O farmacêutico Daniel Teles explica o que é este suplemento, que nunca deve ser encarado como um substituto da proteção solar tópica. Eis o que precisa de saber.
Quando se fala em proteção solar, a maioria das pessoas pensa automaticamente em protetor solar, chapéus de abas largas e, com sorte, alguma disciplina na reaplicação ao longo do dia (entre duas a três horas, nunca esquecer). Mas parece existir uma ferramenta complementar que continua praticamente desconhecida para grande parte das pessoas.
Os dados do Observatório Heliocare – que desenvolveu um estudo sobre os hábitos de proteção solar dos portugueses e abrangeu uma amostra total de seis mil participantes em Portugal, Espanha, Itália e México – revelam que 68% dos inquiridos não sabe que existem suplementos alimentares capazes de complementar a fotoproteção tópica. E embora o número possa parecer surpreendente, para os especialistas não é exatamente uma novidade.
“Embora seja um valor que merece reflexão, não nos surpreende totalmente. A fotoproteção oral continua a ser um conceito relativamente recente para o público em geral e o seu conhecimento está ainda muito concentrado junto dos profissionais de saúde, nomeadamente médicos e farmacêuticos”, explica Daniel Teles, farmacêutico e Product Manager da Heliocare na Cantabria Labs.
Durante décadas, a proteção solar esteve associada quase exclusivamente aos cremes aplicados na pele. Por isso, a ideia de reforçar essa proteção através da alimentação suplementada continua longe de fazer parte das rotinas da maioria das pessoas. Ainda assim, à medida que cresce a preocupação com o envelhecimento precoce, as manchas e os danos cumulativos provocados pelo sol, a conversa começa a ganhar tração.
O que é, afinal, a fotoproteção oral?
Já lá vai o tempo em que a conversa sobre proteção solar se resumia quase exclusivamente à aplicação de protetor solar. No entanto, a investigação científica tem vindo a mostrar que a pele pode ser apoiada através de uma estratégia mais abrangente, que não se limita à superfície cutânea. É aí que entra a fotoproteção oral, uma categoria de suplementos desenvolvida para ajudar a reforçar os mecanismos naturais de defesa da pele perante os danos provocados pela exposição solar.
Ao contrário dos filtros solares tópicos, que atuam externamente para reduzir o impacto da radiação ultravioleta, a fotoproteção oral trabalha ao nível dos processos biológicos desencadeados pela exposição ao sol. O objetivo não é criar uma barreira física, mas ajudar a pele a responder melhor ao stress a que é sujeita diariamente – e pode ajudar a complementar a aplicação de fotoprotetores tópicos, especialmente se esta não for feita corretamente.
“A fotoproteção oral consiste na toma de suplementos com ingredientes específicos, sobretudo antioxidantes, que ajudam a reforçar os mecanismos naturais de defesa da pele contra os danos induzidos pela radiação solar. É uma forma de proteção ‘de dentro para fora’, que complementa a proteção tópica e contribui para uma abordagem mais completa da saúde da pele“, explica o especialista.
Quando a radiação solar atinge a pele, o impacto estende-se para lá das queimaduras visíveis. São desencadeadas reações inflamatórias, produção de radicais livres e alterações celulares que, ao longo do tempo, contribuem para fenómenos como envelhecimento precoce, perda de firmeza, aparecimento de manchas e deterioração da qualidade da pele. É precisamente nestes mecanismos que a fotoproteção oral procura atuar.
Por esse motivo, os suplementos de fotoproteção oral recorrem frequentemente a “ingredientes antioxidantes e bioativos, como extratos botânicos, polifenóis, carotenoides, vitaminas e outros compostos que ajudam a proteger a pele dos danos induzidos pela radiação solar”, explica Daniel Teles.
No caso da Heliocare, o destaque vai para a tecnologia ASPA-Fernblock. “A evolução desta tecnologia combina o extrato de Polypodium leucotomos com Aspalathus linearis, reforçando a ação antioxidante e contribuindo para apoiar os mecanismos naturais de defesa e reparação da pele”, frisa o especialista.
