Como é que uma ex-gorda se sente ao ver a polémica série da Netflix

"Insatiable" está a ser arrasada pela crítica e até houve uma petição para cancelar a série. Pergunta: está tudo louco?

Dizem que a série está cheia de comentários gordofóbicos e que promove hábitos de vida pouco saudáveis. Será?

Estava no terceiro episódio de “Insatiable” quando decidi ir ver o que é que andava a chocar as pessoas para odiarem tanto a nova série da Netflix. Confesso que estava perdida. Tinha conseguido manter-me mais ou menos afastada da polémica até à sua estreia: sabia que tinha havido uma petição para cancelar a série, que as críticas eram péssimas e que a maioria das pessoas a descrevia como ofensiva, cruel, um autêntico lixo.

E era só isto. Não sabia que falas é que estavam a indignar as pessoas, que tipo de comentários ofensivos eram feitos, o que é que o enredo tinha assim de tão polémico. Esperava ter todas as minhas respostas por esta altura do campeonato mas, a 11 minutos e dez segundos de terminar o terceiro episódio, sentia-me verdadeiramente confusa. Afinal porque é que estava toda a gente tão chateada?

Decidi começar por um artigo publicado pela MAGG, que reunia os momentos mais ofensivos da série. O texto foi escrito por Fábio Martins, que viu a série e fez um apanhado das situações mais polémicas. “Ter excesso de peso é igualado a estar doente ou fora de controlo”, lê-se no primeiro ponto. Esperem lá, eu já vi isto. Isto é ofensivo? As pessoas sentem-se realmente ofendidas porque Bob (Dallas Roberts), que está a treinar Patty (Debby Ryan) para um concurso de beleza, diz que ela sofria de um transtorno emocional?

Lembro-me de ter dez anos e perguntar à minha mãe se era normal a barriga ser maior do que as mamas.”

“A atriz principal usou fatos especiais para parecer mais gorda”. Estão a brincar, certo? “Há também comentários gordofóbicos na série” — a mãe de Patty diz a seguinte frase: “Ela partiu-lhe o nariz porque ele lhe tentou tirar o chocolate da mão. Ela leva muito a sério tudo o que envolva comida”.

Lutei contra a obesidade mórbida durante 19 anos. Tenho neste momento 29 anos, o que significa que passei mais tempo na minha vida obesa do que magra. Lembro-me de ter vergonha da minha imagem e do meu corpo muito antes de saber ler ou escrever. Também muito antes de entender conceitos como obesidade e nutrição, já sentia os olhares de repúdio e registava comentários como “não me parece que precises de mais doces”.

Tinha uns oito ou nove anos quando me recordo de olhar para a balança e ver os ponteiros nos 70 quilos. Não fazia a menor ideia de quanto é que pesavam as outras meninas, mas sabia pelo olhar dos meus pais que aquilo não era bom. Lembro-me de ter dez anos e perguntar à minha mãe se era normal a barriga ser maior do que as mamas. Já sabia a resposta, mas queria acreditar que talvez pudesse não ser assim tão diferente das outras pessoas.

Esta partilha extrema de informação tem um propósito: eu sei o que é ser a Patty Gorda. Melhor do que muitas pessoas que assinaram a petição que reuniu mais de 200 mil assinaturas, ou que incendeiam o Rotten Tomatoes com comentários negativos. É uma questão que me toca profundamente, que me acompanhará para o resto da minha vida e que será sempre um ponto sensível. Se me senti ofendida ao ver “Insatiable”? Tenham paciência.

1. É uma série de humor negro

Começo por aqui porque penso que seja um pequeno pormenor que possivelmente passou despercebido a muito boa gente. Como série de humor negro que é, diria que é perfeitamente normal ter piadas que deixam as pessoas desconfortáveis. Eu pessoalmente adoro humor negro, mas, saliento, esta está longe de ser uma série que leva isto ao extremo. Diria que há o nível humor negro soft e o nível humor negro Rui Sinel de Cordes. “Insatiable” fica-se pelo soft.

Estamos a tornar-nos numa sociedade de sensiveizinhos. Tudo nos choca, tudo nos deixa irritados, tudo nos revolta. Ó, introduziram no guião uma falsa acusação de assédio sexual — isso não se faz! Há piadas recorrentes sobre pedofilia — depois de ser acusado injustamente, Bob está sempre a meter-se acidentalmente em situações constrangedoras. Um horror! “Ouvi falar de mulheres com relacionamentos saudáveis com os seus corpos… cabras”, pensa Patty em determinado momento. Maldita sejas, Netflix. Como é que te atreves a dizer aquilo que todas as mulheres que não têm um metabolismo incrível já pensaram?

