O ator Paulo Pires falou com a MAGG sobre Adriano, o inspetor-chefe da Polícia Judiciária que interpreta em “Lisbon Noir”. Entre a narrativa da história e a construção da personagem, saiba tudo.
É uma das séries portuguesas que mais tem dado que falar nos últimos tempos – depois, claro, de “Rabo de Peixe”. “Lisbon Noir”, a produção feita pela TVI e pela Prime Video que conta a história de um assassino que se inspira num outro assassino (e bem conhecido), estreou na segunda-feira, 13 de abril, e tem vindo a conquistar tantos fãs que o problema é só mesmo um: sair apenas um episódio por semana, pelo menos para quem vê na TVI.
Aqui, a premissa é simples: a nova série arrancou com a queda de um diplomata espanhol do topo do Aqueduto das Águas Livres, e a investigação da Polícia Judiciária, conduzida com a ajuda de uma inspetora espanhola, rapidamente revela um padrão perturbador. E mais: uma reviravolta inesperada muda o rumo de toda a investigação, que parece estar longe de terminar.
O assassino é Fernando, interpretado por Luís Filipe Eusébio, que se inspirou então em Diogo Alves, o primeiro assassino em série português conhecido como o Assassino do Aqueduto das Águas Livres. No entanto, é apenas uma inspiração: como se percebeu nos dois episódios que a TVI já disponibilizou, Fernando usa sim o Aqueduto para a sua primeira morte e rouba sim a cabeça do assassino, mas as mortes seguintes não são no mesmo local.
Ora, do outro lado da barricada está Pêpê Rapazote, que faz de inspetor Daniel e que vai estar à frente dos casos, e por cima dele está o inspetor-chefe Adriano, interpretado por Paulo Pires. “Fiquei muito entusiasmado [por fazer parte], sobretudo porque o Artur Ribeiro tem uma particularidade pouco comum na televisão em Portugal: escreve e realiza”, começou por dizer o ator à MAGG.
“Além disso, a história destacou-se logo. É diferente daquilo que se faz por cá — mais negra, mais sombria, ligada a um serial killer. Não é comum fazermos séries de ação em Portugal, até por questões de orçamento, e esta ainda acrescenta essa dimensão psicológica de um homem que se revê num serial killer do século XIX“, acrescentou Paulo Pires. Assim, estava claro que um “não” seria impossível de dar.
E quem é, afinal, Adriano? “A minha personagem é mais institucional, o diretor da Judiciária, alguém que está mais no escritório. Na verdade, construímos um subtexto: a ideia de que ele já teria estado no terreno, mas acabou por seguir um caminho mais político dentro da instituição. É alguém ambicioso, que chegou a um cargo administrativo”, disse o ator.
“Pensei em referências, embora não me baseie diretamente nelas. Lembrei-me de ‘Hill Street Blues’, uma série que me marcou muito quando era mais novo. Havia ali uma figura de chefe com uma postura mais contida, e isso ajudou-me a pensar nesta personagem. O desafio aqui foi trabalhar mais na contenção, fazê-la mexer mais por dentro do que por fora”, acrescentou.
Ou seja, Adriano é um homem que, no fundo, sente saudades da intensidade e do perigo da rua, mas que sabe a instituição pedia que ele subisse a um cargo mais político. Desta forma, a personagem de Paulo Pires acaba por não ser uma das principais, mas é sem dúvida uma das mais importantes dentro da instituição – é ele quem manda executar, avançar, recuar ou prender. Até, claro, acima do inspetor.
“Ao contrário do Daniel [interpretado por Pêpê Rapazote], que é mais livre, este homem quer estar à altura da função. Conhece bem o Daniel e sabe quando deve puxar por ele ou deixá-lo agir à sua maneira. Não há propriamente um conflito entre eles, há complementaridade”, explicou Paulo Pires sobre a relação entre os dois. Ao lado deles estão também Laura (Beatriz Godinho), Carlos (André Nunes) e Nour (Mina El Hammani).
Mas além do elenco, outra coisa que deixa “Lisbon Noir” ainda mais apetecível é mesmo a sua imagem. Ao contrário de muitas produções portuguesas, a série apostou em ângulos, visões e sombras diferentes, dando um tom à produção difícil de encontrar noutro lado. “A série vive muito da imagem. Há muitos planos de cima, que dão uma perspectiva diferente e reforçam a ligação com o espaço e a própria narrativa“, disse Paulo Pires.
“O diretor de fotografia, Miguel Manso, também teve um papel importante. É um profissional com muita qualidade e ajudou a criar essa estética mais cinematográfica. É uma abordagem muito diferente e isso torna-se quase uma personagem da própria série”, acrescentou, dando assim os louros ao diretor de fotografia. Este é mesmo um dos trunfos de toda a série, que continua a encantar os portugueses.
Assim, só resta uma pergunta: pode “Lisbon Noir” abrir caminho para produções portuguesas mais ambiciosas e com projeção internacional? “Oxalá que sim, porque acho que está na altura. As nossas produções já estão a dar passos nesse sentido, mas é importante reforçar essa aposta. Embora o crime não seja o único caminho, é uma temática com muitos fãs e grande alcance global. Há claramente um caminho para trilhar”, rematou.