#JáFomosTodosSandra pelo menos um dia da nossa vida, certo? Ouvimos e não julgamos, mas dizemos-lhe por que razões deve deixar de fazê-lo o quanto antes.

Nos últimos tempos, temos visto alguns vídeos de Sandra Silva a assumir que dormiu com maquilhagem. A influenciadora fá-lo muitas vezes com o objetivo de prolongar para o dia seguinte um look feito por um profissional. E embora possa ser um flagelo para os beauty addicts, a verdade é que, apesar de o motivo poder não ser o mesmo, não é um comportamento assim tão distante da realidade de muitas pessoas. A caixa de comentários dos vídeos confirma-o, porque há, efetivamente, muita gente ainda a dormir sem se desmaquilhar.
Pode não acontecer com frequência, mas certamente já aconteceu a todos. É caso para dizer que ninguém é perfeito e que #SomosTodosSandra ou, em retrospetiva, #JáFomosTodosSandra em algum ponto da vida. Mais que não seja nos tempos da adolescência, aquela fase tonta em que os cuidados cutâneos pareciam uma preocupação que só os mais velhos deveriam ter e em que retirar a maquilhagem era sinónimo de, no dia seguinte, ficarmos com a sensação de que devíamos uns quantos minutos à cama.
Entre a preguiça, a praticidade e a tentativa de fazer durar aquele eyeliner perfeito mais algumas horas, há toda uma lógica, ainda que pouco recomendável, por trás desta decisão. Afinal, que atire a primeira pedra quem nunca pensou “logo tiro” e acabou por cair num sono de beleza (percebemos a ironia, certo?). Mas longe vão os tempos em que desinteresse ou desconhecimento sobre este hábito se sobrepunham à ciência, especialmente se, neste caso, fizermos disso lei.
Afinal, o que acontece realmente durante a noite quando não limpamos o rosto? E até que ponto é que este hábito, sendo apenas ocasional ou até mesmo recorrente, pode ter impacto a curto e longo prazo? Falámos com Sara Fernandes, farmacêutica especializada em Cosmetologia, sobre este gesto aparentemente inofensivo para muitos, mas que, efetivamente, levanta várias questões do ponto de vista da saúde cutânea.
Porque é que dormir com maquilhagem é prejudicial?
Embora a maquilhagem atual esteja longe das fórmulas agressivas do passado (adeus, mercúrio, banha de porco e outros que tais), isso não significa que deva permanecer na pele durante a noite. Como explica Sara Fernandes, a maquilhagem “é hoje composta por ingredientes muitas vezes semelhantes aos do skincare”, mas contém “pigmentos adicionados, que não têm qualquer benefício para a nossa pele” a nível de tratamento.
Por isso, o problema começa logo pela base. “Quando nós vamos dormir com maquilhagem é, exatamente, irmos dormir com a cara suja”, resume a especialista. E desengane-se quem acha que isso diz respeito apenas à presença deste género de produtos de embelezamento, porque este cocktail não descura a oleosidade que vamos produzindo, a poluição com que nos vamos deparando e outras partículas que acumulamos ao longo do dia.

Depois, dormir maquilhado é uma oportunidade perdida para tratarmos da pele. Durante a noite, esta entra num modo de regeneração e recuperação, pelo que é o momento ideal para nos besuntarmos de ativos, especialmente os mais potentes. “Provavelmente quem não retira maquilhagem também não está a fazer nenhum tratamento à noite”, explica a especialista, sublinhando que se perde a possibilidade de usar ingredientes como retinoides ou ácidos esfoliantes, que “não jogam tão bem ao sol”.
Há consequências que começam a notar-se rapidamente. A curto prazo, é provável que quem não se desmaquilha se depare com “o aparecimento de pontos negros, de borbulhas, a pele mais oleosa e mais desequilibrada”, sobretudo quem tiver tendência a tê-la mais mista a oleosa. Tudo isto resulta do acumular de substâncias que, como refere, “eram simplesmente preveníveis se lavasse a cara todos os dias”.
A longo prazo, o cenário agrava-se, não tanto por causa da maquilhagem em si, mas pela ausência dos cuidados que não estão a ser levados a cabo. “A precipitação do envelhecimento, por exemplo, vem menos da maquilhagem e mais da falta de hidratação”, explica, acrescentando que uma pele negligenciada “torna-se muito mais envelhecida do que [a pele de] uma pessoa que tem o cuidado de limpar, hidratar e proteger”.
