Chegou a Portugal em 2015 como alternativa ao tabaco convencional e tem atraído cada vez mais pessoas. IQOS é o seu nome, define-se por ser um produto de tabaco aquecido eletronicamente, não sujeito a combustão, e apesar de não ser tão em conta como os cigarros tradicionais, os consumidores garantem que faz menos mal, cheira melhor e compensa muito mais.

De acordo com o “Diário de Notícias“, em 2018 o número estimado de fumadores do tabaco aquecido em Portugal já era superior a 150 mil. No site oficial da Philip Morris International, empresa que fabrica o IQOS, é referido ainda que Portugal é um dos países no mundo que apresenta uma maior taxa de conversão, com 70% de fumadores a abolirem de vez os cigarros tradicionais desde que adotaram esta alternativa.

Todos eles trocaram o tabaco de enrolar ou maços de cigarros tradicionais para o IQOS na esperança de deixar de fumar, fumar menos ou simplesmente optar por um produto menos prejudicial para a saúde. Mas será que foi uma boa decisão?

No ano passado, a Philip Morris pediu a realização de um estudo, citado pela “Bloomberg“, com resultados positivos sobre os benefícios do seu produto. O estudo com ratos durou 18 meses e concluiu que, com esta alternativa, há “uma redução significativa” na formação de cancro.

Mas será que podemos confiar nestes resultados? Existem acusações de fraude científica — já lá vamos —, mas a Philip Morris garante que nenhum estudo é conduzido diretamente pela empresa. “Os estudos são realizados por CROS, as mesmas que trabalham com a indústria farmacêutica”, explica à MAGG Rui Minhós, diretor de assuntos regulamentares e científicos da Philip Morris e farmacêutico.

Uma CRO (cuja sigla significa Contract Research Organization) é uma empresa que fornece suporte para as indústrias farmacêuticas. Entre outras funções, elas ajudam na realização de ensaios clínicos. “As CROS precisam de licença para operar, e têm de cumprir uma série de requisitos”, continua Rui Minhós. “Portanto, realizam os estudos de acordo com as boas práticas clínicas”.

Até este ano, explica, já foram realizados 18 estudos não clínicos e dez estudos clínicos. “A totalidade da evidência científica aponta claramente que a utilização do IQOS apresenta menor risco de nocividade do que os cigarros tradicionais”.

Durante dois anos, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla inglesa) “acompanhou os resultados científicos, procedeu a uma avaliação técnico-científica, fez pesquisas na literatura”, continua Minhós. “Com base na evidência total, concluiu que a comercialização seria apropriada para a proteção da saúde pública.”

O parecer chegou em abril deste ano, com a permissão para a IQOS ser comecializada nos Estados Unidos.

“A agência determinou que a autorização desses produtos para o mercado dos EUA é apropriada para a proteção da saúde pública, porque, entre várias considerações importantes, os produtos produzem menos ou níveis mais baixos de algumas toxinas, em comparação aos cigarros combustíveis”, lê-se no site oficial.

“Embora a autorização de novos produtos de tabaco não signifique que eles sejam seguros, o processo de revisão garante que a comercialização dos produtos é apropriada para a proteção da saúde pública, levando em consideração os riscos e benefícios para a população como um todo.”

As acusações de fraude científica

Segundo o “Japan Times“, ex-funcionários e prestadores de serviços descreveram várias irregularidades praticadas nos ensaios clínicos. Foi o caso de Tamara Koval, que trabalhou na empresa entre 2012 e 2014, e ajudou a coordenar ensaios clínicos. Na sua opinião, é duvidosa a qualidade de alguns investigadores e locais contratados para conduzir os estudos.

A Reuters também fala de irregularidades. Em entrevistas aos principais investigadores contratados para conduzir os ensaios para a empresa, um deles admitiu não saber nada sobre tabaco. Rui Minhós refuta esta possibilidade: “Os investigadores principais são selecionados pela CRO e são treiandos no seu idioma local”, explica. “A própria FDA não detetou nenhuma inconformidade”.

Há mais acusações. Segundo a agência de notícias, um outro investigador enviou amostras de urina que excediam o volume que um ser humano é capaz de produzir. 

“Nesse caso em específico, chegou-se à conclusão de que os participantes tinham bebido quantidades excessivas de água. Uma vez que não sabemos se houve alguma razão para isso acontecer, reportámos a situação como efeito adverso. Isto está tudo documentado”, garante Rui Minhós.

Os entrevistados pela agência de notícias dizem que os ensaios clínicos patrocinados pela empresa são “sujos”, uma vez que o seu objetivo é mais comercial do que científico. A Philip Morris diz que isso não é sequer possível: “Não é a Philip Morris que conduz os ensaios clínicos, são as CROS”, diz, acrescentando que “há uma transparência total no decorrer do processo”.

“No próprio site da FDA é possível consultar toda a documentação referente aos estudos”. E remata: “Todos os desvios que possam acontecer em termos de protocolos são estudados e documentados.”

O tabaco aquecido “não pode ser visto como uma alternativa ao cigarro convencional”

A composição de um cigarro de tabaco aquecido é mais complexa do que a de um cigarro convencional. “O vapor produzido (aerossol de primeira ou segunda mão) contém uma porção de substâncias tóxicas (por exemplo, glioxal e formaldeído), metais pesados (chumbo, crómio e níquel), que são cancerígenos, propano-1,2-diol, alguns compostos orgânicos voláteis”, explica à MAGG o pneumologista Vítor Fonseca.

