Lisboa está recheada de turistas, com tudo o que isso tem de bom e de mau: e se a economia bate palminhas com a quantidade de euros que entram nas caixas registadoras dos lojistas, os habitantes da cidade nem sempre ficam contentes com os empregados de restaurantes que já usam o “hello” como saudação habitual.

E é logo aqui que O Frade, o novo restaurante de comida regional portuguesa de Belém, marca a diferença. Num espaço localizado na Calçada da Ajuda, mesmo ao lado do Palácio de Belém e a escassos metros de locais de interesse turístico como o Mosteiro dos Jerónimos ou a Torre de Belém, a única língua que se ouve num restaurante lotado em pleno mês de julho é mesmo o português.

Com um grande enfoque na gastronomia alentejana, O Frade é a concretização do projeto familiar dos primos Sérgio Frade e Carlos Afonso. Ambos alentejanos, o nome começa logo por ser uma homenagem a duas pessoas muito especiais.

“Os nossos avós tinham um restaurante em Beja, chamado O Frade, muito conhecido. Hoje em dia o espaço ainda está lá, fechado, mas deixou de ser da nossa família há muito tempo”, conta à MAGG Sérgio Frade, um dos responsáveis por este novo espaço.

O Frade

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Morada: Calçada da Ajuda, 14, Belém
Telefone: 939 482 939
Horário: 13h-23h. Fecha à segunda-feira

Conhecido pelas suas especialidades, o restaurante original de Beja também tinha uma grande ligação aos vinhos da talha, produzidos pelo avô dos primos. Atualmente, é o pai de Sérgio Frade que assumiu essa atividade, e estes não podiam faltar no novo espaço de Belém.

“Os vinhos da talha são a nossa essência e algo muito especial para nós, que partilhamos apenas com os nossos clientes”, explica Sérgio Frade, que assume o papel de anfitrião e se orgulha de servir vinhos DOC, de produção biológica, com um sabor bastante diferenciador do que se prova habitualmente (também servidos ao copo a partir de 4,50€).

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Uma taberna atual e moderna, mas recheada do sentimento de família

O espírito de família está bem presente neste espaço, e tal não se deve apenas ao laço familiar de Sérgio Frade e Carlos Afonso, que assume as rédeas da cozinha. Os dois primos fazem questão de tratar todos os clientes como elementos da família e amigos, e prova disso é a relação de proximidade que estabelecem com os mesmos, logo a partir do balcão, o ponto central do espaço.

“Foi uma questão de aproveitamento de espaço?”, questionamos. Garantem-nos que não: a intenção sempre foi ter um grande balcão, e não as típicas mesas. “A ideia era ter aqui uma sala de jantar e uma grande mesa. A única diferença é que aqui entramos pela mesa adentro para servir os clientes”, brinca Sérgio Frade.

O espaço tem 22 lugares sentados, combinando o balcão central com duas mesas altas à janela

Tudo é preparado à vista de quem se senta ao balcão, e é nessa altura que Carlos Afonso coloca em prática a sua mestria, adquirida no seu percurso em restaurantes de alta cozinha.

“Trabalhei com grandes chefs, que me deram as ferramentas necessárias para aperfeiçoar os pratos tradicionais que aprendi a cozinhar com a minha mãe. Sinto-me realizado ao interpretá-los à minha maneira” diz o chef alentejano, que passou pelo restaurante Ocean, no Algarve, pelo Marmóris, em Vila Viçosa, e que trabalhou de perto com o chef Eneko Atxa, em Espanha.

Tal como explica Carlos Afonso, o conceito d’ O Frade não são apenas os petiscos, embora sejam estes que dominam a carta, que é alterada regularmente, de acordo com a oferta da praça: “É importante para nós trabalharmos com os melhores produtos, sazonais e regionais”.

E alguns dos pratos deste espaço, feitos para partilhar, surgem de refeições do staff. “A galinha acerejada, por exemplo, foi servida num almoço que fiz para a equipa e depois acabámos por colocar na carta”, conta Carlos Afonso, que desde os seus tempos na alta cozinha se oferecia sempre para fazer as refeições do staff, muito por ser um apaixonado por comida de tacho.

Mas, afinal, o que é que se come aqui?

Carlos Afonso recusa a ideia de que este é um restaurante somente alentejano, embora exista um claro domínio deste tipo de gastronomia. “Ás vezes também servimos xerém, um prato tipicamente algarvio”, ressalva.

Embora esta não seja uma carta fixa, com sugestões criadas até no próprio dia, se visitar o espaço nos próximos tempos é bastante provável que vá encontrar opções como os ovos com espargos (8€), muxama de atum com ovos (8,50€), galinha acerejada (7,50€), lulas com grão (8€), pato de escabeche (9€), coelho de coentrada (8,50€) e papada à alentejana (6€), entre outras alternativas.

7 fotos

No campo dos pratos principais, que continuam a ser ótimos para partilhar, tal como as chamadas entradas, estes também vão variando. Mas há um que está a trilhar o caminho para se tornar num dos favoritas d’ O Frade. “Todas as casas têm um prato de especialidade, pelas quais são conhecidas. Estamos a começar a pensar se o nosso não será o arroz de pato”, adianta Carlos Afonso.

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E prepare-se para um arroz de pato (13,50€) totalmente diferente daquilo a que está habituado. Feito com arroz malandrino no ponto e bastante húmido, pato desfiado, um intenso (mas nada enjoativo) sabor a laranja e raspas de chouriço, este arroz é uma autêntica experiência e concordamos com a avaliação do chef — este é mesmo um prato diferenciador.

Os vinhos da talha, produzidos pelo pai de Sérgio Frade, são um dos cartões de visita do espaço

As sobremesas não podiam faltar e, à boa moda alentejana, existem opções como a encharcada (3,50€), o requeijão com mel (3,50€), mas também uma caseira mousse de chocolate (3,80€), que justifica uma visita ao espaço.

Quem também já visitou este novo restaurante de Belém foi um vizinho de peso, que mora mesmo ao lado, num conhecido palácio cor-de-rosa.

“É verdade, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa já cá veio três vezes, mas só tirou selfies”, confidenciou-nos Sérgio Frade. “O staff dele é que já veio cá comer muitas vezes, mas o presidente disse-me que passa aqui à frente à noite e estamos sempre cheios. Mas prometeu voltar”.