Agachados ou sentados. Há mesmo uma forma correta de fazer cocó?

A posição em que defecamos já foi associada a algumas doenças. Será redutor colocar a tónica dos problemas nisto? Um especialista explica.

O médico Ricardo Veloso diz que "não existe uma posição universalmente correta para defecar"

Cólon. Intestinos. Fezes. O que são palavras mágicas para os ouvidos de Giulia Anders, roçam o constrangedor e repugnante para o resto do mundo. A médica, investigadora, especialista em gastroenterologia e autora de “A Vida Secreta dos Intestinos”, é tão fascinada por este órgão, que chega a utilizar adjetivos como “charmoso” para o descrever. Mas quem a leu é capaz de entender o encanto. Até há pouco tempo, era muito reduzido o protagonismo que se atribuía ao tubo digestivo, mas hoje sabe-se que ele é absolutamente fundamental na nossa saúde, tendo em conta os milhares de milhões de bactérias fundamentais que por lá habitam, a riqueza em células e em hormonas, o sistema nervoso próprio e a comunicação direta com o cérebro.

O livro foi um sucesso de vendas tão grande que deu origem a outras publicações sobre o tema e não só pôs esta temática para cima da mesa, como nos fez questionar sobre aquilo que tínhamos como verdade absoluta. Será que a melhor forma de fazer cocó é sentado? Será que andamos a fazer isto mal? De acordo com a especialista, sim. A investigadora alega que vários estudos têm demonstrado que o ato de fazer cocó é mais eficiente se for feito em posição de agachamento (efetivo ou simulado, com elevação da anca) ou em pé, podendo evitar uma série de problemas de saúde. Mas será que é mesmo assim? A opinião não é unânime — mas já lá vamos.

Para que se compreenda o mecanismo da coisa, imagine-se uma mangueira. Se ela se dobrar em algum lado, a água tem mais dificuldade em passar. O mesmo acontecerá com os intestinos. Se estivermos sentados, os intestinos assumem uma posição que impede uma limpeza mais profunda, porque vai haver sempre uma zona em que o tubo fica com as paredes apertadas uma contra a outra, tornando bastante mais complicada a passagem das fezes. O que esta tese defende é que, se estivermos de pé ou agachados, posições consideradas mais “naturais”, o processo decorre que é uma maravilha, porque se aumenta o ângulo ano-retal. Ou seja, os intestinos têm mais desafogo para que tudo passe sem esforço, grandes tempos de espera e sem que fiquem assuntos pendentes.

O sucesso disto foi tão grande, que falar de cocó publicamente passou a ser quase socialmente aceitável. Celebridades conhecidas assumem sem vergonha — com bastante alegria e orgulho, aliás — que as idas à casa de banho têm sido bastante mais eficazes e satisfatórias desde que adotaram o Squatty Potty, um instrumento simples, estilo banquinho, que ajuda a elevar o nível das ancas e a simular a posição do agachamento, quando sentados na sanita — que já vendeu mais de 5 milhões de unidades, desde que entrou no mercado em 2011, dados avançados pelo “The Guardian”.

Jimmy Kimmel é fã deste pote, bem como Sally Fields ou Howard Stern, que, a propósito das maravilhas desta invenção, disse: “Tive, tipo, eliminação total. Foi inacreditável, senti-me vazio.”

“Não existe uma posição universalmente correta para defecar”

Mas, como em tudo, há o reverso da medalha. “É muito difícil dizer se existe uma maneira melhor que a outra para defecar até porque existe muito pouca investigação científica neste campo”, diz à MAGG o especialista em gastroenterologia do hospital dos Lusíadas Ricardo Veloso. “Não existe uma posição universalmente correta para defecar.”

Caso tenha adotado a posição do agachamento simulado, não se inquiete, sendo que, “o máximo — ou o pior — que pode acontecer é não funcionar.”

O que é a obstipação?

Não é uma pergunta fácil, devido à “subjetividade associada aos sintomas”, como explica Ricardo Veloso. No entanto, “regra geral é considerado trânsito intestinal ‘normal’ quando se tem dejeções entre 3 vezes por dia, até 3 vezes por semana. Mas muitas pessoas que se enquadram nesta “’regra’ queixam-se frequentemente de serem obstipadas.”

Tem de incluir pelo menos um de dois dos seguintes sintomas: esforço defecatório, fezes duras ou cibaladas; sensação de evacuação incompleta, sensação de obstrução à dejeção, recurso à digitação para a extração de fezes da ampola retal, menos de três dejeções por semana.

Tem de ter obrigatoriamente: passagem muito esporádica de fezes moles e não pode cumprir os critérios para outras doenças funcionas do tubo digestivo, como intestino irritável.

