Especialista fala do impacto dos comentários de Cristina Ferreira sobre violação. “As palavras moldam percepções”

A MAGG falou com Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica e fundadora da Academia Transformar, que explicou como os comentários de Cristina Ferreira podem afetar as vítimas de violência sexual. Saiba tudo.

Os comentários de Cristina Ferreira sobre a violação em grupo a uma jovem de 16 anos têm vindo a ganhar uma repercussão gigantesca no panorama nacional. Foi na manhã de terça-feira, 14 de abril, que a apresentadora falou sobre o assunto na “Crónica Criminal” do “Dois às 10”, e entre posições e comentários proferidos por outras caras conhecidas que estavam no painel, a posição de Cristina Ferreira foi fortemente criticada.

“Mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém entende que ela não quer mais?”, questionou Cristina Ferreira no programa, um dia depois de os jovens começarem a ser julgados. A frase em questão tem que ver com o caso que remonta a 12 de fevereiro do ano passado, onde quatro influencers entre os 18 e os 21 anos publicaram vídeos a violar e a agredir uma menor de 16 anos.

A jovem terá sido levada para uma garagem e forçada a dançar seminua, e quando pediu para pararem, aconteceu então o pior. Ao que tudo indica, de acordo com a SIC Notícias, um dos vídeos gravados chegou a ultrapassar as 32 mil visualizações, e os quatro jovens estão a ser julgados por violação agravada (punível até 10 anos), crimes de ofensa à integridade física e 27 crimes de pornografia de menores (punível até oito anos).

Ora, o comentário proferido por Cristina Ferreira levantou várias questões e polémicas, além de ter originado várias queixas feitas à Entidade Reguladora da Comunicação Social. Uma questão que também foi bastante levantada foi o sentimento das vítimas a ouvir este tipo de declarações por parte de um nome influente em Portugal, e que tipo de repercussões pode isso trazer para a sua vida. Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica e fundadora da Academia Transformar, explica tudo.

Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica e fundadora da Academia Transformar

Declarações públicas que introduzem ambiguidade em torno do ‘não’ podem ser profundamente desorganizadoras para vítimas de violência sexual. Quando uma figura mediática sugere, ainda que indiretamente e provavelmente de forma inconsciente, que num determinado contexto alguém pode não ‘entender’ um ‘não’ e uma retirada de consentimento ou pode não conseguir parar, a vítima pode sentir invalidação, confusão, vergonha e até uma reativação do trauma”, começou por dizer.

Ou seja, o que acontece aqui é que, em vez de a vítima encontrar na esfera pública uma mensagem protetora, acaba por encontrar algo que pode minimizar a sua experiência, deixando-a mais vulnerável. “Isso pode agravar sentimentos de culpa, vergonha e autoquestionamento, que já são muito frequentes após uma vivência traumática”, disse a psicóloga, fazendo questão de explicar que as notícias ainda se focam frequentemente no comportamento da vítima antes do ato e não na situação em si.

Ser uma pessoa com a exposição mediática de Cristina Ferreira a emitir estas considerações torna tudo pior?

E, claro, o facto de ser Cristina Ferreira a ter este tipo de comentários torna a situação ainda mais pesada e polémica. Apresentadora dos dois programas da TVI mais vistos, empresária de uma marca que quer empoderar as mulheres e mãe de um filho adolescente, a exposição mediática que tem Cristina Ferreira não é igual a mais nenhuma em Portugal. “Quando a mensagem vem de uma figura feminina com grande visibilidade, o impacto psicológico e cultural pode ser ainda maior”, disse Filipa Martins.

Isto porque existe uma expectativa de apoio, uma maior sensibilidade, e quando isso não acontece pode ser ainda pior. “Quando isso não acontece, pode surgir um efeito de maior desamparo, sobretudo para vítimas e suas famílias, e ao mesmo tempo, reforçar na sociedade ideias erradas sobre consentimento, nomeadamente a noção de que o ‘não’ pode tornar-se ambíguo em determinados contextos”, explicou também a psicóloga.

Assim, para Filipa Jardim da Silva, é importante olhar para este tipo de situações como oportunidades, uma vez que as figuras públicas têm uma maior capacidade de influência em certas e determinadas questões – e opiniões. “As figuras públicas têm uma capacidade única de modelar positivamente a sociedade. Assumir um momento menos feliz, reconhecer que determinado raciocínio não é o mais correto, e reposicionar a mensagem com base em responsabilidade e evidência, pode ter um impacto muito positivo”.

A perceção do público e a contribuição para a normalização

E se podem influenciar para o bom, a verdade é que este tipo de comentários, não só por serem proferidos por Cristina Ferreira mas também por serem perpetuados numa esfera pública, acabam por contribuir, de alguma maneira, para uma certa desinformação. Como explicou a psicóloga, “sempre que o discurso público desloca o foco da responsabilidade para fatores como adrenalina e contexto, abre-se espaço para a normalização de mitos sobre violência sexual”.

“Um dos mais perigosos é precisamente este: a ideia de que, depois de iniciada uma interação sexual, os limites deixam de ser claros ou de ter de ser respeitados. Isso não é correto. O consentimento é contínuo e reversível. Um ‘não’ mantém sempre o seu valor, independentemente do momento em que surge”, disse Filipa Jardim da Silva. “Confundir explicação com justificação é um erro com implicações sociais relevantes.”

Além disso, este tipo de posições por parte de figuras públicas pode “gerar confusão e enfraquecer referências claras sobre consentimento, responsabilidade e limites”, fazendo com que a perceção do público comece a mudar sobre este tema. “Quando se introduz a ideia de que determinados estados emocionais ou fisiológicos podem justificar a dificuldade em parar, algumas pessoas podem interpretar isso como uma atenuante”, disse.

“E isso é particularmente problemático numa sociedade que já enfrenta desafios ao nível da educação emocional, da autorregulação, do respeito pelos limites do outro e da saúde mental. Quando falamos em espaços públicos, seja na televisão, rádio ou redes sociais, há uma responsabilidade acrescida. As palavras moldam percepções, influenciam comportamentos e ajudam a definir o que é considerado aceitável ou não”, rematou a psicóloga.

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