Quem pode beneficiar mais desta abordagem?
Embora qualquer pessoa exposta à radiação solar possa integrar a fotoproteção oral numa estratégia mais completa de cuidados com a pele, existem perfis para quem “pode ser particularmente interessante” devido a contar com maior exposição solar. É o caso de quem passa longos períodos ao ar livre, seja por motivos profissionais, desportivos ou de lazer.
O especialista destaca ainda situações específicas em que esta abordagem tem vindo a ganhar relevância. “Pode também beneficiar indivíduos com pele clara ou mais sensível à radiação solar, bem como quem procura uma estratégia mais completa de proteção e prevenção dos danos causados pela exposição solar”, lembra.
Entre os casos mais frequentemente mencionados pelos dermatologistas encontram-se também alterações pigmentares, como manchas e melasma, condições cuja evolução está intimamente ligada à exposição solar. E sim, até as crianças, quando se justificar e em conformidade com a opinião de um médico, podem beneficiar deste reforço.
Como é que se pode integrá-la na rotina?
Ao contrário do que acontece com muitos produtos de aplicação tópica, a fotoproteção oral não produz resultados imediatos nem deve ser encarada como uma solução de emergência para um dia de praia. O seu papel assenta sobretudo na consistência e na criação de uma estratégia preventiva a médio e longo prazo.
Por isso, os especialistas defendem que a suplementação deve ser pensada como parte de uma rotina continuada de cuidados, especialmente durante os períodos de maior exposição solar. “A regularidade é essencial: estes suplementos devem ser tomados de forma consistente para ajudar a reforçar as defesas naturais da pele“, enfatiza Daniel Teles.
Quem planeia férias ao sol ou sabe que irá aumentar significativamente a exposição solar pode beneficiar de uma preparação antecipada. “Idealmente, a suplementação deve ser iniciada antes dos períodos de maior exposição solar, para permitir que os ingredientes atuem de forma consistente no organismo”, continua o farmacêutico.
Já a duração da toma depende das características e necessidades individuais. Em algumas situações poderá fazer sentido uma utilização sazonal. Noutras, sobretudo quando existem preocupações relacionadas com manchas, melasma ou fotoenvelhecimento, a suplementação pode ser prolongada ao longo do ano.
Atenção. Este é o erro que os especialistas querem evitar
Embora seja ainda desconhecida por grande parte das pessoas, a popularidade da fotoproteção oral poderá aumentar e isso é sinónimo de uma preocupação: a possibilidade de haver interpretações erradas no que a este conceito diz respeito. É que a ideia de uma cápsula capaz de proteger a pele da ação nociva da radiação solar pode facilmente gerar expectativas irrealistas.
No entanto, os especialistas são unânimes ao afirmar que nenhum suplemento substitui a proteção conferida por um protetor solar aplicado corretamente. “Esta é uma mensagem essencial: a fotoproteção oral não substitui o protetor solar tópico“, sublinha Daniel Teles. Portanto, deve ser encarada da mesma forma que outros hábitos de prevenção – como uma camada adicional de proteção, digamos.
O especialista alerta ainda para a importância de evitar falsas sensações de segurança. “O seu papel é complementar: ajuda a reforçar as defesas da pele de dentro para fora, mas não bloqueia diretamente a radiação UV como um protetor solar tópico”, reitera. Por isso, o cenário ideal continua a incluir a (re)aplicação diária de protetor solar, vestuário adequado e redução da exposição durante as horas de maior calor.
Uma coisa é certa, segundo Daniel Teles: “A comunidade dermatológica olha cada vez mais para a fotoproteção oral como uma ferramenta complementar dentro de uma estratégia integrada de proteção solar”. E a crescente produção científica nesta área e o aumento da literacia sobre saúde da pele deverão contribuir para que este conceito se torne progressivamente mais familiar junto dos consumidores, remata.

