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Fuckup Nights. Eles fracassaram nos negócios — e juntaram-se para falar sobre isso

Uma sex shop, um obituário estilo Facebook e uma app que só valeu 310€. Evento que reúne pessoas para partilhar histórias de fracasso chegou a Portugal. Estivemos lá.

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Rúben Obadia é responsável pelo relançamento das Fuckup Nights

Rúben Obadia é responsável pelo relançamento das Fuckup Nights

“Abrir uma empresa é como um namoro”, diz Bernardo Macedo para o público. São quase 21 horas e estamos no espaço de cowork Impact Hub Lisbon, em Lisboa, onde cerca de 80 pessoas assistem ao testemunho de mais um empresário que vem falar sobre os seus fracassos profissionais. “Para começar, tem de se conhecer bem a pessoa”. Aos 35 anos, Bernardo falhou nas duas coisas: fez sociedade com alguém que mal conhecia e cometeu o erro de se envolver com um dos parceiros. Resultado? Um fuckup total.

Este artigo não conta histórias de pessoas que começaram do zero, resistiram às dificuldades e venceram os desafios. Pelo contrário: os oradores partilham experiências de sonhos que iniciaram e concretizaram — até falharem redondamente e serem obrigados a admitir o fracasso total. Assumir que um negócio não correu bem não é fácil, mas é exatamente esse o objetivo das Fuckup Nights, um movimento à escala mundial que acaba de chegar a Portugal. A estreia aconteceu na passada quinta-feira, 10 de outubro, e trouxe até ao palco João Correia, Bernardo Macedo, Gianluca Pereyra e Ricardo Belo de Morais.

Os quatro oradores não se conheciam antes do evento

Com 26 anos, João Correia era formado em Biologia mas sentia que não estava na carreira certa para ter uma vida de luxo. “Esta profissão não dá muita massa e quando um gajo quer ter um bom carro, não consegue”, admite perante o público. Foi então que decidiu investir naquele que viria a ser o seu primeiro fracasso: uma sex shop com o nome Alalunga Lingerie — que, acredite ou não, é o nome de um atum. Não correu bem.

Continuou a tentar: vendeu sutiãs no El Corte Inglés (mais um fracasso), depois escreveu o livro “Sex Sharks and Rock’n roll”. Convencido de que o mercado português era demasiado pequeno para si, decidiu começar por lançar o livro em inglês, e vendeu apenas 36 exemplares em loja. Nos eventos a que vai, Ricardo leva os livros e já conseguiu “passar dos mil”.

Sem perder a esperança, lançou a versão portuguesa “sem sexo e vibradores à mistura”, que contrariou a maioria dos acontecimentos da sua vida e fez (algum) sucesso: esteve no Top de vendas da Bertrand e “à frente do livro de Michelle Obama”, remata em tom de riso.

Num tom descontraído e com humor, o biólogo garante que a maior dificuldade que teve quando decidiu fazer parte do evento “foi escolher que fuckups é que viria aqui contar, porque são muitos, mas mesmo muitos”.

João Correia é autor do "Sex sharks and Rock'n roll"

Era capaz de resumir os fracassos da sua vida em 7 minutos?

Presente em 90 países e 300 cidades, as Fuckup Nights têm como objetivo juntar pessoas que queiram partilhar fracassos — startups que falharam, projetos profissionais que não correram como esperado ou até relações pessoais que terminaram de forma desastrosa. “Se fizerem sentido”, conta Rúben Obadia, CEO da Message in a Bottle, a agência de comunicação responsável pelo relançamento deste evento de conceito internacional, em Lisboa.

O objetivo é falar sobretudo sobre fracassos profissionais, no entanto pode dar-se voz a outro tipo de falhanços sempre que se justificar.

O primeiro evento em Lisboa juntou quatro pessoas, mas não houve espaço para monólogos saturantes. Com dez imagens para apresentar ao público e apenas sete minutos para falar, os oradores partilham histórias de insucessos resumidas ao essencial. O objetivo é colocar à prova o poder de síntese: “Grandes discursos toda a gente é capaz de fazer, agora resumir uma história de vida em sete minutos é que é fantástico”, explica o organizador do evento. De seguida, a audiência tem entre dez e 15 minutos para colocar questões ou simplesmente falar sobre o que acabaram de ouvir.

E porque é que é importante falar de histórias de insucesso? “Fala-se muito em começos, mas ninguém fala de fins. E eu aprendo muito mais com o insucesso de alguém do que com o sucesso”, explica Rúben Obadia.

O ambiente é descontraído e para todas as idades

Num registo muito descontraído, e que acaba por também promover o networking, o intervalo de idades do público está entre os 20 e 40 anos. Mas pode não ser assim para a próxima, uma vez que o evento é aberto a toda a gente, sem limites.

Há pessoas de cerveja na mão, outras de gelado — são uma oferta para quem participa nas Fuckup Nights, que têm o custo de 10€ por pessoa —, uns estão de pernas cruzadas, outros descalços. As formalidades ficam lá fora.

