Apanhámos o elétrico 28 para ir almoçar. Não por ser um passeio bonito, muito menos para termos aquela sensação bem cliché do turista-na-minha-cidade. Apanhámos o 28 porque, de facto, é o transporte mais prático para chegar a um restaurante que fica já a caminho da Sé.

Mas assim que entramos no Prado, acabamos, mesmo sem querer, por duplicar todos os trejeitos típicos de turistas acabado de chegar a Lisboa: abrir a boca de espanto, sacar do telemóvel para fotos e apanhar, não a boleia de um tuk tuk, mas da funcionária que nos encaminha para uma das mesas livres à hora de almoço.

O Prado está sempre cheio, ou quase. Para jantar, pelo menos às horas a que estamos habituados, algo ali entre as 20h30 e as 22 horas, só com reserva de pelo menos uma semana. Para os outros horários, apesar de mais folgados, talvez seja melhor que a marcação seja feita dois dias antes.

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Com a lição estudada, fizemos a nossa marcação a tempo, ainda mais depois de saber que o restaurante foi considerado pela revista “Condé Naste Traveller” um dos melhores novos restaurantes do mundo. Aquela que é uma das mais conceituadas publicações quando o assunto é comer, dormir e viajar, gaba-lhes a forma “casual-chic de servir pratos de partilha feitos de alimentos sazonais, orgânicos e locais”. Falam ainda de um menu que é “uma carta de amor a Portugal” e nós, eternos românticos, fomos perceber se esta relação se escreve a papel, caneta e envelope ou em simples mensagens do Tinder.

Um menu que é uma surpresa

Se continuássemos nas analogias, diríamos que o Prado não é uma carta de amor, é todo um livro de Lobo Antunes escrito quando a guerra o mantinha a milhares de quilómetros de Maria José.

A distância não era tão grande como de Angola a Lisboa, mas António Galapito veio de Londres para território conhecido de propósito para ter, finalmente, um espaço só seu.

Um dos melhores 9 novos restaurantes do mundo é português

Trabalhou com o chef Nuno Mendes no restaurante Taberna do Mercado, a mostrar aos britânicos que há todo um mundo além do fish and chips e que esse mundo fala português. E agora, ainda que de volta a casa, o chef de apenas 28 anos decidiu que o Prado, em plena Lisboa, seria também um espaço de comida portuguesa, mas com um plus: ingredientes sazonais, orgânicos, cozinhados de forma simples e num ambiente despretensioso. Dissemos um plus e afinal são vários. E tudo isto ainda nem a comida nos chegou à mesa.

Quase que a adivinhar os nossos pensamentos, é-nos pousado na mesa o melhor pão desta cidade. É da Gleba, a padaria que se dedica ao fabrico de pão feito a partir de fermentação natural, e que aqui é servido ainda quente, acompanhado de duas opções: manteiga de cabra, sal fumado e alface do mar ou gordura de porco batida, alho e louro.

Podíamos ficar só por este couvert que já saíamos satisfeitos mas a verdade é que isto ainda agora começou.

A carta é breve e muda todos os dias, muda até do almoço para o jantar. E ainda que, aquando da abertura, todos os meios tenham associado o restaurante aos pratos de carne assim que o chef disse que gostava de trabalhar animais inteiros, aqui o peixe é digno de lugar de trono e nem os vegetarianos ou veganos são esquecidos. Aliás, calhou-nos na sorte um dia em que da carta, apenas quatro pratos eram de carne. Sendo assim, venha a nós todo o peixe que o Prado tem.

Agora sim, a refeição

Decidimos começar ao de leve, com um prato cujo nome é tão simplesmente “Tomate coração de boi, melancia e hortelã” (6,5€). Que saudades tínhamos de chamar as coisas pelos nomes, depois de tantas experiências sempre em cama disto ou em redução daquilo.

O que chega à mesa é mesmo isso: tomate e melancia, mas lá está, como falamos de produtos da época, aqui os sabores ganham outra dimensão, sem precisar de temperos ou artifícios.

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Assim continuamos quando passamos para a segunda entrada que, por sugestão de quem nos serve, vem em forma de cavala, vinagrete de alface do mar e salsa (6,80€). E pronto. É na primeira garfada deste prato apresentado da forma mais simples possível que o Prado justifica automaticamente toda esta distinção internacional. De tal forma que, no dia seguinte, calcorreamos Lisboa à procura de alface do mar, na esperança de um dia conseguir reproduzir com em casa algo semelhante a este prato.

Depois deste êxtase, precisamos de uma pausa. E é aqui que levantamos a cabeça do prato e reparamos no pé que não é alto, é gigante. As paredes imponentes ficam preenchidas com uma garrafeira de vinhos biológicos e plantas que, ainda que ajudem a justificar o nome do restaurante, não caem naquele exagero de transformar espaços de Lisboa em pequenas Amazónias.

Temos ainda tempo para reparar numa biblioteca ao balcão com livros que mostram de que matéria é feito este chef. Se de um lado temos um tão tradicional “Marvão, à mesa com a tradição”, do outro temos “On eating insects”. E antes que a imaginação de António Galapito voe até este futuro que nos põe insetos à mesa como algo de inevitável, aproveitemos o prato principal: salmonete com puré de tomate assado e paprika fumada (20€), “feita por nós”, avisam-nos, assim que o prato chega à mesa.

Prado

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Restaurante

Morada: Travessa das Pedras Negras, 2,  Lisboa

Horário: 12h-2h, 12h-17h ao domingo. Fecha segunda e terça-feira

Telefone: 210 534 649 (reservas obrigatórias para grupos com mais de seis pessoas)

Mercearia

Morada: Rua das Pedras Negras, 37, Lisboa

Horário: 10h-20h, fecha ao domingo

Telefone: 960 280 492

Para fechar esta experiência, pensámos em algo simples como uns morangos com chantilly (4€), mas que, claro, estando no Prado são só os melhores morangos com chantilly que tivemos o prazer de provar. Os morangos são Mara des Bois, uma das melhores variantes deste fruto e é servido aqui com um chantilly caseiro, fumado e com um toque de azeite. Se me dissessem que algum dia ia comer morangos com azeite e gostar, diria que era mentira. Assim como também negaria até à morte a probabilidade de um prato que junta no nome ‘cogumelos’ e ‘gelado’ pudesse algum dia resultar. Mas resulta. O chef faz questão que não saiamos sem provar aquela que é a sobremesa há mais tempo na carta: gelado de cogumelos, cevada, dulse (uma alga) e caramelo (5,80€).

I rest my case. Vamos para casa deitarmo-nos na cama, pôr o Spotify em modo ‘love songs’ e pensar nesta experiência que soube, não a história de amor, mas a primeiro beijo.