A história de amor e traições que levou a que as sitcoms passassem a ter risos falsos

Antes do risos falsos veio a história de amor de Lucille Ball e Desi Arnaz, os protagonistas da sitcom norte-americana "I Love Lucy".

"I Love Lucy" estreou em 1951 e rapidamente se tornou num sucesso depois da estreia

Getty

Pode ser estranho ver “Os Malucos do Riso”, “Friends” e “Seinfeld” juntos na mesma frase, mas há uma explicação muito simples. É que além de serem séries de humor, têm a particularidade de utilizar de gargalhadas falsas durante os episódios. Os risos gravados estão cada vez menos na moda, são alvo de chacota na internet (muitas pessoas perguntam-se quantos protagonistas daquelas gargalhadas ainda estarão vivos) mas basta recuar uns anos para perceber que foram um sucesso durante décadas.

Mas como é que isto surgiu? Quando se fala em risos ou gargalhadas em séries de televisão, o primeiro homem de que tem de se falar é Charley Douglass. Foi ele o engenheiro de som que, durante a década de 50, criou a “laff box”, um engenho com várias teclas que reproduzia faixas de áudio com risos de homens, mulheres ou miúdos.

Mas as funcionalidades não se ficavam por aqui. Dava para escolher o tipo de gargalhada, da mais estridente à mais discreta, e havia ainda a possibilidade de o aparelho ser atualizado consoante a necessidade — nem sempre a plateia se comportava como era suposto, rindo-se muito, pouco, demasiado alto, demasiado baixo, ou simplesmente nos momentos errados. Estava aqui a solução. O engenho foi um sucesso e ainda hoje é utilizado em algumas séries de televisão — como é o caso de “A Teoria do Big Bang“.

Um amor improvável desde o início

Esta história começou em 1951, antes da invenção de Charley Douglass, com uma história de amor entre Lucille Ball (“Os Teus, Os Meus e Os Nossos”) e Desi Arnaz (“Lua-de-Mel Agitada”) que, juntos, deram vida a Lucy e Ricky Ricardo na sitcom “I Love Lucy”. Mas é preciso recuar 11 anos antes da série para entender a relação entre os dois. Foi aqui que tudo começou.

Os atores conheceram-se em 1940 nas gravações do filme “Mulheres a Mais”, numa altura em que Lucille tinha 28 anos e Desi apenas 23. Foi paixão à primeira vista, mas era um amor que se mostrava improvável desde o início: ela só namorava com homens altos e mais velhos, e ele já estava noivo.

Ainda assim, avançaram e contam vários amigos do casal que Lucille fazia de tudo para ver o namorado feliz, como ir buscar o que ele precisasse ou dar-lhe o seu lugar para o namorado se sentar. “Foi uma surpresa completa porque ela era uma mulher forte e independente mas quando o assunto era sobre Desi, rapidamente se tornava muito conservadora”, disse Ruta Lee (“Testemunha de Acusação”), atriz e amiga de longa data de Lucille, à revista “Closer Weekly”, em dezembro do ano passado.

O problema é que a devoção e o amor da atriz nem sempre eram correspondidos. Assim que a rodagem do filme terminou, Desi e Lucille estiveram durante vários meses desencontrados, com cada vez menos tempo para estarem juntos. Ela tinha vários projetos na rádio, no cinema e na moda, enquanto ele tinha uma banda com quem tocava todas as noites em vários clubes espalhados pela cidade de Nova Iorque.

Foi durante esse período conturbado que Lucille descobriu que Desi a tinha traído com uma namorada antiga. Devastada, e com medo de perder o homem que amava, propôs casarem-se. Ele aceitou e, em novembro de 1940, exatamente seis meses depois de se terem conhecido, Lucille e Desi tornaram-se marido e mulher.

Mas os problemas não desapareceram como que por milagre. Desi continuou a dar concertos, o que o obrigava a estar fora de casa até às quatro da manhã — a mesma hora a que Lucille tinha de estar pronta para as inúmeras sessões fotográficas que tinha de fazer enquanto modelo. Isto fazia com que, mais uma vez, estivessem desencontrados, motivo mais do que suficiente para fazer tremer uma relação já de si instável.

As traições e o pacto de fazerem trabalhos juntos

A relação entre os dois pareceu melhorar com o nascimento do primeiro filho, tal como conta a publicista da atriz à revista “People” em 1991. “Ela costumava dizer várias vezes que tinham de parar de se encontrar no túnel de Sepulveda, e a estratégia dela parece ter resultado porque depois disso ficou grávida. Disse que finalmente o tinha onde queria… por uns dias, apenas.

A gravidez parece ter surgido numa altura em que o casal passava por uma situação muito complicada na sua relação. É que Lucille tinha tido vários abortos espontâneos antes do nascimento do primeiro filho e, em 1944, chegou mesmo a pedir o divórcio a Desi — motivado pelos casos de infidelidade e de alcoolismo do marido.

