Ortorexia nervosa. Quando a alimentação saudável se torna numa doença

Optar por uma dieta equilibrada é positivo, no entanto levada ao extremo pode mesmo levar à morte. Falámos com dois especialistas.

Estima-se que a ortorexia nervosa pode afetar cerca de 1% da população, com uma maior incidência nas mulheres

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Doenças do comportamento alimentar como a anorexia, a bulimia ou a alimentação excessiva/compulsiva são cada vez mais frequentes e afetam homens e mulheres em todo o mundo. No entanto, há uma perturbação do comportamento alimentar que se diferencia das restantes, uma vez que tem por base a obsessão por uma alimentação saudável e que pode acarretar sérios danos para a saúde. Falamos da ortorexia nervosa.

Optar por uma vida mais saudável é benéfico e, aparentemente, não existe nenhum problema nisso. “Ainda que o consumo de uma dieta saudável e equilibrada seja importante, quando a escolha dos alimentos se torna uma fixação pode ser perigosa para a saúde”, explica o médico Pedro Lôbo do Vale à MAGG.

O especialista explica que a escolha por uma alimentação saudável pode tornar-se numa doença quando as escolhas alimentares são efetuadas mediante regras “dietéticas inflexíveis”, quando a alimentação se torna numa “preocupação recorrente e persistente” e quando se verificam comportamentos alimentares compulsivos que acabam por interferir com a saúde e a qualidade de vida de uma pessoa.

Pedro Lôbo do Vale considera que, nos últimos tempos, e no âmbito mundial, tem-se verificado um paradoxo: por um lado, a “crescente preocupação” com o excesso de peso e obesidade e, por outro, uma “maior sensibilidade” para as questões da alimentação. Por estes motivos e com a “maior sensibilização da comunidade médica e da população para este distúrbio, espera-se que se venham a identificar mais casos no futuro”.

A nutricionista Margarida Beja afirma mesmo que, pela sua experiência clínica, há um aumento nos casos de ortorexia. “É importante reforçar que mesmo nós profissionais temos dificuldade em identificar [casos de ortorexia] porque muitos comportamentos são justificáveis com questões à partida lógicas. Por isso, é muito importante estarmos atentos aos sinais.”

Recentemente lançou um podcast onde abordou o tema, tal como o fez na sua página de Instagram, “onde por vezes surgem mitos e até mesmo uma certa pressão para assumir determinados comportamentos alimentares que em nada promovem a saúde mental e que têm consequências físicas também”.

Margarida Beja entende que é importante chamar à atenção para “os conceitos de equilíbrio na sua verdadeira essência já que muitas pessoas o abordam diretamente anexado à restrição alimentar, à linguagem negativa em relação à comida — ‘dia da asneira’,  ‘comida do lixo’, unhealthy, ‘portar-me bem’. E embora as pessoas não tenham esta perceção, ao sermos constantemente bombardeados com estas ideias, existe a probabilidade de isto ter um impacto negativo nas nossas escolhas alimentares.”

No entanto, a nutricionista apela para que as pessoas não façam um autodiagnóstico. “Ainda não existem critérios de diagnóstico estabelecidos e falamos de algumas características que podem indiciar a existência de um problema.”

Apesar de os dados acerca deste distúrbio serem ainda escassos e de “não existir para já muito consenso” sobre a sua prevalência, Pedro Lôbo do Vale refere que, de acordo com alguns estudos, estima-se que a ortorexia nervosa possa afetar cerca de 1% da população, com uma maior incidência nas mulheres.

Quais são as características da ortorexia nervosa

Foi no final da década de 90 que o termo ortorexia nervosa foi utilizado pela primeira vez pelo médico americano Steven Bratman. A palavra ortorexia deriva do grego, sendo que “orthos” significa “correto” e “orexis” significa “apetite”.

A ortorexia nervosa “é uma perturbação que se caracteriza por um comportamento e desejo quase que obsessivo por ter uma alimentação saudável e que vai muito ao encontro de conceitos de ‘clean’,  de pureza dos ingredientes”, explica a nutricionista Margarida Beja. Assim, aquilo que poderia ser um “movimento equilibrado na procura de um estilo de vida saudável acaba por se tornar num motivo de ansiedade, de restrições alimentares sem sentido ou de uma falta de flexibilidade nas escolhas alimentares, de tristeza, de necessidade de controlo e obsessão”.

No entanto, esta é uma perturbação que ainda não é reconhecida formalmente como uma perturbação do comportamento alimentar — não está presente no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais —, tal como também os critérios de diagnóstico ainda não foram descritos. Ainda assim, Margarida Beja considera que se têm feitos progressos neste âmbito.

A ortorexia é caracterizada por uma série de restrições em relação a vários alimentos que são considerados menos saudáveis. “Existem coisas justificáveis e que têm de facto uma lógica do ponto de vista da saúde, mas na ortorexia estas restrições estão na base da procura de uma alimentação ‘pura’, ‘clean’, ‘natural’, ‘saúde perfeita’, ‘bons e maus alimentos’, que levam a comportamentos obsessivos”, acrescenta.

