Já todos demos com aquele erro em legendas de filmes e séries que têm tanto de hilariante como de irritante, capaz de deixar qualquer nazi da gramática de sobrolho levantado. E se ainda os podemos desculpar quando estamos a ver algo que nos chega de forma gratuita, erros podem ser ainda mais insultuosos se acontecerem num qualquer conteúdo das três plataformas de streaming (Netflix, HBO e Amazon Prime Video) em funcionamento em Portugal. É que cada uma delas exige uma subscrição que pode ir dos 4,99€ aos 13,99€ por mês. A pagar pelo serviço, não devia ser de qualidade?

A três meses do final do ano, Portugal vai receber pelo menos mais dois serviços, da Apple e da Disney. O desafio é grande: além da concorrência já instalada no País, há cada vez mais utilizadores a argumentar que a qualidade das legendas tem vindo a diminuir. E há cada vez menos paciência para tolerar erros gramaticais ou traduções incorretas.

Um desses utilizadores é Marco Almeida que, no Twitter, se queixou da qualidade das legendas na série “Easy” da Netflix. “Isto está a começar a ser escandaloso. Não vou continuar a pagar um serviço com este nível de traduções. É mais do que tempo de corrigir e acabar com isto”, lamenta.

Testámos a HBO Portugal — e queremos saber o que é que se passa com a imagem

Mas não foi o único. Catarina Cabral utilizou a rede social para escrever que o problema não é exclusivo à Netflix e que, como utilizadora da HBO, também via a mesma quantidade de erros em séries com legendas portuguesas.

“Na HBO é a mesma coisa. Não só em erros ortográficos mas também nas traduções literais que não têm em consideração o contexto e retiram o sentido aos diálogos. Em ‘Years and Years’, por exemplo, a frase ‘We’ve been Labour [o Partido Trabalhista do Reino Unido] por X anos foi traduzida para ‘trabalhamos há X anos'”, lê-se.

Contactados pela MAGG, Marco Almeida admite que “ultimamente a legendagem tem estado melhor”, enquanto Catarina diz que continua a ler coisas que a fazem “barafustar com a televisão e perguntar como é que não há ninguém que verifique a qualidade das traduções.”

Apesar das queixas, ambos garantem que, até agora, os erros não têm sido suficientes para os fazer repensar o valor da subscrição que pagam mensalmente. Mas a verdade é que são cada vez mais frequentes. E este reparo não é feito apenas por Catarina ou de Marco.

Susana Loureiro, 27 anos, é responsável há dois anos pela legendagem de algumas da séries mais conhecidas da Netflix como “Black Mirror”, “Rick and Morty”, “Big Mouth” e “Por Treze Razões”. Além disso, é também presidente da Associação Portuguesa de Tradutores de Audiovisuais, criada para denunciar e abordar todos os problemas que existem no meio da tradução e da legendagem para os novos media.

E é a experiência que lhe dá segurança para concordar com as queixas que lhe chegam acerca do estado da legendagem em Portugal.

“As legendas estão cada vez piores e isso tem que ver com a quantidade de pessoas a trabalhar na área sem capacidade para o fazer”, revela por telefone à MAGG. Mas embora dê razão às críticas, lamenta que a generalização seja prejudicial para todos os bons tradutores “que existem e que dão o seu melhor a cada trabalho que aceitam”.

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Sobre os motivos que levam a que existam amadores a trabalhar profissionalmente, Susana tem a resposta pronta: é tudo uma questão de prazos que têm de corresponder à oferta que existe atualmente no mercado. E dá o exemplo de “Seinfeld”, que vai fazer parte do catálogo da Netflix em 2021.

“A dois anos da série chegar à plataforma, pessoas com menos conhecimentos do meio podem achar que os tradutores vão ter cerca de dois anos para a legendar com todo o cuidado, mas não é isso que acontece. É possível que a Netflix forneça as imagens da série aos tradutores no final de 2020 e isso implica que, quem ficar encarregue de a legendar, vai ter cerca de um mês para o fazer. Estamos a falar de uma série com nove temporadas.”

Para acompanhar o aumento da oferta, a Netflix anunciou em 2017 um programa de recrutamento (que entretanto fechou) para encontrar “os melhores tradutores espalhados pelo mundo” — uma ideia que Susana considera “utópica” porque “nem todos os que gostam de séries e de tradução são capazes de fazer um bom trabalho”.

