”.

O dia em que contei à minha mãe que era gay (Hugo Leitão, 22 anos)

“Quando tinha 14 anos, uma vez a minha mãe ouviu-me a falar com um amigo ao telemóvel. Entrou pelo meu quarto e perguntou-me se eu gostava de homens. Estava nervosa e séria. Eu respondi que sim. Ela deu-me um abraço e disse: está tudo bem, riu-se e saiu do quarto. Senti-me envergonhado, pois quando descobrimos quem somos, neste caso, quando descobrimos a homossexualidade, parece sempre estranho não sermos ‘como os outros’.

Na altura era muito novo para gerir toda a situação, e, de certa forma, senti-me invadido e ‘obrigado’ a dizer a verdade. Sabia que era só uma resposta, e que o mais importante estava por vir. Só mais tarde falamos nisso, e hoje em dia é algo o mais normal possível. Até porque nem eu me lembro que tenho esse rótulo. De facto, não o tenho. Infelizmente há muitos homens e mulheres que passam por uma situação traumatizante, o que não foi o meu caso.

No caso do meu pai, ele soube porque me conhece, e para quem convive comigo, dá para perceber. Ele chegou a perguntar à minha mãe se ela sabia se eu era gay, mas ela disse-lhe para ele falar comigo. Nunca aconteceu, mas no entanto, estamos resolvidos nesse aspeto. Apesar de nunca ter havido uma conversa direta, inicial, já falamos sobre uma pessoa com quem estive. É uma relação bonita e de respeito, tal e qual como com a minha mãe”.

O dia em que contei à minha mãe que sou lésbica (Carmo Bexiga, 28 anos)

“O meu pai faleceu antes de eu lhe contar. Com a morte dele e a necessidade de mudar de vida, senti necessidade de contar à minha família o meu verdadeiro eu. Tinha 21 anos na altura, quando decidi que era a hora de contar à mãe e ao irmão que era homossexual.

Estava a trabalhar na Comporta, e tinha uma relação com uma rapariga. Tinha 21 anos na altura, e fui a casa para contar à minha mãe. Estávamos a almoçar, a minha mãe estava a pôr a mesa e eu disse que precisava de falar com ela. Ela perguntou-me sobre o quê, e eu disse-lhe que lhe queria contar uma coisa que ela já sabia, mas que não sabia pela minha boca. Ficou com uma cara de “o que é que me vais contar” e nisto, ela ia dar uma colherada na sopa e eu disse: ‘então olha, a tua filha é bissexual’. Não lhe disse que era lésbica para não ser um choque tão grande. Ela engoliu a sopa e começou-se a rir, com um ar de gozo e eu perguntei: ‘e agora? o que é que queres fazer?’ ao que ela respondeu: ‘eu não quero fazer rigorosamente nada, porque os gostos são teus’, e começou-se a rir.

Uma vez alguém foi dizer ao meu pai que eu tinha estado aos beijos com uma rapariga, e ele pediu-me que me fosse confessar.

O meu maior medo era mesmo a reação do meu pai. Uma vez alguém lhe foi dizer que eu tinha estado aos beijos com uma rapariga, e ele pediu-me que me fosse confessar. Eu já tinha na cabeça que ia desmentir tudo. Assim foi, e ele morreu sem saber. No entanto, hoje em dia, a aceitação da minha família é total”.

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