Fixa, projeta e hidrata mesmo? Já testámos os famosos perfumes de Bella Hadid e eis o nosso veredito

Com promessas de inovação e fórmulas que desafiam as regras da perfumaria tradicional, a marca de Bella Hadid chegou com um conceito difícil de ignorar. Pusemos um dos perfumes à prova e eis o que temos a dizer.

É provável que já tenha percebido que, nos últimos tempos, a indústria da beleza está a ser tomada de assalto por produtos híbridos. Veja-se a maquilhagem, por exemplo, que cada vez mais, além de cobrir imperfeições, se mune de ativos de skincare que também visam tratar a pele. A perfumaria não está a ficar atrás na tendência e até Bella Hadid, com a sua nova marca, Orebella, decidiu fazer parte dela.

A modelo mergulhou de cabeça num território cada vez mais híbrido, no qual as fragrâncias e a skincare deixam de ser universos separados e passam a coexistir (ou, melhor ainda, a andar de mãos dadas). Sim, porque desengane-se quem achava que o facto de as fórmulas contarem com óleos essenciais se prendia com o facto de acenar, única e exclusivamente, a bandeira da naturalidade.

Isto é, num mercado dominado por perfumes à base de álcool, pensados sobretudo para projetar, fixar e marcar presença, a Orebella apresenta uma proposta que promete chocar com essa lógica. As suas fórmulas são concebidas para irem além do ato de perfumar e incorporam ingredientes que prometem cuidar da pele, oferecendo conforto e uma dimensão sensorial mais rica.

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É aqui que entra a filosofia da insígnia de “skinification of scent”, que, trocando por miúdos, é uma forma de fazer com que o perfume integre a rotina de cuidados que temos com o nosso corpo, em vez de ser o passo final da mesma. Ou seja, a ideia deixa de ser apenas cheirar bem e passa a dar ênfase à forma como a pele se sente durante e, claro, depois da aplicação.

Embora a Orebella leve este conceito mais longe, não está isolada. Marcas como a Heretic Parfum ou Nest New York (que, atenção, já chegou a Portugal), por exemplo, exploram fórmulas com este mesmo conceito, enquanto nomes como a Glossier e a Byredo apostam em fragrâncias que se fundem com a pele, privilegiando a proximidade em detrimento da projeção.

Mas será que esta fusão resulta na prática? A pele fica realmente mais confortável? E o desempenho acompanha a experiência? Testámos uma fragrância da marca de Bella Hadid e eis o que temos a dizer.

Que fragrância testámos?

Window2Soul. É este o nome da fragrância da Orebella que pusemos à prova, sendo uma das principais da marca, criada pelo perfumista Clement Gavarry. Nas notas de topo, tem limão, hortelã e gerânio, responsáveis por uma abertura fresca e ligeiramente verde. No coração, a rosa damascena e o jasmim introduzem uma dimensão floral clássica (o que pode não ser do agrado de todos). Por fim, a base assenta na fava tonka, que acrescenta profundidade.

A partir desta estrutura, a fragrância, quando aplicada na pele, vai-se revelando da mesma forma que se desenrola uma narrativa. Num primeiro impacto, fomos transportados para um cenário luminoso e arejado. Como somos pessoas com uma certa apetência para a sinestesia, digamos que sentimos que tínhamos aberto uma janela numa manhã de primavera, em que o ar ainda é fresco, quase húmido.

Orebella
Window2Soul Eau de Parfum Spray, de 39€ a 112€, Douglas

Com o tempo, a composição começou a ganhar suavidade e calor, pelo que o cenário também foi evoluindo na nossa cabeça. Isto é, as notas florais começam a revelar-se e tivemos a sensação de, em vez de estarmos à janela, termos passado diretamente para um jardim com imensas flores, onde o sol já aquece a pele e os aromas se misturam de forma natural.

No fim, a fragrância começa a perder intensidade e a aproximar-se mais da pele. A fava tonka traz um elemento de conforto, uma doçura envolvente que lembra um final de tarde mais quente, mais tranquilo. É nesta fase que o perfume se torna mais íntimo, mais pessoal, e nos dá a sensação de que, ao contrário do que procuramos em muitas opções, não é uma fragrância de impacto imediato.