É apenas humor. É só isso, são apenas piadas. Ninguém está a dizer que a pedofilia é boa ou que ter uma relação complicada com a nossa imagem é fixe. Bem pelo contrário: humor negro é isso mesmo, é ser provocatório, pegar em temas sensíveis da sociedade, ou verdadeiros tabus, e brincar. E ao brincar, não estamos a tirar a seriedade do tema. Estamos só a brincar.

Vejamos as coisas deste modo: possivelmente uma das piadas mais banais dos filmes e séries é quando alguém tropeça e cai. Nós rimo-nos, certo? Mas e se começarmos a ponderar na dor que aquela pessoa sentiu quando caiu? Se analisarmos que aquela queda pode ter uma consequência muito séria? Imagine-se que aquela queda resulta num grave traumatismo craniano e aquela pessoa nunca mais volta a ser a mesma. Ainda se estão a rir? A sério que ainda são fãs de “Mr. Bean“?

Claro que são. Porque uma queda numa série é apenas isso, uma piada. Assim como uma piada sobre um homem que é acusado de se envolver com uma adolescente é apenas uma piada. Digo e repito: estamos a tornar-nos cada vez mais sensíveis. E se continuarmos assim, não tarda nada não há comédias nem humor, negro ou branco, porque toda a gente fica ofendida. Já agora, a expressão humor negro não é um pouco racista? Vá, estou só a brincar.

2. A série é ofensiva para os gordos

É uma das maiores críticas feitas à série. Dizem que promove a ideia de que só as mulheres que vestem o S conseguem ir a festas, ser populares ou ter um namorado — as outras ficam em casa a ver filmes de Drew Barrymore. Não sei muito bem de onde é que tiraram esta ideia. Pelo contrário, aquilo que eu vejo é uma rapariga que luta para se encontrar agora que já não tem excesso de peso. Que se debate com a questão de já não saber quem é (algo com que eu me identifiquei imenso) e sentir que a Patty Gorda ainda vive dentro de si.

Mas voltemos à questão de ser preciso ser-se magra para se ser feliz. É preciso ser-se magra para se ser feliz? Claro que não. É mais fácil namorar, ser-se popular e ir a festas quando se é obeso? Da minha experiência, não. A sociedade olha para os gordos de forma diferente. Somos imediatamente catalogados como pessoas inferiores e descontroladas. É errado, horrível e deixa mazelas para a vida, mas mais errado ainda é fingir que isto não acontece.

Não vale a pena fazer uma série com uma protagonista gorda que é extremamente feliz. Que é aceite por todos à sua volta, que está imune a críticas (o tema do seu peso nem sequer é abordado, não há necessidade), que tem uma vida absolutamente incrível. Isso não é real. Ninguém com excesso de peso se reveria nessa imagem.

São pessoas normais? Claro que são. São pessoas como todas as outras? Sem dúvida. A sociedade vê-as dessa forma? Nem por isso. Todas as pessoas magras são felizes e sem problemas? Era bom, mas também não. No entanto, mais uma vez, também ninguém disse isso.

Li várias críticas também a propósito do momento em que Bob, referindo-se à altura em que Patty era gorda, diz: “Estavas doente, completamente fora de controlo”. Voltemos à questão de sermos uns sensiveizinhos. Desde quando é que isto é ofensivo? Desde quando é que isto é dizer que todos os gordos são doentes e descontrolados? Eu não interpreto isso desta forma. É uma piada, um mero comentário humorístico — sobretudo se atendermos ao tom de voz. É só isso.

Mas sabem que mais? Há pessoas que se descontrolam emocionalmente a comer. Há pessoas que têm uma doença e que não se sabem relacionar com a comida de forma saudável. Vamos continuar a fingir que isto não acontece para ficarmos todos mais confortáveis com o mundo dos póneis e arco-íris que queremos criar?

Mais tarde, Bob diz-lhe ainda: “Sabemos perfeitamente onde é que isto vai acabar. Primeiro começas com uma lagosta, depois sentes-te culpada e devoras uma caixa inteira de doughnuts. Comer quando estás em baixo mete-nos aos dois em risco”. E vieram as vozes da crítica: ele não quer saber dela! Só quer que ela continue magra e bonita para ganhar concursos de beleza! Eh… sim. É uma comédia. Vocês sabem que estão a ver uma comédia, certo?

“Eu ainda quero comer a toda a hora, mas não faço isso porque tenho medo de engordar e que tu não gostes de mim”. “Tu podes mostrar a outras raparigas gordas o que é possível”. “Eu sabia que ser magra era mágico… a nova Patty era mais poderosa, mas com mamas mais pequenas”. “As raparigas bonitas não precisam de se contentar com qualquer um”. A lista de frases aparentemente polémicas é extensa. São os chamados comentários gordofóbicos — um termo que, já agora, eu nunca tinha ouvido até esta série chegar e a internet ser inundada com críticas. Volto ao exemplo da queda. Não acham que estamos a levar a vida, o mundo e em particular uma série, demasiado a sério?

