Com um ano e meio e 44 quilos, Bacon não passa despercebido no Bairro Alto, em Lisboa. De grande porte e com grunhidos inconfundíveis, é capaz de captar a atenção de qualquer pessoa que passe, que não resiste a filmar ou a tirar uma fotografia. A figura já faz parte do ADN do salão de cabeleireiro na rua Luz Soriano, mas diz o dono que não foi uma ideia pensada até porque a sua sócia na empresa nunca achou muita piada à ideia de juntar a imagem de um porco à imagem de um salão de estética.

A verdade é que agora há uma placa mesmo à entrada com o nome do animal e com o endereço da página dele de Instagram. Sim, é verdade. Bacon está na rede social. E com apenas dois meses de conta ativa, já é seguido por mais de três mil pessoas que, diariamente, comentam e reagem às publicações que o dono, Adilson Neves, mais conhecido por Kako, cabeleireiro de 42 anos que se mudou do Brasil para Portugal há 15, vai partilhando.

À MAGG, Kako revelou que está já à procura de uma nova casa com um quintal para poder ter mais animais (e que até já lhe ofereceram uma mini cabra). O próximo passo, revela, é começar a publicar conteúdo mais informativo na conta de Instagram do porco — quer desmistificar o preconceito e a ideia de que os porcos são animais sujos, nojentos e desinteressantes.

Porquê um porco e não um cão ou um gato?
Essa é uma pergunta que muita gente me faz. Na altura, quando pensei em ter um animal de estimação, o primeiro animal em que pensei foi um cão. Mas eu já tinha estado em contacto com um porquinho de estimação quando um cliente do meu salão levou o seu porco com ele. Na altura eu achei muito engraçado e até interessante porque não é um animal que se veja muito pelas ruas de Lisboa. Falei durante algum tempo com ele e fiquei muito entusiasmado com a ideia de ter um porquinho para mim.

O criador brincou comigo e disse que aquele porquinho era um sortudo porque já não ia parar à panela”.

Pouco tempo depois, descobri que um amigo meu do Porto também tinha um porquinho de estimação só que, ao contrário do Bacon, este já era bem grande. Aprendi muito com ele já que o meu amigo tinha muita experiência depois de ter tomado conta do seu porco durante vários anos e eu pensei: “Porque não ter um porquinho também?”. Achei que seria uma experiência muito engraçada, até porque eles agem como um cão — com a vantagem de não fazerem tanto barulho.

Como e quando é que o Bacon entrou na sua vida?
Foi na sexta-feira santa, em 2017. Decidi que queria mesmo ter um porco e fui pesquisar como poderia agilizar o processo. Procurei por vários criadores em Portugal e, como tenho mota, não havia possibilidade de o transportar. Isso obrigou-me a procurar nos criadores mais próximos da minha área de residência e foi quando encontrei um no Seixal, em Setúbal. Marquei um encontro e quando lá cheguei vi que havia três filhotes disponíveis para levar.

Era para escolher um porco todo preto mas quando vi o Bacon com as patinhas todas brancas achei engraçado e fiquei com ele. Lembro-me que o criador brincou comigo e disse que aquele porquinho era um sortudo porque já não ia parar à panela. [risos]

Quando o foi buscar era muito pequeno?
Sim, era bem pequenino. Tinha apenas dois meses e pesava três quilos, se tanto.

E agora?
Agora tem um ano e meio e pesa 44 quilos [risos].

O Bacon relaciona-se bem com os outros animais?
É engraçado, sabe, porque ele é muito amigável e curioso também. Sempre que vê um cão ele gosta de ir lá cheirar mas não é muito de brincar. Ele gosta de cheirar e se o cão for tranquilo, ele fica ali por perto e até se deita para o cão cheirar livremente. Mas se o cão for muito irrequieto e pular muito, o Bacon acaba por se afastar um pouquinho porque ele não é muito de brincadeiras.

Eu já esperava que o porco despertasse a curiosidade de muitas pessoas. Só não pensei que fossem tão curiosas.”