A ligação entre Lucille e Desi era tão forte que mesmo depois de separados nunca conseguiriam deixar de falar

A decisão não seguiu em frente e reconciliaram-se pouco tempo depois, assumindo o acordo de procurar projetos em conjunto que os obrigassem a estar mais tempo juntos.

E foi o que aconteceu quando a CBS decidiu adaptar o programa de rádio da modelo para uma série de televisão — falamos de “I Love Lucy”, aquela que viria a ser a primeira grande sitcom televisiva. O problema? Lucille queria que fosse o seu marido da vida real a fazer par romântico com ela na ficção, um pedido que não agradou os produtores da série já que Desi era cubano e podia não agradar ao público norte-americano.

Ambos partiram pelo país em promoção do novo projeto e o feedback foi positivo — o suficiente para que os produtores da CBS acedessem ao pedido da modelo. Agora, Lucille tinha a hipótese de manter Desi onde queria, junto de si e sem hipótese de pisar o risco.

“Ela sabia que se ele estivesse constantemente em digressão, estaria sempre à procura de qualquer coisa. De algo mais. Ela queria-o em casa, onde pudesse sentir que o casamento teria mais chances de durar”, contou Bob Weiskpof, biógrafo da atriz, à revista “Country Living” em fevereiro do ano passado.

A primeira plateia ao vivo numa série

A verdade é que o primeiro episódio de “I Love Lucy” estreou em 1951 e rapidamente se revelou um sucesso com mais de 40 milhões de espectadores a sintonizar o canal semanalmente para assistir às peripécias e aventuras do casal. Mas Lucille, que preferia o ambiente do teatro e o contacto com o público, tinha graves problemas em conseguir entrar na personagem.

Desi e Jessi Oppenheimer (“Angel”), o criador da série, perceberam que a protagonista não conseguia estar rodeada de câmaras, e que precisava do conforto de uma sala de teatro e da presença de uma plateia para se conseguir libertar, atuar e criar algumas das cenas mais icónicas por que ficou conhecida.

Foi assim que surgiu a ideia até aqui inconcebível: a de ter público no estúdio que reagia, em tempo real, às situações mais insólitas protagonizadas pelas personagens. A ideia foi para a frente e Lucille atingiu o nível de performance desejado. Até o próprio Desi Arnaz era incapaz de conter o riso em cenas onde não estava a atuar.

As reações do público na série eram tão hilariantes que a CBS decidiu gravá-las em faixas de áudio com o objetivo de as usar mais tarde em produções que não tivessem sido pensadas para contar com a presença de uma plateia. A decisão tinha como princípio a ideia de que o ato de rir era uma experiência partilhada — o que significava que ao ouvir risos, o espectador se sentiria mais inclinado para rir também e achar piada ao que tinha acabado de acontecer.

O exemplo mais paradigmático foi quando, num episódio, Lucy decidiu dançar o tango com Ricky depois de ter escondido dezenas de ovos por baixo da camisola. Assim que a dança começou, todos os ovos caíram ao chão, provocando o riso geral na plateia — que durou um total de 65 segundos. A cena teve de ser editada devido à duração exagerada das gargalhas. Foram as mais longas de sempre em toda a sitcom.

O momento da estreia coincidiu com nascimento do segundo filho do casal, que muitos amigos dizem ter aliviado o caráter mulherengo de Desi. E Lucille viria a fazer história novamente. Não só se tinha tornado na primeira mulher a protagonizar uma série nos EUA, como seria também a primeira a atuar grávida. Estávamos no ano de 1953.

“Quando gravávamos uma cena em que o casal da série tinha um filho, vimos Desi visivelmente emocionado. É que apesar de todos os problemas, eles eram loucos um pelo o outro e isso sentia-se a milhas de distância”, contou o realizador William Asher à revista “People” a propósito da relação de ambos.

Mas ainda que Lucille e Desi fossem totalmente compatíveis, a relação estava condenada desde o início e mostrou que nunca poderiam ficar juntos. A fama que receberam com a série de televisão comprovou isso mesmo, tal como Desi viria a revelar anos mais tarde no seu livro de memórias.

A pressão de gerir uma produtora independente (das primeiras a terem sucesso nos EUA) e o medo de ser julgado pelos filhos depois de saberem das traições do pai à mãe, remeteram-no para um profundo estado de ansiedade e alcoolismo que, por sua vez, se traduziram em mais casos de infidelidade. Lucille não aguentou e divorciou-se do marido em 1960.

A ligação entre os dois era tão forte que, mesmo depois de o casamento e de a série terem chegado ao fim, nunca conseguiram ultrapassar o facto de não terem dado certo. Amigos próximos do casal revelaram à revista digital “Country Living” que nunca nenhum dos dois conseguiu seguir em frente depois do término da relação, ainda que depois disso tenham casado de novo com outras pessoas.

“Falavam com tanto carinho um do outro que quase nos esquecíamos que eles já não estavam juntos”, disse a atriz Carol Channing à mesma revista, que recorda também as últimas palavras do ator para a ex-companheira em 1986, momentos antes de morrer: “Também te amo muito, querida. Boa sorte para o teu programa.”

Partilhe
Fale connosco
Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado. [email protected]