Além disso, diz, o programa abriu portas a todo o tipo de candidatos. “Geralmente, esses tradutores não têm competência linguística, dão erros de português e ninguém lhes dá feedback. Os prazos apertados e a exigência dos utilizadores em querer um conteúdo o mais depressa possível em catálogo, leva a que as coisas não sejam feitas com tempo. Isto, por sua vez, traduz-se em alguns dos erros que lemos nas legendas”, revela.

Susana, que só pode falar pela experiência que tem tido com a Netflix, diz que a abordagem da empresa passa por enviar um ficheiro com a legenda original (o chamado template), que depois é utilizado para legendagens noutras línguas. É apresentado o projeto, são estabelecidos prazos e cada tradutor aceita ou não consoante a sua disponibilidade.

Enquanto a segunda temporada de “Por Treze Razões” foi legendada com algum tempo, em parte porque os vídeos e o material foram sendo disponibilizados espaçadamente, Susana diz que com a segunda de “Rick and Morty” o caso foi totalmente diferente.

“Fomos obrigados a legendar os dez episódios numa semana. Foi um prazo ridículo que nos obrigou a correr e a trabalhar fins de semana para garantir que a série estava legendada a tempo da estreia em Portugal.”

E embora admita que não é adequado contactar o cliente e dizer que não consegue entregar o material legendado a tempo, diz que “há a possibilidade de renegociar prazos se o atraso puder melhorar a qualidade do trabalho.”

Ao que a MAGG conseguiu apurar junto da Netflix, é verdade que os prazos estão continuamente a ser observados para que, se necessário, possam sofrer alterações como já aconteceu— algumas até sugeridas pelos próprios tradutores se isso significar um aumento de qualidade no produto final.

Mas Susana reforça que, mais do que a problemática dos prazos, a maior dificuldade está na falta de aposta em “pessoal qualificado”.

Susana Loureiro tem 27 anos e há dois que traduz várias séries da Netflix, como "Black Mirror" e "Por Treze Razões"

Susana Loureiro

“As plataformas estão a usar tradutores que não o são. Lembro-me de que, recentemente, estava a ver uma série e a palavra ‘preservativo’ foi traduzida para ‘borracha’. Este é um erro claro que mostra que a legenda não foi feita por um tradutor sério. Porque um tradutor com brio, e com cuidado, não comete um erro destes.”

Apesar das críticas, Susana garante que a Netflix se preocupa com a qualidade dos seus produtos. Depois do programa de recrutamento para tradutores ter fechado, a ideia passa agora por ter empresas específicas que trabalham diretamente com a plataforma e onde se dá formação em legendagem.

Mas até nesta estratégia Susana identifica um problema: o facto de essas empresas serem internacionais e, por isso, não terem capacidade de formar tradutores portugueses e identificar erros, questões idiomáticas e linguísticas.

“Geralmente, nessas empresas há pessoas inglesas, francesas ou alemãs que não sabem corrigir português. Sabem lidar com as questões mais técnicas da legendagem, mas é só isso”, explica. Mas há controlo de qualidade. Prova disso é o facto de Susana já ter visto legendas suas rejeitadas ou corrigidas pela própria plataforma.

O problema, no entanto, não é exclusivo às plataformas de streaming e em televisão também há prazos apertados que condicionam a qualidade de uma tradução. “No contexto de televisão chega a ser pior, especialmente em noticiários, quando há cerca de duas ou três horas para traduzir um discurso de Donald Trump antes de ir para o ar.”

Apesar de tudo, Susana não esconde a revolta ao falar do tema, principalmente no que diz respeito à generalização do mau trabalho.

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“As legendas na língua do país em que as plataformas estão a funcionar são obrigatórias, mas revolta-me muito quando dizem que não há pessoas qualificadas a trabalhar nestas traduções. Porque há e muitas delas têm de fazer mais alguma coisa para garantir que chegam ao final do mês com dinheiro suficiente para sobreviver”, lamenta.

Quando contactada, a Netflix não respondeu às perguntas da MAGG sobre como são selecionados os tradutores e se é ou não verdade que, tal como Susana Loureiro alega, há falta de pessoal qualificado que seja capaz de corrigir e formar tradutores portugueses, bem com oferecer feedback sobre as legendas que entregam.

Da mesma forma, também a HBO Portugal se recusou a responder às questões sobre como é feita a seleção de pessoal para as equipas de legendagem dos conteúdos da plataforma, mas garante “valorizar os comentários e sugestões” dos subscritores que “são analisadas e reportadas para, de forma contínua, melhorar a qualidade do serviço”.