Bailey Richardson anunciou aos seus 20.000 seguidores a sua saída de uma das mais populares redes sociais com uma frase simples: “Chegou a hora de eu apagar o meu Instagram. Obrigado por todas as simpatias ao longo dos anos”. Mas esta mulher de 31 anos não seria notícia só por isso – afinal, só neste ano, 68 por cento dos americanos ou deixaram ou fizeram uma pausa das redes sociais, segundo um estudo do reputado Pew Research Institute.

Só que Bailey Richardson ajudou o Instagram a crescer: foi uma das 13 primeiras funcionárias da plataforma. Agora, invocando a perda da “sensação de intimidade, arte e descoberta que definiu o início do Instagram e levou ao seu sucesso”, a norte-americana deixa de ter conta.

Ao jornal “Washington Post”  a veterana do Instagram recordou a sua entrada na equipa em fevereiro de 2012, quando este era dominado por fotógrafos, hipsters e artistas que “queriam compartilhar coisas interessantes ou bonitas com que se deparavam no mundo”.  Antes de existirem algoritmos que controlam e sugerem contas e conteúdo, a função de Bailey Richardson era selecionar um por um todos os instagrammers e as fotografias que valiam a pena serem vistos.

Nesse mesmo ano o Instagram foi adquirido pelo Facebook, tendo o seu CEO, Mark Zuckerberg, garantido à equipa que iria manter a identidade da plataforma. A verdade é que o Facebook queria melhorar algumas coisas no Instagram e gradualmente foi modificando mais e mais aspetos. Segundo refere o “Washington Post”, ajudou a corrigir o desajeitado processo de login, que estava a afastar utilizadores, e introduziu técnicas que funcionavam no Facebook, como enviar aos utilizadores um alerta por e-mail sobre as atividades dos seus amigos quando eles, depois de algum tempo sem publicar nada, o voltavam a fazer. E abriraram a possibilidade de identificar pessoas nas fotos, tal como no Facebook, para frustração dos primeiros funcionários do Instagram, que viam esta rede social como mais restrita, mais vocacionada para pessoas que adoravam o Instagram e as imagens e não partilhavam da ideia de ter de agradar ao público em geral.

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“O meu trabalho era incompreendido tal como a minha visão sobre a plataforma”, disse Bailey Richardson. Por isso, pediu a demissão em 2014, juntamente com a maioria dos funcionários iniciais, dedicou-se a viajar e fundou uma star-up chamada People & Company.

Com o passar dos anos Bailey tornou-se uma mera utilizadora da rede social, acompanhando a introdução do polémico algoritmo do feed (deixando de ser cronológico), a personalização dos conteúdos sugeridos,a introdução da funcionalidade Stories, mas já não era a mesma coisa: “Nos primeiros dias, tu sentias que o teu post era visto por pessoas que se importavam contigo e com quem tu te importavas. Esse sentimento desapareceu completamente agora”. A sua decisão de fechar a conta na rede social foi acelerada com anúncio da saída dos fundadores do Instagram, Kevin Systrom e Mike Krieger, e a ideia de que o Facebook poderia agora destruir a réstia de identidade independente do Instagram.

Tal como Bailey Richardson, também outros funcionários abandonaram a rede social. Segundo o “Washignton Post”, há até quem tenha vergonha de revelar que trabalhou um dia no Instragram. Um ex-engenheiro da empresa afirmou que “antes o Instagram era uma máquina fotográfica que olhava para o mundo, agora é algo voltado somente para mim, os meus amigos e aqueles com quem eu estou”. Todos eles concordam que a ideia de relação próxima entre utilizadores e de valorização da arte se foi perdendo pelo caminho, dando lugar a uma plataforma monopolizada por celebridades, que tem como missão ocupar a atenção e o tempo dos utilizadores.

Uum estudo publicado pelo Pew Research Center em 2018, constatou que 1 em cada 4 americanos modificaram a sua relação com as redes sociais, em particular o Facebook: 54% alteraram as configurações de segurança, 42% fizeram uma pausa e 26% apagaram mesmo a aplicação do seu telemóvel. Bailey Richardson compara a presença nas redes sociais a uma dependência que já não faz sentido: “Parece que estamos todos viciados numa droga que já não nos faz efeito”.