O médico Pedro Lôbo do Vale entende ainda que neste distúrbio a qualidade dos alimentos é privilegiada em relação à quantidade e existe também uma “elevada preocupação com o modo como os alimentos são preparados”.

Margarida Beja explica que, ao contrário da anorexia, por exemplo, a perda de peso não é um “fator sempre presente” em pessoas que sofrem de ortorexia. A nutricionista afirma que nesta perturbação do comportamento alimentar “há um foco na qualidade e não na quantidade, os sinais físicos e as alterações do peso ou a dismorfia corporal são pouco evidentes e os fenómenos compensatórios também não são comuns”, ao contrário do que acontece na anorexia ou na bulimia, por exemplo.

A existência de “crenças alimentares irrealistas” e a procura de “formas alimentares para otimizar a saúde” são outras particularidades da ortorexia nervosa apontadas pelo médico Pedro Lôbo do Vale.

Entender os sinais de alerta

Apesar de ser uma perturbação do comportamento alimentar que ainda não está formalmente reconhecida são vários os sinais de alerta que se devem ter em atenção.

Margarida Beja destaca a eliminação de grupos alimentares ou alimentos considerados “impuros”; o evitar eventos sociais que envolvam refeições; o sentimento de culpa após comer algo que não faz parte das “regras autoimpostas”; uma posição crítica em relação às pessoas que não possuem “padrões alimentares semelhantes”; uma “obsessão e ansiedade extrema” no que diz respeito à preparação da comida, aos ingredientes; a prática de exercício e uma alimentação em geral com “comportamentos e posições extremas e não flexíveis”; e um aumento dos sinais de ansiedade e depressão.

Já o médico Pedro Lôbo do Vale entende que o facto de uma pessoa demonstrar “restrições alimentares inflexíveis”, evitar alimentos tratados com produtos químicos, substâncias artificiais ou quantidades significativas de gordura, sal, açúcar ou existir um certo isolamento social podem ser alguns sinais a ter em conta.

É uma doença de fácil diagnóstico?

Não. Segundo a nutricionista Margarida Beja, os sinais de alerta podem ser “facilmente mascarados por questões aparentemente lógicas que remetem para a procura de um estilo de vida saudável”. O facto de não existirem “sinais físicos muito evidentes” também torna difícil a identificação da perturbação.

Por outro lado, o médico Pedro Lôbo do Vale refere que a dificuldade do diagnóstico se prende com o facto de a ortorexia não ser ainda “formalmente reconhecida como uma diagnóstico psiquiátrico”, existindo apenas alguns critérios para a sua definição. Do mesmo modo, o especialista também entende que, relativamente a outros distúrbios do comportamento alimentar, a ortorexia nervosa pode “passar mais facilmente despercebida”. Deste modo, torna-se importante melhorar o conhecimento sobre a doença.

E quais é que podem ser as causas para a ortorexia nervosa? Margarida Beja entende que este é um tópico “complexo” e que podem existir outras “questões mais profundas” relacionadas com a auto-estima, a necessidade de perfeição, o medo de ficar doente, uma necessidade de controlo, a pressão social para se possuir determinados “padrões alimentares” e até mesmo as redes sociais.

Para Pedro Lôbo Vale, as causas da ortorexia podem ser “variadas”. “Pode surgir inicialmente como uma tentativa para manter ou melhorar a saúde da pessoa, assim como, para evitar doenças crónicas. A ortorexia nervosa pode ainda aparecer como uma necessidade de exercer controlo sobre um estilo de vida caótico, sendo a alimentação uma forma mas fácil e imediata de aplicar esse controlo. Outras causas possíveis são a necessidade de criar uma identidade única e de se enquadrar em comunidades que assumem determinadas crenças e perfis alimentares.”

O impacto das redes sociais na ortorexia nervosa

“A questão é que tanto a ortorexia como as próprias redes sociais são ‘mundos’ recentes pelo que o impacto direto ainda não está completamente documentado em estudos. No entanto, já existem alguns trabalhos que comprovam o impacto negativo das redes sociais no comportamento alimentar”, refere a nutricionista Margarida Beja.

O médico Pedro Lôbo do Vale também é da opinião que, em certos meios, há de facto uma “promoção de comportamentos alimentares radicais e altamente influenciados pelas tendências ou modas alimentares que não são sustentadas em razões lógicas ou científicas”.

As consequências para a saúde podem ser graves

Para além das questões de saúde mental, a nutricionista Margarida Beja entende que a ortorexia nervosa pode originar “carências nutricionais atendendo ao tipo de restrição que é feito”, bem como “desordens digestivas”.

O médico Pedro Lôbo do Vale concorda que a eliminação de vários alimentos com base em “crenças em relação ao que é saudável”, que muitas vezes não têm evidência científica, provoca “défices nutricionais” e em casos extremos pode mesmo levar à morte.

E como tratar a ortorexia nervosa? Os casos deverão ter uma abordagem multidisciplinar, explicam os especialistas. A pessoa deve ser acompanhada por um médico, uma nutricionista e um psicólogo para que seja possível analisar não só os aspetos da saúde física e da nutrição, como também os aspetos comportamentais.

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