Há quem não imagine a vida sem um gato e há quem não queira mesmo viver com um. Marta Miranda pertence ao primeiro grupo. Dulce Neto ao segundo. No Dia Mundial do Gato as duas jornalistas explicam porquê.

Porque é que eu adoro gatos

Olhem para estes olhinhos azuis. Para a tonalidade deste pelo, focinho charmoso, bigodes compridos, orelhas espetadas. Apresento-vos o Brahma, o gato mais bonito do mundo. Está comigo há 15 anos e veio provar que não há mesmo melhor animal do que este. Ele mete qualquer cão, pássaro, tartaruga, hamster ou peixinho a um canto. Porquê? Passo desde já a explicar-vos.

Comecei pelo lado estético do meu Brahma, mas essa está longe de ser a razão para o meu fascínio por gatos. Qualquer animal é bonito quando é pequeno. Há qualquer coisa nas pequenas dimensões dos animais que nos derretem por dentro, e tanto podemos estar a falar de um Labrador como de um pombo que a reação é a mesma — ó, que coisa mais linda.

Não, não é uma questão de beleza. O que distingue o Brahma — e os gatos em geral — de todos os outros animais é a sua personalidade. Pois é, eles têm má fama. Há quem diga que são antipáticos, pouco sociáveis, casmurros e frios. Eu digo-vos que têm tanta razão como não poderiam estar mais longe da realidade. Eles sabem ser isto tudo, sim, mas apenas e só porque têm uma personalidade forte. Eles chateiam-se, amuam e discutem, têm atos de rebeldia, e ainda bem. É isso que lhes dá piada.

Adoro todos os animais no geral. Não pensem que lá por ser uma cat lady não me derreto com um cão na rua ou falo com uma voz parva para uma tartaruga. Eles são todos incríveis e espetaculares. Mas os gatos são especiais. E são especiais porque têm uma personalidade tão forte que têm de ser conquistados com muito mais do que biscoitos. É preciso estabelecer com eles uma verdadeira ligação de amizade, respeito e empatia. É fácil ter um gato? Nem por isso. Mas é muito mais divertido.

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O Brahma tem uns olhos azuis muito bonitos, mas uma personalidade do diabo. Deixem-me que vos diga que não há gato mais casmurro e teimoso do que este. Se ele estiver concentrado em qualquer coisa, ou simplesmente a dormir, não vale a pena pedir a sua atenção. Até posso conseguir dar-lhe uma ou outra festinha, mas não vai durar muito tempo. Quando ele ficar farto, vai-se embora sem olhar para trás. “Agora não estou com paciência para ti”, dir-me-á com um quase revirar de olhos. “Quando me apetecer venho cá.”

O choque. O horror. A blasfémia. Como é que eu posso elogiar esta atitude? Tudo o que nós queremos nos animais é que eles nos adorem incondicionalmente e que estejam sempre disponíveis para nós. Honk! Resposta errada. Tudo o que eu quero é que ele goste de mim pelo que eu sou e pelo laço de confiança que temos.

Não é difícil deixar o Brahma chateado, mas regra geral passa rápido. Só que há coisas que o tiram verdadeiramente do sério. Ser agarrado ao colo é uma delas, ser repreendido é outra. Se levar uma palmada temos amuo para umas boas horas. Se desaparecesse podia contar com uma semana a ser ignorada. Acontecia quando eu era adolescente — tenho este gato desde os meus 14 anos — e, no verão, ia passar duas semanas com o meu pai. O simples ato de me ver a fazer as malas deixava-o desorientado. Até sair porta fora, podia contar com um afastamento gradual e olhares recriminatórios. Quando voltava, não havia cá festas e “ai que saudades tuas”. Desprezo total. “Abandonaste-me, não foi? Não há problema, também não gosto de ti.”

Repito: personalidade. Claro que tudo passava, claro que mais tarde ou mais cedo ele voltava para os meus braços a ronronar. Mas tinha de ser reconquistado novamente, e é isso que torna os gatos tão encantadores. Ninguém gosta de passividade. Nem sequer nos animais.

Acho que conseguimos estabelecer um bom equilíbrio ao longo dos anos. Encontrei um tom de voz que, regra geral, o deixava em sentinela. Digo regra geral porque gatos são gatos, estão num constante jogo de força com os tutores. Eles vão sempre querer mandar na casa porque faz parte da natureza deles. É preciso mostrar-lhes que não, que quem manda somos nós. Mas voltando ao tom de voz, quando o Brahma saiu da fase da adolescência em que só fazia disparates e estava sempre a ignorar-me, encontrámos um bom equilíbrio com um tom de voz suficiente para reprimir maus comportamentos sem partir para a palmada.