Mas ele reage sempre super bem e os cães, por norma, também. Uns ficam mais excitados, outros não, mas geralmente é uma interação que corre sempre muito bem. Já assisti até a cães que não se dão bem com outros cães mas com o Bacon sim, é uma maravilha, talvez por não verem nele um rival.

De repente, o Bacon tornou-se numa quase celebridade do Bairro Alto. Como é que isso aconteceu?
[risos] Naturalmente, bastou ser apenas um porco. As pessoas olham para os porcos apenas como comida e prova disso é a pergunta que eu ouvia várias vezes sempre que passeava com o Bacon: “Quando ele crescer você vai comê-lo?”. Até parece que eu estou passeando com a minha bifana na rua para depois a comer. Não faz sentido nenhum, mas eu já esperava que o porco despertasse a curiosidade de muitas pessoas. Só não pensei que fossem tão curiosas. É que por vezes há tumulto aqui na porta do salão por causa do Bacon.

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Madalena Traguil

Ainda agora um grupo de pessoas parou no meio do caminho para filmar e fotografar o porco…
É, exato. É muito comum aqui na rua e é por isso que eu evito lugares com muita gente porque ele pode até entrar em stresse porque as pessoas querem tocar e brincar. Quando eu estou com o Bacon na rua procuro sempre lugares calmos, onde não tenha muita gente, ou lugares onde as outras pessoas levem os seus animais de estimação já que geralmente o seu comportamento muda nesse contexto.

O que precisa de saber quem quiser ter um porco de estimação?
É essencial gostar muito de animais. Os porcos não requerem assim tantos cuidados especiais mas há cuidados óbvios a ter, claro. Embora eles sejam omnívoros, o que significa que podem comer de tudo, eu tento ter alguma atenção à alimentação do Bacon e geralmente só lhe dou legumes crus e frutas. Evito rações por serem industrializadas, mas fica por aí.

No geral, são animais que são muito carinhosos e precisam de atenção por isso não serve de muito querer um porco se o objetivo é deixá-lo sozinho grande parte do tempo em casa. Caminho muito com o Bacon porque os porcos têm tendência para engordar. Tirando isso, é super fácil porque eles são muito limpos ao contrário do que muita gente pensa e também muito inteligentes.

Na altura eu tinha uma sócia que não gostou muito da ideia porque juntar a imagem de um porco à imagem de um salão de cabeleireiro não fazia muito sentido, mas o que é certo é que já atendemos muitos clientes que entraram precisamente porque simpatizaram com o Bacon.”

Assim que ele chegou a casa com apenas três dias de vida, aprendeu a fazer as necessidades na sua caixinha de areia. Passando dois meses já só fazia na rua.

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É preciso algum espaço também?
Sim, é recomendado. Eu vivo num apartamento que não tem muito espaço, mas como é em frente ao salão, o Bacon passa muito tempo na rua comigo.

Há algum cuidado especial que tenha que ter com o Bacon que não é necessário com outro animal doméstico?
Não, pelo contrário. Ao contrário dos cães, por exemplo, os porcos são muito mais resistentes às doenças e por isso não são necessárias tantas vacinas ou cuidados desse género. Eu levo o Bacon ao veterinário a cada seis meses para consultas de rotina para saber se está tudo bem e até hoje nunca tive problemas. O que recomendo é a esterilização dos porcos que geralmente deve ser feita muito mais cedo do que a dos cães.

Ficam agressivos?
Sim, os porcos são muito ativos sexualmente e podem até ficar ciumentos da atenção que o dono recebe. É talvez o único cuidado especial que eu recomendaria.

O Bacon foi uma maneira de criar uma imagem de marca para o seu salão?
Não foi nada pensado, até porque a minha ideia original era o Bacon ficar em casa. Só que aconteceu o meu salão ser mesmo à frente de casa e é por isso que ele está tantas vezes comigo. Mas se não morasse assim tão perto, provavelmente passaria o tempo todo em casa. Depois acabou virando show, claro.

Na altura eu tinha uma sócia que não gostou muito da ideia porque juntar a imagem de um porco à imagem de um salão de cabeleireiro não fazia muito sentido, mas o que é certo é que já atendemos muitos clientes que entraram precisamente porque simpatizaram com o Bacon. Mas nenhuma das ideias esteve alguma vez relacionada.