Apesar de tudo, o médico adianta que há quem possa, de facto, beneficiar desta elevação das pernas, apesar da ressalva de não existirem estudos conclusivos. “A posição de agachamento/flexão da anca parece ajudar algumas pessoas obstipadas [a obstipação afeta entre 2 a 26% da população mundial] a terem mais facilidade no ato de defecar, provavelmente por aumentar o ângulo ano-retal, parecendo que influencia também a pressão intra-abdominal”, diz. “Contudo, nem toda a gente precisa desta ajuda e a grande maioria das pessoas não precisa de um ângulo tão aberto para ter um acto de defecação normal.”

Segundo o médico, a posição não pode ter um papel tão determinante, porque o “ato de defecar é muito mais complexo do que apenas o ângulo ano-rectal e afirmar que defecar sentado não é natural não é correto”, apesar de “também não ser incorreto fazê-lo numa posição mais agachada ou com a anca em flexão”, volta a ressalvar.

Mas, de acordo com outras investigações, a posição poderá evitar condições predominantes na sociedade ocidental — onde se faz mais cocó sentado — relacionadas com o esforço no dito ato da evacuação. Esta força titânica já foi associada às hemorroidas, à inflamação intestinal, a desmaios e até a derrames, hemorragias cerebrais ou ataques cardíacos. Outros estudos também já ligaram a posição ao cancro do cólon, apendicite e inflamação intestinal, como já foi sugerido.

Mas Ricardo Veloso discorda em absoluto, porque considera redutoras as associações posição-doenças. “A grande maioria das doenças gastrointestinais são multifatoriais, poligenéticas nalguns casos e influenciadas igualmente pelo meio ambiente em que as pessoas se inserem”, diz. “Tentar reduzir essas doenças à forma como defecamos é completamente inconsistente com a investigação científica efetuada até à data. Muitas vezes as alterações do trânsito intestinal têm múltiplos fatores concorrentes e é impossível relacioná-los exclusivamente à forma ou maneira como defecamos.”

O caminho do cocó

“Não é apenas pensar em obrar e já está”, explica Ricardo Veloso. O caminho que as fezes percorrem é bem mais complexo. Está cheio de etapas, de avaliações e de decisões. Pode andar para a frente e para trás até que o cérebro dê o OK, aquele que diz: “Avança, estás em local seguro.” Ora vejamos.

“As fezes são constituídas pelos resíduos sólidos ou semi-sólidos da comida que não pode ser digerida/absorvida pelo intestino delgado”, explica Ricardo Veloso, que acrescenta ao conjunto bactérias e produtos do metabolismo humano, como bilirrubina, bem como células mortas do revestimento do tubo digestivo.

As fezes, na forma em que as conhecemos, “são formadas no intestino grosso — ou cólon —, sendo que este é constituído pelo cego, cólon ascendente, cólon transverso, cólon descendente, cólon sigmóide e reto.” É no cego que a odisseia começa. “As fezes iniciam então a sua formação no cego/cólon ascendente, onde ainda são líquidas ou semi-líquidas, e vão sendo propagadas pelo cólon, tornando-se progressivamente mais sólidas (num processo de trânsito intestinal normal), até serem armazenadas no reto.”

Mas, chegando ao final do processo, há ainda duas etapas por ultrapassar: os esfíncteres, músculos com fibras circulares que controlam a abertura de determinados orifícios. No reto temos dois. Um deles, o que contacta com o exterior, abrimos e fechamos conscientemente. O outro não. E para que é que ele serve?

Como explica Giulia Enders, para enviar uma amostra para as câmaras sensoriais que ficam entre o esfíncter interno e externo para analisar e decidir se é seguro seguir em frente, seja a título dos gases ou das fezes. As câmaras enviam a resposta para o cérebro e é aí que tomamos uma decisão. Prosseguir ou não. Vamos supor que está numa reunião. À partida, os sensores dizem não dão autorização ao cérebro e a amostra que passou do esfíncter interno volta para trás, para só mais tarde, num local seguro — como em casa —, ser liberta, com o restante.

Este é um dos processos que exemplifica a complexidade do nosso sistema digestivo e a importância dos intestinos. “O ato de defecar é, efetivamente, um ato muito complexo. Digo isto muitas vezes aos meus doentes”, diz. Envolve um conjunto integrado e coordenado de funções sensório-motoras que são orquestradas por mecanismos neurológicos centrais, espinais, periféricos (somáticos e viscerais) e do plexo neurológico entérico [rede de neurónios do sistema digestivo]”, diz Ricardo Veloso.

Ocorre por várias etapas e necessita de coordenação de múltiplos estímulos. Há mecanismos autónomos e outros que são dependentes da nossa vontade e por isso, na maioria dos casos, conseguimos evitar a dejecção caso essa não seja conveniente.”

Partilhe
Fale connosco
Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado. [email protected]