Hoje o Brahma está velho. Passa a maior parte do tempo a dormir, já se chateia com poucas coisas e levanta poucos problemas. Também se tornou muito mais carinhoso. Mas ainda há dias em que se arma em esperto e quer mostrar que quem manda ali é ele. Na semana passada, utilizei o meu tom de voz grave para que ele parasse de arranhar a cadeira. Ele continuou, e eu levantei-me chateada — quando a voz não resulta, isto costuma resolver o assunto. Ele parou de arranhar mas, ainda com as unhas enfiadas na cadeira, ficou a olhar para mim. “You talkin’ to me? You talkin’ to me?”, parecia perguntar-me.

Não há nada disto com um cão que, aconteça o que acontecer, estará sempre pronto para festas. Os pássaros, tartarugas e peixinhos não processam sequer o ato das festinhas. Os hamsters, bem, não sei exatamente como é que funcionam. Fui mordida por um quando era miúda que, a seguir, comeu os filhos. Não tenho boas memórias.

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Um gato será sempre diferente. Mas será sempre uma relação para a vida. Se os conseguirem conquistar, algo que conseguem fazer facilmente se respeitarem o espaço deles, perceberem que são animais e não objetos e não partirem para o ataque por tudo e por nada, eles vão ser os vossos mais fiéis amigos. Acreditem. Nunca houve momento em que eu chorasse e o Brahma não viesse ter comigo. Nunca houve momento em que eu estivesse doente e ele não se aninhasse ao pé de mim até eu ficar bem. Nunca houve momento em que ele não me mostrasse que me adorava. Mesmo que as demonstrações de carinho surgissem às três da manhã.

Ao longo da sua já grande e preenchida vida, o Brahma foi tendo vários problemas de saúde. Felizmente todos se resolveram, mas lembro-me de uma grave crise de sarna que ele teve quando vivíamos no campo. Desapareceu durante dias e, naquele momento, eu tinha a certeza de que ele tinha morrido. Até que de repente apareceu. Recusou-se a aproximar-se, manteve-se ao longe a fitar-me. Estava magro, com um ar doente, o pelo cheio de falhas.

Sempre que eu me tentava aproximar, ele fugia. Se estivesse alguém ao meu lado então, nem valia a pena. Mandei toda a gente embora e fiquei só eu e ele, no cimo do telhado da casa. Fiz tudo e mais alguma coisa para o apanhar. Nada. Desesperada, comecei a chorar. De repente, ele começou a caminhar na minha direção e deixou-me pegá-lo ao colo — sim, o mesmo gato que odeia colo. Fomos a correr para o veterinário e, passado umas semanas, ele ficou curado.

A isto chama-se amor. Confiança. Afeto. Respeito. Muitos animais são capazes de ter estes mesmos sentimentos, com um gato isto é algo que se adquire com o tempo. E eu acho isso maravilhoso. Eles só precisam de ser conquistados. Quando forem, serão certamente vossos amigos para a vida.

Porque é que eu odeio gatos

Talvez a culpa seja de Goethe. Ou, melhor, da Madame Min. Ou apenas do meu pai.

Não gosto de gatos. Consigo apreciar-lhes a elegância, até algum glamour, consigo reconhecer-lhes a inteligência, até alguma “personalidade”, consigo fotografá-los e até concordar com o “fofinhos” que filhas e sobrinhas e até irmãos (esses traidores) lhes dirigem, e ponto final. O meu gatómetro tem um limite muito curto. O da apreciação estética à distância. Como belos animais que são, gosto que existam no mundo. Só não os quero no meu mundo. Mesmo que isso me faça sentir uma alien.

Porquê? Talvez por o meu cérebro não ser catlover. É mais doglover, apesar de não ter nenhum cão (mas essa é outra história). A ciência (que não deve ter nada mais importante para investigar do que descobrir porque é que há pessoas que gostam de cães e outras de gatos) tem uma explicação para isso, diz que há um perfil psicológico para cada tipo de gosto. Mas, estudos à parte, eu sei bem porque é que não partilho dessa adoração que contagiou a minha família (até os meus irmãos que nunca gostaram de gatos nos últimos anos se deixaram enganar por eles), os meus amigos e o meu feed de Instagram.