Qual é o facto mais interessante e curioso sobre um porco?
Só posso falar pelo que tenho vivido com o Bacon. Ele é muito afetivo e medroso. Aliás, sempre que ouve algum barulho em casa ou na escada ele esconde-se. O que as pessoas provavelmente não sabem é que os porcos são muito inteligentes e até eu fiquei surpreendido. O Bacon, por exemplo, com apenas três meses já fazia truques que os cães só aprendem muitos meses depois.

Que truques?
Enquanto eu caminho ele sabe passar por entre as pernas sem causar estorvo, responde a comandos básicos como virar para a esquerda ou para a direita. Confesso que eu tinha muita vontade de lhe ensinar mais coisas mas conforme o tempo foi passando só ensinei o básico. Mas percebi que com um bocadinho de dedicação o Bacon teria sido capaz de aprender muitas mais coisas.

Noto de vez em quando que algumas passam pelo Bacon e fazem uma cara de nojo porque acham que eles são muito sujos, mas isso é a ignorância a falar mais alto.”

Ele é capaz de ir abrir a gaveta onde a comida está escondida no salão, por exemplo. E só faz isso quando percebe que eu não estou atento.

Qual é a esperança média de vida de um porco?
Normalmente entre 15 a 18 anos.

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Já teve problemas com os vizinhos?
Não, precisamente porque ele não faz barulho nenhum. De vez em quando eu levo-o a passear e quando terminamos a nossa caminhada, pode acontecer ele querer passear mais e eu querer ir para casa. Nessa altura ele chora muito e faz um pouquinho de barulho. Mas em casa é muito silencioso, mesmo.

E já foi alvo de preconceito por ter um porco?
Nunca senti qualquer tipo de preconceito mas já ouvi muito daquilo que eu chamo de “piada sem graça”. E quando a piada é muito direta, eu devolvo porque as pessoas têm de aprender a respeitar as escolhas dos outros. Noto de vez em quando que algumas passam pelo Bacon e fazem uma cara de nojo porque acham que eles são muito sujos, mas isso é a ignorância a falar mais alto. O porco é um animal muito asseado e sujo é o lugar onde o ser humano o confina.

Como faz quando vai de férias ou viaja de avião?
É curioso porque este ano é a primeira vez que eu vou de férias para longe desde que tenho o Bacon. Vou para Itália e vai ser também a primeira vez que ele vai ficar num hotel para animais. Antes ficava em casa de amigos porque eu tinha férias muito curtas, mas desta vez quis experimentar um novo método para ver como corre. Como é um hotel para vários animais, desde pássaros a répteis, nunca colocaram entraves à estadia do Bacon.

Então criei uma página de Instagram para o Bacon e a minha ideia é apostar nessa rede social e fazer vídeos curtos com alguma informação que eu ache importante. A ideia é ser o mais informativo possível para responder a todo o tipo de dúvidas.”

Quando faço viagens de carro ele não se importa de ir e não é um animal irrequieto. Só tive um pequeno problema antes quando viajei para o Algarve e queria visitar um parque aquático. Como ele não podia ficar sozinho no hotel, contactei um hotel para cães e quando falei que tinha um porquinho eles não aceitaram o Bacon porque pensavam que se tratava de um porco enorme de 200 quilos.

E procurou relacionar-se com pessoas que tivessem porcos de estimação?
Assim de ir buscar o Bacon, entrei imediatamente num grupo de Facebook porque achava que ali ia ter muita informação. Acabou por ter mais fotografias do que informação interessante. Tudo o que eu aprendi foi com vídeos americanos e espanhóis.

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Madalena Traguil

Por sentir falta de uma boa fonte de informação portuguesa, criei um canal para dar dicas de como cuidar de um porco de estimação. Só que até hoje está meio parado.

Por falta de vontade ou falta de recursos?
O canal existe, coloquei lá alguns vídeos do Bacon brincando mas entretanto parei. Achava muito interessante a ideia de partilhar informação pertinente com outras pessoas que pudessem, como eu, querer um porco de estimação. A parte mais chata para mim era mesmo a edição, que é também o mais importante.