A aplicação estranha-se, mas entranha-se

O primeiro contacto com o perfume foi, no mínimo, um desafio às nossas expectativas. Sim, temos de afirmar que somos o tipo de pessoa que, na correria que antecede à saída de casa, se borrifa da cabeça aos pés, o que não pode acontecer com as propostas desta marca. A aplicação exige um envolvimento diferente, tanto pela textura como pela forma que as fragrâncias devem ser utilizadas.

A fórmula, mais rica e com presença de óleos, implica que o produto seja emulsionado e, de seguida, aplicado e espalhado (massajado, até) diretamente na pele. Isto significa que altera completamente o ritmo do ato de pôr perfume, que é quase automático, desacelerando-o e tornado-o mais deliberado e consciente. Um pesadelo para quem gosta de se despachar em 15 minutos de manhã? Sim. Um sonho para quem privilegia as tão famosas slow mornings? Também.

Ao mesmo tempo, há um lado prático que não pode ser ignorado. Por conter óleo, a fragrância pode manchar a roupa, o que obriga a que, de facto, exista uma aplicação mais cuidadosa. Mas, ainda que, para muitos, esta forma de aplicação possa ser uma limitação, não podemos negar que este aspeto também reforça a ideia de ritual. Não se trata de aplicar rapidamente antes de sair, mas de dedicar tempo a este momento, da mesma forma que dedicamos a outros passos da nossa rotina.

Quanto aos efeitos que sentimos, são efetivamente visíveis e sensorialmente apelativos. Logo após à aplicação, a pele fica com um brilho subtil (e mal podemos esperar por explorar estas fragrâncias no verão, quando vestirmos peças em que estamos mais expostos e tivermos, por isso, uma área maior para aplicar), mas também uma sensação de hidratação imediata, que, não obstante, se vai desvanecendo ao longo do dia. Até porque, convenhamos, o objetivo não é que sintamos que dispensa a aplicação de um creme hidratante.

E a fixação e a projeção?

Talvez este seja o tópico que mais curiosidade suscita quando falamos de qualquer perfume, seja de marcas de luxo ou de segmentos mais baratos (como os da Zara, por exemplo, que estão virais nas redes sociais). E dizemos já que os da Orebella – ou, melhor dizendo, o Window2Soul, porque ainda temos mais opções para pôr à prova – podem ficar aquém das expectativas de quem está à espera de um perfume tradicional.

No que diz respeito à fixação, não podemos dizer que esta não seja consistente. A fragrância mantém-se na pele ao longo do dia e vai evoluindo de forma suave, sem desaparecer abruptamente, que é precisamente o que se quer. Claro que, como em qualquer perfume, vai ficando menos intenso à medida que as horas vão passando, mas nunca chegamos a sentir que estamos despidos de aroma quando paramos para cheirar as zonas em que o aplicámos.No entanto, a projeção é claramente mais contida. Não há aquele efeito de rasto que se impõe no espaço ou que permanece no ar após a passagem, porque é aquilo a que gostamos de chamar uma fragrância de proximidade, muito mais reservada. É uma desvantagem? Para quem valoriza perfumes intensos e marcantes, sim, pode saber a pouco, porque a ausência de projeção reduz o impacto imediato e a visibilidade da fragrância.

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Por outro lado, é precisamente essa característica que a torna interessante para outro tipo de utilizador, já que todos temos gostos diferentes. Para quem prefere perfumes que só são percebidos por quem permitimos que se aproxime de nós, esta abordagem cria uma sensação de intimidade difícil de replicar. Ou seja, não é necessariamente uma questão de desempenho inferior, mas de uma intenção diferente da marca.

Assim, é caso para dizer que a marca, que se encontra disponível em exclusivo na Douglas (de 39€ a 112€), está a propor uma mudança de paradigma e que a interceção da fragrância com os cuidados de pele se sentem, efetivamente, na aplicação. Ainda assim, para quem é fã de aromas pujantes, não substitui a perfumaria tradicional.

São experiências diferentes, com objetivos distintos, sendo que há momentos para fragrâncias intensas e outros para algo mais próximo e sensorial. O que a Orebella faz, parece-nos, é abrir espaço para essa alternativa, sendo uma forma de usar perfume que privilegia o contacto, o tempo e a experiência. E, num mercado onde achamos que já foi tudo feito, isto pode ser precisamente o que faltava.

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