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1. Fazem-me pensar em demónios. Sempre que, de madrugada, cruzo aquela a que chamo a “rua dos gatos” para chegar a casa, confronto-me com a minha irracionalidade. Parados, em cima das ruínas históricas a olhar para mim, pontos brilhantes na escuridão, observam-me fixamente. Ou melhor, assustadoramente, mesmo que sejam bebés. Acordam-me o medo. Meio inconscientemente, surgem-me todas as ligações satânicas dos gatos. Bem sei que é um mito, talvez nascido na Idade Média quando culpavam os gatos por espalharem a peste (sim, porque no antigo Egito eram mais semi-deuses, como são agora para alguns que pululam nas redes sociais), mas tenho dificuldade em dissociar o bicho de coisas sinistras e misteriosas.

Nem precisa de ser negro (há sempre um na comunidade que vive perto de minha casa). Lembro-me do gato da Madame Min, a bruxa de cabelo roxo Disney, que se chamava Mefistófeles, e que na adolescência descobri ser o aliado de Lúcifer no “Fausto” de Goethe. (Aliás, porque é que vários escritores — de Doris Lessing a José Eduardo Agualusa — insistem em dar este nome aos gatos dos seus livros?). E daí despontam todas as imagens relacionadas com o maligno. Rebuscado? Quem disse que o meu cérebro era simples?

2. Não me inspiram confiança. Talvez porque o meu pai, que me encheu a infância de bichos — cães, pássaros (tantos que até transformou uma garagem numa gaiola gigante com árvores dentro), peixes, um bambi, ou melhor, veado bebé (cresci em Angola), três perdizes, periquitos —, sempre disse que os gatos eram falsos. Nunca me mentiram, nem traíram (também não lhes dei hipótese nenhuma), por isso não sei fundamentar tal afirmação. Mas sei que solidários é que eles não são.

Só pensam neles próprios. Não se deixam ensinar. Muito menos treinar (sorte a deles, nunca foram parar a um circo). Claro que os fãs de gatos veem aqui autonomia e personalidade forte. Eu vejo egoísmo e indiferença. Por alguma razão são os cães que são considerados o melhor amigo do homem. Já alguém ouviu falar de um gato herói? De gatos que salvaram alguém? Que foram fiéis a alguém como o desta história real? Por alguma razão Lassie é uma cadela e não um gato. E por alguma razão são os cães que guiam os cegos ou ajudam a polícia.

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3. Comportam-se como ditadores. Só fazem mesmo o que querem. Impõem a sua forma de estar e vontade a quem os rodeia.Têm quatro característias que me irritam e metem nojo. E não jogam bem com a ideia de que em minha casa mando (julgo) eu.

– Largam pelo, são dengosos, melosos, roçam-se em nós quando lhes apetece, e rasgam cortinas e sofás e tudo o mais que lhes aprouver e as unhas permitirem.

– Andam por todo o lado. Bem sei que toda a gente diz que os gatos são do mais asseado que há (a sério, um bicho que nunca toma banho, que só se lava com a língua, é limpinho?) mas permitirem-lhes que andem literalmente por todo o lado, é normal? Eles tão depressa estão no quintal como se passeiam imponentes por cima da mesa, saltam do lavatório da casa de banho para a almofada da cama.

– Não há ouvidos que os suportem quando estão com cio.

– Cheiram mal.

Cel-Lisboa/ Unsplash

4. São assassinos. As cenas de “Tom e o Jerry” podem ser hilariantes. Aí, tudo bem, os gatos até podem prestar um bom serviço à comunidade livrando-nos dos ratos, esses seres repugnantes que causam doenças (na verdade, os gatos ignoram algumas das espécies mais populosas e perigosas de ratos devido ao tamanho deles). Mas e os passarinhos? E os peixinhos? A sério que querem ter dentro de casa um bicho que come peixinhos e passarinhos? Espreitem estes dados do Smithsonian Conservation Biology Institute, nos Estados Unidos. Os gatos mataram mais de 4 mil milhões de pássaros por ano. Ou estes da British Mammal Society em que os gatos deram cabo de 250 milhões de criaturas quase dizimando uma população de piscos-de-peito-ruivo.

5. Finalmente, porque é que os gatos, que pouco ou nada contribuem para o bem estar comunitário, são associados a homens ou mulheres bonitas e os cães, que têm um papel reconhecido na comunidade, são associados a pessoas de má reputação? Ser chamado de “gato” ou “gata”, é muito diferente de ser chamado de “cão” ou “cadela”…

Dito tudo isto, devo confessar que há um gato de que sou fã. Não, não é o Garfield. É mesmo o Gato das Botas do Shrek. Mas aí a culpa é da voz do Antonio Banderas.