O especialista explica que estes “elementos podem ter efeitos negativos na saúde dos utilizadores”, portanto o tabaco aquecido “não pode ser visto como uma alternativa ao cigarro convencional, nem como um meio de deixar de fumar”.

Até porque não há benefício para os pulmões: “Foi realizado um estudo experimental que comparou diretamente os efeitos do fumo de cigarro, vapor do cigarro eletrónico e aerossol do IQOS e concluiu-se que este último provoca o mesmo tipo de danos nas células pulmonares que o fumo de cigarro, mesmo em baixas concentrações”.

Cigarros eletrónicos associados a pneumonia rara

Rui Minhós garante que não é isso que os estudos revelam. “O IQOS reduz os consittuintes tóxicos presentes nos aerossóis, o que por sua vez reduz a toxicidade. Os ensaios revelam uma melhoria da resposta buológica quando as pessoas deixam de fumar cigarros e passam para o IQOS”.

E reforça: “Estes produtos não estão isentos de riscos. A melhor opção para minimizar os riscos é nunca começar a consumir produtos tabacos ou deixar de fumar. No entanto, estes produtos são uma melhor alternativa do que continuar a fumar cigarros”.

Em abril, 12 sociedades científicas e organizações de saúde portuguesas expressaram a sua preocupação sobre a ideia generalizada de que o tabaco aquecido é menos prejudicial para a saúde.

Segundo cita a “SIC Notícias“, é preciso recordar que estes produtos “produzem aerossóis com nicotina e outros químicos”. Organizações como a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar e a Sociedade Portuguesa de Pneumologia, entre outras, dizem assim estar “fortemente preocupadas” com o surgimento destes novos produtos de tabaco.

“Os PTA (Produtos de Tabaco Aquecido) contêm nicotina, substância altamente aditiva que existe no tabaco, causando dependência nos seus utilizadores, para além de estarem presentes outros produtos adicionados que não existem no tabaco e que são frequentemente aromatizados”. E reforçam: “Atualmente não existe evidência que demonstre que os PTA são menos prejudiciais do que o cigarro convencional”.

Em resposta, a empresa respondeu, conforme cita o jornal “Público“, que “mais de 20 estudos independentes e de organismos oficiais que confirmam que o tabaco aquecido constitui uma melhor alternativa do que os cigarros para aqueles fumadores que não querem ou [não] conseguem deixar de fumar”. Isto, garantem, tem vindo a ser “amplamente comprovado por evidência científica independente e entidades oficiais como a a Public Health England, ou a Food and Drug Administration americana, ou o Instituto alemão para a Avaliação do Risco”.

E insistem: os estudos “corroboraram a existência de uma redução média entre 90% e 95% da toxicidade dos novos produtos de administração de nicotina sem combustão, com ou sem tabaco, por comparação com o fumo dos cigarros”.

Rui Minhós reforça esta posição e insiste: “A melhor alternativa é sempre nunca fumar ou deixar de fumar. [O IQOS] não é um produto isento de risco, mas é mais benéfico do que fumar tabaco normal”.

Não podemos confundir tabaco aquecido com cigarros eletrónicos

Um pouco por todo o mundo, têm saído notícias sobre alegadas mortes relacionadas com o uso de cigarros eletrónicos — que não devemos confundir com o tabaco aquecido (ver caixa). Um total de 450 casos de doença pulmonar e seis mortes estão a ser associados à utilização deste produto. Os dados são do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla original), e dizem respeito a 33 estados norte-americanos e às Ilhas Virgens Americanas. A maioria dos casos corresponde a jovens, no entanto as vítimas mortais eram adultos com problemas de saúde crónicos.

O tabaco aquecido não é a mesma coisa do que um cigarro electrónico

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O cigarro eletrónico (ou vaping) recorre ao aquecimento de líquidos com ou sem nicotina. No caso do tabaco aquecido não há líquidos, mas sim unidades de tabaco que contêm nicotina. Em nenhum dos casos existe investigação científica suficiente que assegure que estes produtos são menos prejudiciais para a saúde do que o tabaco convencional.

Podemos assumir que o mesmo se venha a verificar com a utilização do IQOS? Para já não existem dados que sustentem esta afirmação. No entanto, o pneumologista Vítor Fonseca afirma que tem encontrado pacientes com alterações inflamatórias pulmonares relacionadas diretamente com o tabaco aquecido, que não existiam quando o paciente fumava tabaco convencional.

“Ainda não existe nenhuma doença específica associada a este tipo de tabaco, contudo pode-se assumir com o número crescente de registos clínicos e óbitos associados ao tabaco aquecido e cigarro eletrónico, que surjam novas entidades ou doenças clínicas especificas deste tipo de inalação”, concluiu.

Rui Minhós esclarece que não pode comentar nenhum caso específico sem conhecer todos os detalhes, no entanto incentiva os médicos, especialistas e até os próprios consumidores a entrarem em contacto com a empresa caso notem alguma anomalia. “Temos uma linha telefónica imprensa nos maços de produto aquecido. Um médico ou qualquer outra pessoa pode entrar em contacto connosco”, diz, explicando que a queixa ou qualquer informação relevante sobre o produto segue de forma anónima para o departamento médico, que a irá avaliar.