A par disso, Sara Fernandes alerta para o facto de a zona ocular merecer um atenção especial, sendo que é extremamente sensível e pode reagir quase de imediato. “A primeira coisa que pode acontecer logo é ter um terçolho”, diz, explicando que os pigmentos podem entupir as glândulas lacrimais. Mas não fica por aqui: conjuntivites, infeções e até acumulação de pigmentos no interior das pálpebras, originando quistos, são cenários possíveis em casos mais extremos. “É receita para o desastre”, reforça.
Já nos lábios, sobretudo com batons de longa duração, o principal problema é a desidratação. “São produtos muito secantes”, explica, podendo ainda agravar condições como dermatites ou infeções fúngicas em quem já tem predisposição para tal.
O que fazer no dia seguinte, caso se durma com maquilhagem?
Foi sair à noite, voltou com preguiça e não tirou a maquilhagem? Ou simplesmente fê-lo porque lhe apeteceu? Não vale a pena dramatizar, é certo, mas também não se deve ignorar o elefante na sala. O plano de recuperação, segundo Sara Fernandes, é simples e a prioridade passa por garantir que a pele fica realmente limpa. “Sugiro dupla limpeza nessa circunstância, para nos certificarmos de que removemos mesmo tudo”, enfatiza.
A seguir, é tempo de compensar. “Hidratar muito bem” é essencial – e pode até ser o momento ideal para reforçar cuidados. É aqui que entram as máscaras hidratantes, que podem ter o formato de sheet mask ou simplesmente serem feitas com uma camada mais generosa de creme. “Qualquer hidratante pode ser uma máscara se aplicarmos uma quantidade suficiente”, explica.
Há ainda espaço para alguns aliados estratégicos, como a vitamina C, que pode ajudar a devolver luminosidade a uma pele mais baça, que é provável que o esteja depois de os cuidados lhe terem sido negligenciados na noite anterior. Quanto à esfoliação, não será o dia indicado para fazê-la, pelo que a farmacêutica diz que “deve esperar, porque a pele pode estar um bocadinho fragilizada”.
Do preguiçoso ao eficaz. Os métodos de remoção de maquilhagem
Antes de tudo, há uma questão de mentalidade que deve ser mudada. “Se não vamos dormir com os dentes por lavar, porque é que havemos de dormir com a cara por lavar?”, questiona a especialista, lembrando que limpar a pele deve ser visto como um gesto básico e não opcional. Ainda assim, há formas de o fazer mais rápida e eficazmente, para quem não tem grande paciência – o método da preguiça, como gostamos de lhe chamar. Mas antes feito do que perfeito, não é?
Por isso, se é daquele grupo de pessoas que tem plena consciência de que deixa a preguiça falar mais alto, a solução passa por simplificar. “Para mim, os produtos mais fáceis e rápidos de usar para retirar a maquilhagem são os óleos”, explica a farmacêutica, destacando que bastam dois ou três pumps e uma massagem suave para dissolver todas as impurezas que tivermos no rosto.
Já a água micelar, apesar de popular, pode não ser a melhor escolha para uma limpeza completa, especialmente para quem quer levá-la a cabo em poucos minutos. “É muito difícil desmaquilhar uma cara inteira com água micelar”, diz, comparando o processo a “lavar uma pilha de louça com uma gota de detergente”. O problema não é o produto em si, mas a quantidade e a forma como é utilizado, que nos pode vencer pelo cansaço.
Quanto ao cenário ideal, para quem aprecia rotinas longas e a as encara quase como um ritual, a dupla limpeza continua a ser a abordagem mais eficaz. Primeiro, deve utilizar um produto à base de óleo para dissolver maquilhagem e impurezas e, depois, um cleanser adaptado ao tipo de pele, que finalize este processo sem o deixar com a sensação de repuxamento.
E atenção, porque a técnica também tem peso na equação. “É suposto massajar o produto”, reforça Sara Fernandes, enfatizando um maior cuidado na zona das pestanas, onde frequentemente ficam resíduos invisíveis, devido às máscaras, especialmente quando estas são feitas para durar horas a fio. “Quando acordamos com preto à volta dos olhos, não são as pestanas a debotar – são restos de maquilhagem“, alerta.
Depois da limpeza, entra o tratamento, que deve ser feito com séruns com ativos específicos para as nossas necessidades (já sabemos a regra de aplicação: do mais leve para o mais denso) e, por fim, um bom hidratante para “selar tudo”. O objetivo é ir para a cama com a pele limpa, equilibrada e pronta para fazer aquilo que sabe fazer melhor durante a noite: regenerar-se.