O evento é conduzido por Susana, a amiga de Rúben Obadia que lhe apresentou esta ideia pela primeira vez. Foi ela quem assistiu a uma destas sessões no México, exatamente onde nasceu o conceito. As Fuckup Nights surgiram em 2012, quando quatro amigos começaram a beber tequila, ficaram alcoolizados e partilharam as suas histórias de insucesso de forma “aberta, honesta e sincera”. No final, perceberam que podia ser interessante tornar aquele momento entre amigos num evento aberto a toda a gente.

A apresentadora do evento foi quem deu a conhecer as Fuckup Nights a Rúben Obadia

Bernardo criou uma plataforma de voluntariado e um obituário inspirado no Facebook

Bernardo Macedo não tem dúvidas hoje de que abrir uma empresa é como um namoro. Ninguém inicia uma relação com um estranho — é preciso saber exatamente com quem é que estamos a envolver-nos para dar esse passo. Abrir uma empresa é a mesma coisa. Mas já lá vamos.

Bernardo de Sousa Macedo fracassou em quase tudo na vida. “Começou no momento em que nasci”, diz ao público. Profissionalmente, o seu grande problema foi escolher a equipa para trabalhar e a sua falta de capacidade para comunicar. Diagnosticado com síndrome de Asperger, o problema refletiu-se no trabalho: não conseguia falar com as pessoas com quem trabalhava, nem estabelecer o mínimo de elo de ligação com elas.

O lisboeta queria mudar o mundo. E foi por isso que decidiu criar um site que fizesse uma “ponte entre voluntários e organizações não governamentais”, à escala mundial. O projeto começou a crescer — chegaram aos 70 mil inscritos, em 13 países da União Europeia, e 300 organizações. Só que o facto de ter contratado “uma equipa a correr” acabou por se revelar um desastre — e condenar o projeto ao seu término.

Bernando de Sousa Macedo fundou a Product Manager & Technology, onde atualmente trabalha

Depois deste projeto, veio a ideia de criar um obituário online. O site queria ser uma espécie de Facebook para pessoas que morreram, ou seja, era criado um perfil para cada falecido com o objetivo de anunciar a sua morte — e recordá-lo para sempre online. Quando as pessoas pesquisassem pelo nome de alguém que já tivesse morrido, iriam aceder a esta plataforma.

Bernardo achava também que as pessoas (vivas, portanto) acabariam por criar uma rede de contactos, partilhando a dor com outras que estavam a sofrer. A ideia pode parecer descabida, mas a verdade é que funcionou. Só foi um fracasso porque, mais uma vez, o lisboeta não foi capaz de superar as suas barreiras de relacionamento com os outros. Isto fez com que assumisse a função de programador, engenheiro, operador de call center e até psicólogo, uma vez que havia muitas pessoas a ligarem com o único intuito de desabafar. A determinada altura, Bernardo não aguentou mais e fechou a plataforma — apesar de estar a ter algum sucesso.

E o que é que Bernardo aprendeu com estes dois fracassos? “Aprendi que não vale a pena ter ideias do tamanho do mundo e a trabalhar em equipa.” Foi esta aprendizagem que o levou a criar a empresa onde trabalha hoje, a Product Manager & Technology que entrega ingredientes frescos à porta das pessoas. E as coisas estão a correr bem.

O intervalo de idades do público está entre os 20 e 40 anos mas é aberto a todos

Uma ideia milionária que terminou em 310€

Gianluca Pereyra também falhou, mas não conseguia aceitar o fim do seu projeto. Convicto de que tinha tido uma ideia milionária — criou uma app que prestava serviço de publicidade —, lançou-se nesta aventura com os amigos de infância. O resultado foi tão desastroso que, no final, só receberam 310€. Quando fizeram as contas com o estagiário profissional que contrataram, porém, nem lucro tiveram.

Pereyra acreditava nesta app. Tanto que não tinha dúvidas de que ir ficar milionário. Problema? Depois de seis meses em operação, só receberam o primeiro pagamento ao sétimo mês — e no valor de 310€. Isto não deu obviamente para cobrir a deslocação de Gianluca, que teve de vir para Lisboa trabalhar, nem tão pouco o salário do estagiário profissional que tiveram de contratar. Foi um desastre completo, mas não hesita em admitir: “Será que repetia? Infelizmente vou ter de dizer que sim”.

A próxima Fuckup Night há-de acontecer por volta do Natal, mas ainda não há uma data definida — para estar a par das novidades, é seguir as redes sociais (Facebook, Instagram e YouTube). Toda a gente pode assistir ao evento, para partilhar os seus fracassos deve inscrever-se na página de Facebook. “Vamos tentando descobrir quem são as pessoas que mais de adaptam a este tipo de evento”, explica Rúben Obadia. Mas não há nenhum limite na escolha de quem participa: “Não é exclusivo de millennials, de geração Z ou Y. Merda já todos fizemos na vida, independentemente da idade”, remata.

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