3. O fatsuit da polémica

Este ponto acho particularmente engraçado. Dizem então os críticos que a atriz Debby Ryans usou um fatsuit, daqueles que fazem uma pessoa magra parecer gorda, e que isso é extremamente ofensivo porque isso é colocar na obesidade um tom humorístico. Ora bem, em primeiro lugar estão a ver uma série de humor. Em segundo lugar, como é que era suposto a atriz parecer ter excesso de peso?

Em terceiro lugar, estamos todos loucos? Nos anos 90 e inícios de 2000 tivemos Monica dos “Friends” a usar um fatsuit em vários episódios, sempre com piadas associadas ao seu peso. Era dos momentos mais hilariantes da série e não me lembro de haver petições a acusar Courteney Cox de ridicularizar os gordos. É só uma piada. É só um fato. É só uma forma de mostrar a atriz Debby Ryans com excesso de peso.

4. O momento em que a série compara um transgénero a uma pessoa obesa

Ser-se gordo ou transgénero não é a mesma coisa. Não, não é. São lutas muito diferentes, com desafios muito distintos. A única particularidade que eles podem partilhar, e é sobre isso que fala a série, é o facto de ambos sentirem que estão no corpo errado. Mais nada. Ora, ficou toda a gente muito ofendida com isto porque, dizem, é surreal tentar comparar duas realidades tão distintas. Volto a dizer: não, não é a mesma coisa. Mas volto a repetir também: lembram-se de que estão a ver uma comédia, certo?

Pelo amor da santa. Como devem imaginar, nem toda a gente que perde peso decide entrar num concurso de beleza porque está apaixonada por um homem casado, pondera incendiar um sem-abrigo porque este lhe chamou gorda ou quer vingar-se de todas as pessoas que um dia a trataram mal. É uma sátira, é uma brincadeira. É apenas uma série de humor. Não há nada de real nesta mensagem. Além disso, isso nem sequer é ofensivo. Eu também me senti muitas vezes como uma pessoa que estava no corpo errado. Eu não me identificava com ele, não era assim que eu queria ser — por razões estéticas, de saúde, de tudo e mais alguma coisa. Decidi não me conformar e mudei. Isso também é ofensivo?

5. Os métodos extremos para perder peso

Há um momento em que Patty é encorajada a recorrer a medidas drásticas para ficar saudável e perder gordura. “Os wrestlers por vezes são obrigados a perder cerca de dez quilos em apenas dois dias. Por isso, durante esta semana só vais suar e passar fome”, diz um dos treinadores responsáveis por guiar Patty durante todo o processo.

O resultado é uma rapariga que se sente mais forte, mas também desequilibrada e nauseada por passar fome durante dias. De acordo com os críticos, isto promove a ideia de que recorrer a métodos extremos para perder peso é uma boa ideia.

A sério? E “American Pie: A Primeira Vez é Inesquecível“, também promove a ideia de que é boa ideia os adolescentes masturbarem-se com flautas e tartes de maçã? Se calhar “Regresso ao Futuro” também devia ser censurado, não nos vamos esquecer que uma mãe apaixonar-se pelo filho não é propriamente politicamente correto. E o filme “De Repente, já nos 30!“, onde Jenna, com mentalidade de 13 mas um corpo de 30, tenta seduzir um pré-adolescente?

Estamos a tornar-nos tão picuinhas e preocupados que de repente ficamos chocados com tudo. “Insatiable” é um excelente exemplo disso mesmo. De repente, uma série de humor negro reuniu uma onda de ódio inexplicável, tudo por causa de meia dúzia de piadas que não têm nada de especial, e supostas “mensagens” que passa aos jovens. Podemos todos respirar por um momento? Acho que estamos a precisar.

6. “Insatiable” é uma série incrível?

Não é. Não é uma série digna de um prémio, não tem prestações extraordinárias, um enredo incrível (a determinada altura até começa a ficar demasiado estranho). É apenas uma daquelas séries light que dá vontade de ver quando chegamos a casa e queremos descansar um pouco a cabeça — como já fizemos antes com “The Good Place” ou “Santa Clarita Diet“. Tem piada, rimo-nos um pouco e seguimos em frente. Mas não, não há razão para tanto alarido.

Comecei este texto a escrever que a questão da obesidade é um tema particularmente sensível para mim. E dei inclusivamente alguns exemplos de como sofri com isso — e nem entrei na parte do bullying. Como é que uma ex-gorda se sente ao ver a série polémica da Netflix? Perfeitamente bem. No entanto, fico extremamente mais preocupada com o estado a que chegámos. Por favor, deixem o humor em paz. Ao final do dia, é só uma piada. E nem sequer é de mau gosto.

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