Rejeitar certos alimentos — líquidos ou sólidos — nas horas das refeições por parte das crianças é entendido como sendo algo normal e natural. “Não gosta de nada”, “É esquisita” ou “É um pisco a comer”, são exemplos do que muitas vezes se ouve. No entanto, este tipo de comportamento alimentar pode ser mais grave e merecer uma maior atenção dos familiares e da comunidade médica e tem até um nome científico: neofobia alimentar.

“A relação da Lara com a alimentação sempre foi de ódio”, começa por contar Lúcia Rocha, de 33 anos, à MAGG. Com 3 anos, rejeita vários alimentos e bebidas e nunca mamou. Além do leite materno, a introdução do leite de fórmula foi difícil e quando bebia — apenas de uma marca específica — a quantidade nunca era a indicada para a sua idade.

A alimentação diferenciada foi introduzida aos 4 meses. Lúcia Rocha, natural de Sintra, recorda-se de Lara ter comido bem a primeira sopa. Foi um “alívio muito grande”. Contudo, esta vontade de comer não durou nem uma semana. A primeira de todas as refeições foi apenas cenoura cozida desfeita com leite e foi a única vez em que repetiu. Porém, quando chegava a hora de introduzir novos alimentos, estranhava-os e comia apenas duas ou três colheres.

 Acho que não há muita informação nem para o público geral, nem para a classe médica, que não está devidamente informada sobre isso”

A rejeição passa também por peixes que vão inteiros para o prato. Não come carne ou come muito pouca, seja ela de porco, frango, vaca ou peru, a não ser que seja passada na sopa. “Em casa de familiares próximos não há ninguém que tenha optado por regime vegetariano, por isso não será por imitação. É mesmo dela”, explica a mãe Lúcia Rocha, neuropedagoga de profissão.

Os vegetais também não escapam, principalmente aqueles que são mais diferentes na sua forma, como os brócolos, a couve romanesca ou as couves de bruxelas. “Tem dias que jura a pés juntos que não gosta de determinado alimento.” Só há uma coisa de que Lara gosta muito: fruta. Ainda assim, não experimenta as menos típicas, como o kiwi, a papaia ou a manga. “A alimentação da Lara causa-me muitas dores de cabeça”, admite.

E aquilo que podia ser apenas considerada uma excentricidae da criança tem, na verdade, um nome: Lara foi diagnosticada com neofobia alimentar quando tinha 2 anos e três meses.

Dados sobre a neofobia alimentar

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Segundo o médico Pedro Lôbo do Vale, estima-se que este distúrbio alimentar afete entre 10 a 15% das crianças em idade pré-escolar. Até ao momento, não se conhece a prevalência da neofobia alimentar nos adultos. Do mesmo modo, não existem também dados sobre a sua prevalência em Portugal.

“Embora já tenham sido realizados estudos extensivos sobre as causas e consequências da neofobia alimentar em crianças, pouco se sabe ainda sobre este distúrbio. Muitas vezes a causa de outras fobias também não é conhecida”, refere.

O que é a neofobia alimentar?

“A neofobia alimentar pode ser identificada como um traço de personalidade inerente e adaptativo, que consiste na rejeição de alimentos novos ou desconhecidos para a criança, resultando numa dieta muito pobre e pouco diversificada”, explica Pedro Lôbo do Vale, médico de medicina geral e familiar e presidente da Associação Portuguesa de Alimentação Racional e Suplementos Alimentares. “Até certo ponto, todas as crianças passam por uma fase de aversão a certos alimentos, como os vegetais mais amargos. Contudo, os casos mais graves, em que esta aversão se torna persistente ao longo do desenvolvimento da criança, não são tão comuns.”

Os principais sinais da neofobia alimentar estão relacionados com a “rejeição dos alimentos, de acordo com a aparência do alimento”, em que a criança não chega a consumi-los e nem lhes sente o sabor. Apesar de ainda não ser claro, o cheiro e o aspeto podem também intervir neste distúrbio alimentar.

Segundo o médico, a neofobia alimentar parece ser “dependente da idade, aumentando exponencialmente a partir do primeiro ano de vida, atingindo o pico entre os 2 e os 6 anos de idade. Depois diminui gradualmente, até ficar estável à medida que a pessoa entra na idade adulta. Em alguns casos, parece voltar a surgir em adultos sénior, podendo estar relacionado com a perda de acuidade visual ou do olfato”. Uma vez que ainda não existe um método de diagnóstico oficial, a neofobia alimentar pode passar despercebida.