Onde pode ver o Bacon?

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O Bacon está sempre à porta do salão Ilusion Beauty Club.

Morada: Rua Luz Soriano 29, Lisboa

Telefone: 21 604 2164

Horário: 10h-20h, fecha aos domingos.

Captar imagem é fácil mas editar é muito difícil e foi isso que me bloqueou e até hoje o canal só tem três vídeos. Então criei uma página de Instagram para o Bacon e a minha ideia é apostar nessa rede social e fazer vídeos curtos com alguma informação que eu ache importante. A ideia é ser o mais informativo possível para responder a todo o tipo de dúvidas.

Há uma legislação para porcos em Portugal?
Até hoje não. Nas viagens de avião, por exemplo, não são considerados animais domésticas e não têm uma documentação como os cães e os gatos. Eles viajam com uma guia de alimentação e são vistos meramente como alimento e isso pode ser perigoso em alguns países porque pode chegar lá e o porco ser investigado. Dos vários veterinários com quem já falei, todos eles me disseram para evitar fazer viagens com o Bacon por isso mesmo. E até mesmo para evitar situações de stresse em que há o risco de morte por paragem cardíaca.

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Descobri também que há uma falha na lei portuguesa que diz que só os cães estão proibidos de ir à praia. Por isso não há problema nenhum se levar o Bacon.

Alguma vez foi incomodado por estar na praia com ele?
Não, porque eu procuro praias que não sejam muito movimentadas para evitar o assédio. Procuro sempre a tranquilidades para mim e para ele, mas sei através de pessoas ligadas à polícia que se eu quisesse ir a uma praia mais movimentada com o Bacon, não há nada na lei que me impeça de o fazer.

Ando à procura de uma casa nova com quintal, porque a minha ideia é ter mais animais. A ideia é ter um cão e até já me ofereceram uma mini cabra mas eu já sei que isso é impossível porque as cabras comem tudo, desde o sofá ao comando da televisão.”

Mas eu evito, sabe, até para proteger as pessoas. É que o Bacon é muito curioso e facilmente pode ir ter com alguém à procura de comida [risos].

Qual é a comida favorita do Bacon?
Ele adora frutas, talvez por causa do açúcar. O que mais adora comer é melancia e maçã, e isso vê-se pela euforia com que ele come.

E o brinquedo?
Eu comprei alguns mas ele é que cria o seu brinquedo. Há alturas em que ele brinca com um tapete, ou com uma bolinha de meias que eu faço. Mas depende dos dias, sabe? Adora brincar com garrafas de água, por exemplo, muito devido ao barulho que elas fazem quando ele fica mordendo.

Mas tem sido uma descoberta e todos os dias vou descobrindo coisas novas sobre ele.

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Qual é o facto mais irritante sobre o Bacon?
A gula, sem dúvida. É muito chato porque quando eu quero caminhar com ele, ele não descansa enquanto não comer tudo o que encontrar pelo caminho. Há alturas em que para caminhar 100 metros demora até duas horas, principalmente se a rua tiver ervas. Para fazer caminhadas eu tenho que estudar bem o percurso já a pensar em todos os desvios que tenho de fazer para que não demore tanto tempo, principalmente aqui no Bairro Alto onde há restos de comida e frutas no chão.

Os porcos vivem para comer e não têm um limite. Se puderem, passam o dia inteiro a comer e só param até explodir.

A personalidade do Bacon é mais próxima da de um cato ou da de um gato?
É uma mistura dos dois. Ele tem um lado independente e não tão festivo, como os gatos, mas também tem um lado muito afetivo e carinhoso que é típico dos cães.

Quer ter mais animais?
Sim, muito. Ando à procura de uma casa nova com quintal, porque a minha ideia é ter mais animais. A ideia é ter um cão e até já me ofereceram uma mini cabra mas eu já sei que isso é impossível porque as cabras comem tudo, desde o sofá ao comando da televisão. A ideia é primeiro arranjar uma casa e depois adaptar as minhas expetativas à realidade e ver que animais consigo ter.

Mas para já só um cão, mesmo.