Produtora portuguesa conquista um dos apoios mais prestigiados do cinema mundial (e com uma história fascinante)

O fundo, criado pelo Sundance Institute – organização fundada pelo ator norte-americano Robert Redford – em parceria com a Sandbox Films, selecionou 16 projetos e 47 cineastas de vários países, e entre eles está o projeto da Alecrim Vagabundo. Saiba tudo.

É raro sabermos, no nosso dia-a-dia, quando é que o cinema português está a ganhar terreno lá fora – e a verdade é que parece ainda mais raro percebermos o impacto real dessas conquistas. Mas há exceções que merecem ser destacadas: a Alecrim Vagabundo, uma jovem produtora portuguesa, acaba de ser selecionada para receber apoio do Sundance Institute Sandbox Fund, uma das iniciativas mais prestigiadas do cinema independente mundial.

Ou seja, só por aqui percebe-se rapidamente que este é um feito inédito em Portugal, que coloca a produtora no mapa internacional num momento em que este tipo de reconhecimento se torna cada vez mais competitivo, especialmente para países pequenos como o nosso. “Alguém tinha de ser o primeiro, e ficamos felizes em abrir este caminho e inspirar outras produtoras portuguesas a fazerem o mesmo”, começou por explicar o fundador da produtora, Kiko Saraiva, à MAGG.

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O fundo, criado pelo Sundance Institute – organização fundada pelo ator norte-americano Robert Redford, que morreu em 2025 – em parceria com a Sandbox Films, selecionou então 16 projetos e 47 cineastas de vários países nesta ano de 2026, e entre eles está, assim, o projeto da Alecrim Vagabundo, “The Mammoths that Escaped the Kingdom of Erlik Khan”, que reflete o crescimento do cinema documental que quer cruzar tópicos como ciência, arte e território humano. 

“Contar com o apoio do Sundance Institute é um reconhecimento de que estamos no caminho certo”, afirmou o responsável da produtora. “A nossa intenção enquanto produtora é contribuir para o reconhecimento do cinema e audiovisual português mundo fora, trazendo inovações nas parcerias e formas de financiamento dos nossos projetos”, acrescentou, deixando claro que, para a Alecrim Vagabundo, esta seleção não é apenas um prémio, mas sim uma afirmação de posicionamento no panorama internacional.

E sobre o que é, afinal, o filme? O projeto distinguido é realizado por Tamara Kotevska, e insere-se na linha editorial do fundo, que privilegia obras que cruzam cinema e ciência. “‘The Mammoths’ fala sobre as tensões geracionais vivenciadas por uma família Dolgan, na Sibéria”, explicou Kiko Saraiva. “Mas no subtexto estão os impactos não apenas da globalização num contexto tão único, mas também das alterações climáticas na forma como este povo vive”, continuou.

“O degelo do permafrost – a camada de solo permanentemente congelada na Sibéria – é o que dá acesso às presas de mamute que estão no cerne do documentário. Representa também um grande risco global pela quantidade de gases com efeito de estufa acumulados durante milhares de anos a serem libertados na atmosfera, e essa é a vertente científica que se liga diretamente ao propósito do apoio em questão, com o destaque do tema a ser tratado a partir da exploração das relações humanas”, contou o fundador.

Posto isto, o filme acompanha então Vladik, um jovem pastor de renas que se encontra dividido entre a herança dos seus antepassados e a promessa de riqueza associada à exploração das presas de mamute. No entanto, o projeto vai mais longe do que uma narrativa familiar. “Este filme é, acima de tudo, uma história sobre conflito – não apenas entre pessoas, mas entre mundos diferentes: tradição e modernidade, mito e ciência, sobrevivência económica e equilíbrio ambiental”.

Mas o filme usa apenas a escolha individual do jovem como ponto de partida, porque a realidade é que o verdadeiro intuito é mostrar como uma comunidade inteira está a lidar com diferentes pressões, desde a influência dos mercados globais às consequências ambientais. “Ao mesmo tempo, estabelece um paralelo entre o folclore siberiano e os perigos científicos reais associados ao degelo do permafrost. No fundo, é um documentário que questiona se os mitos antigos eram apenas histórias ou se, de alguma forma, já continham verdades profundas”.

E precisamente sobre isto, um dos aspetos mais distintivos do filme é a forma como cruza mitologia e realidade. O título remete para Erlik Khan, figura da mitologia turca associada ao reino dos mortos, e Kiko Saraiva admitiu que existiu toda uma preparação. “A ideia nasce diretamente do próprio folclore siberiano. Em várias lendas, acredita-se que os mamutes são criaturas do mundo subterrâneo, associadas a Erlik Khan, o senhor da morte”, começou por explicar.

Desta forma, o filme acaba por cruzar essa crença com a realidade contemporânea. “Hoje, os mamutes ‘ressurgem’ através da extração das suas presas no permafrost. Esse paralelo entre mito e prática atual cria uma ponte natural entre o universo espiritual e as questões ambientais”. E não, esta não foi uma ideia que caiu do céu: foi mesmo através do contacto da realizadora, Tamara Kotevska, com o mundo dos “caçadores” de presas de mamute, e o interesse veio a partir daí.

“A assinatura da Tamara enquanto realizadora tem sido a de ligar histórias humanas ao universo animal, fazendo um paralelo a partir de um olhar muito sensível e nada óbvio”, disse Kiko. “Ela consegue abordar questões profundas das relações sociais e das tensões que surgem no encontro entre o local e o global justamente a partir deste paralelo, que dá outro contorno à narrativa. A narrativa acaba por ganhar forma no próprio fazer documental, onde a Tamara faz a sua magia”.

Veja as fotos do filme.

O apoio do Sundance Institute Sandbox Fund surge, assim, como um impulso decisivo para o desenvolvimento do projeto. “‘The Mammoths’ é um projeto ambicioso, com uma série de necessidades técnicas associadas às condições climáticas [na Sibéria]”, referiu o fundador. “Os fundos têm vindo a ajudar no avanço do desenvolvimento e na produção (…) e é uma forma de criar visibilidade em torno do projeto e atrair outros parceiros”, disse Kiko, deixando clara a sua opinião: em Portugal, é preciso começar a apostar em caminhos menos convencionais, mas sempre com ambição internacional.

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