A enfermeira deitou-me uns olhos e respondeu: ‘Se for preciso até aperte o nariz para a menina abrir a boca e enfiar a colher!’. Fiquei chocadíssima”

Além disso, há o risco de a neofobia alimentar pode também ser desvalorizada pela família e até mesmo pela classe médica. “Existe muito a ideia de que as crianças são ‘esquisitinhas’ a comer e que é preciso obrigá-las a comer, independentemente das problemáticas futuras que isso possa trazer. Acho que não há muita informação nem para o público geral, nem para a classe médica, que não está devidamente informada sobre isso”, afirma Lúcia Rocha.

Esta ideia é corroborada por Pedro Lôbo do Vale. Na comunidade médica, onde ainda pouco se sabe sobre este distúrbio alimentar, pode “muito facilmente passar despercebido como sendo uma criança difícil”. O médico considera também que a população pode ainda não estar “sensível” para a neofobia alimentar.

Envolver a criança na preparação das refeições pode ser uma estratégia a adotar

Numa consulta de acompanhamento, aconteceu uma situação que Lúcia Rocha não esquece, e não pelas melhores razões. “A senhora enfermeira pesou a Lara, fez cara estranha e diz-me: ‘Oh mãe, tem de alterar os hábitos da sua filha à mesa’. Lá comentámos um bocadinho as manias e como as geríamos. Eu respondi: ‘A Lara recusa e eu não posso pegar numa colher, prender os braços à miúda e enfiar colheradas de carninha pela goela abaixo’. A enfermeira deitou-me uns olhos e respondeu: ‘Ai tem, tem! Se for preciso até aperte o nariz para a menina abrir a boca e enfiar a colher!’. Fiquei chocadíssima”, conta.

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A neuropedagoga sabe que, em casos como o da filha, é necessário ter “calma e paciência à mesa” e ir introduzindo os alimentos aos poucos. Antes de mais, Lúcia faz questão que os alimentos que a Lara se recusa a comer sejam consumidos à sua frente pela família, tentando que ela mostre interesse. “Tem de haver espaçamento de tempo entre o ver o alimento, ver que é consumido pela família por duas ou três refeições e aí sim, às vezes lá vai misturado com outras coisas.”

De acordo com o médico Pedro Lôbo do Vale, nos casos de neofobia alimentar há estratégias a aplicar. A exposição repetitiva até 15 vezes é uma delas. “A exposição bem-sucedida e contínua ao alimento irá diminuir a relutância da criança em consumi-lo.” Envolver a criança na preparação das refeições para “retirar o medo e apresentar o alimento numa perspetiva diferente” e “dar um bom exemplo, pois as crianças imitam o comportamento alimentar dos pais”, podem ser um outro métodos a adotar.

 O meu medo é quando entrar na escola aos 6 anos. Sinceramente, com o que vejo nas escolas e conhecimento geral dos educadores, tenho medo que exista um retrocesso”

A gestão das emoções é também importante neste processo. “O medo da criança gera um sentimento negativo quanto ao consumo do alimento e, por consequência, causa stresse na pessoa adulta responsável pela sua alimentação. Quanto maior a pressão e autoritarismo, pior. A paciência e tolerância são fundamentais. Por outro lado, quanto mais stresse e escassez de tempo houver para a refeição, menos tempo haverá para gerir o comportamento da criança à refeição. Assim, é fundamental dispor do tempo e dar a atenção necessária”, explica.

O médico entende ainda que, sempre que possível, se deve apostar na amamentação, uma vez que quando a criança “tem o primeiro contacto com certos sabores através do leite materno, a tolerância a alguns alimentos parece ser maior”.

Lúcia Rocha admite que a neofobia alimentar a “chateia”, não só por ser complicado quando a filha se recusa a consumir os mínimos, mas também porque é algo que acaba por interferir na dinâmica familiar que se torna “particularmente difícil”.

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Ainda assim, a substituição alimentar nunca é uma alternativa, algo que vê com frequência ser adotado por várias famílias que acompanha enquanto neuropedagoga. “Muita gente opta por substituir os alimentos saudáveis, que a criança se recusa a comer, por outros. ‘Desde que coma, está bom, se não é carne, que sejam salsichas e hambúrgueres no café aí do lado.’ Ouço muito estas coisas. Ou ‘como não consigo que coma fruta e, por isso, mandei um chocolate para sobremesa’”.

Atualmente, a relação da Lara com a comida é “muito heterogénea”. Há dias em que, com os alimentos todos misturados, até come bem. Noutros, nem com tudo misturado consegue comer. Mas o grande desafio é a alimentação fora de casa ou em casa de familiares. “Costumo dizer que com a Lara não há ‘padrão’, mas sim dias melhores e piores. O meu medo é quando entrar na escola aos 6 anos. Sinceramente, com o que vejo nas escolas e conhecimento geral dos educadores, tenho medo que exista um retrocesso”, finaliza Lúcia Rocha.