Os refrigerantes têm menos (ou nenhum) açúcar. Passaram a ser saudáveis?

Quantidades reduzidas. Versões light ou zero. O açúcar está a ser gradualmente expulso das bebidas. Significa que se tornaram boas opções?

Continua a ser mau para a diabetes, para os ossos e para a saúde no geral. Até as versões light

Em fevereiro de 2017 entrou em vigor o IABA (Imposto sobre o álcool, as bebidas alcoólicas e as bebidas adicionadas de açúcar ou outros edulcorantes).  A taxa, proposta pela Organização Mundial de Saúde, foi adotada em vários países, incluindo Portugal. Incide sobre bebidas alcoólicas, refrigerantes com ou sem gás, sumos e bebidas energéticas, sendo que o imposto reflete-se em 16 cêntimos por litro quando a bebida tem mais de 80 gramas de açúcar por litro, e de oito cêntimos por litro, quando o valor é inferior a esta quantidade. Passado pouco mais de um ano, nota-se o impacto da medida na indústria dos refrigerantes: com a subida dos preços, o consumo diminuiu.

Os preços aumentaram nos supermercados

De acordo com o “DN”, “um ano depois [entrada em vigor da taxa], o setor regista uma quebra de vendas da ordem dos 5% nas várias categorias de produtos e um aumento de 25% a 30% nos preços de venda aos consumidores.” A mesma notícia adianta que o setor “reclama a criação de um escalão isento para as bebidas zero e light.”

A este imposto foi dado o nome de “taxa de açúcar” apesar de também incidir sobre produtos não açucarados, mas com edulcorantes, adoçantes que substituem o ingrediente e atribuem o sabor característico aos refrigerantes e sumos.

A consciencialização dos perigos do consumo excessivo de açúcar adicionado aumentou. As pessoas preocupam-se e estão mais atentas. Em processos de perda de peso, os refrigerantes são o primeiro produto a ser escorraçado de uma dieta. O mercado responde às novas necessidades: surgem as versões light ou, melhor ainda, isentas de açúcar e de calorias, ainda que a nova medida não os permita escapar, uma vez que contempla bebidas com adoçante.

Mesmo assim, à nova taxa, as empresas têm reagido com alterações na composição dos seus produtos. A Coca-Cola em Portugal, companhia que detém vários refrigerantes e bebidas conhecidas como Sprite, Fanta, Powarede ou Nestea, comunicou em fevereiro de 2018 que, “em 2017, a redução da adição de açúcar por litro no total de vendas da companhia foi de 10,05%” e que “24 das 93 referências de bebidas que a Coca-Cola comercializa em Portugal correspondem a produtos sem açúcar adicionado”. Desde 2014, afirmam, houve redução ou eliminação da percentagem de açúcares adicionados nas bebidas: menos 40% na Fanta, menos 81,8% na Sprite, menos 34,6% no Powerade e menos 6,1% no Nestea Manga e Ananás.

A quebra nas vendas

Em junho de 2017 o jornal “Público” adiantou dados que lhe foram fornecidos pelo Ministério da Saúde: em cinco meses, o consumo de refrigerantes e de outras bebidas com açúcares e adoçantes caiu, sendo que, no caso das mais açucaradas, “a quebra foi de 72%”.

Muito antes da medida surgiu a Coca-Cola Zero, a solução isenta de açúcar ou calorias. Há ainda a mesma versão da Fanta. Nos dois casos, promete-se todo o sabor. Quem bebe confirma. Mas como uma bebida tão doce pode manter o mesmo sabor sem o ingrediente que lhe confere esta característica? E será que a sua eliminação a torna uma bebida segura e amiga da saúde?

Que outros problemas têm os refrigerantes?

A Guess What, empresa que faz a comunicação da Coca-Cola Portugal, diz à MAGG que as reformulações em diversos produtos da companhia — em que houve redução ou “eliminação de todo o açúcar, com a substituição por adoçantes” — está relacionada com “a escolha dos consumidores e as alterações dos padrões de consumo”, mas também com as recomendações da Organização Mundial de Saúde que pretende reduzir as doses diárias de consumo de açúcar.

“As pessoas procuram estilos de vida mais equilibrados e procuramos ir ao encontro das suas necessidades”, acrescenta.

Mas o problema não é só o açúcar. Açucarados ou não, os refrigerantes não devem ser uma opção de bebida recorrente, defendem as nutricionistas Maria João Ibérico Nogueira e Ana Lúcia Silva.

Segundo Maria João Ibérico Nogueira, além do açúcar, e conforme as bebidas, o problema destes sumos está em geral “na sua composição em sódio, em conservantes, edulcorantes e corantes.” De acordo com a mesma especialista, “tudo o que é químico e artificial não é bom para a nossa saúde”, independentemente destas reformulações.

Ana Lúcia Silva sustenta que os produtos que não são açucarados provocam a mesma resposta metabólica no organismo, apesar de os seus substitutos serem quase sempre isentos de valor energético. “O adoçante provoca uma resposta metabólica igual ao açúcar, porque o organismo, a nível cerebral, identifica aquele sabor como sendo um produto açucarado”, diz. “Assim, dá-se a libertação de insulina o que, a longo prazo, potencia o aparecimento de diabetes”.

A empresa que comunica a Coca-Cola Portugal diz o contrário, afirmando que as associações científicas atestam que os adoçantes podem ser consumidos por pessoas com diabetes: “Vários estudos em humanos mostraram consistentemente que os adoçantes de baixas calorias não afetam os níveis de glicose no sangue ou de insulina tanto em indivíduos saudáveis quanto em pessoas com diabetes”.

E acrescenta: “O NHS England (“The truth about sweeteners“), a Associação de Dietistas do Reino Unido, a Associação Diabetes UK, a Associação Americana de Diabetes (ADA) e a Academia Americana de Nutrição e Dietética (AND), concluíram nas suas mais recentes orientações que os adoçantes de baixas calorias são seguros e podem ser recomendados para pessoas com diabetes, e que o seu uso tem o potencial de reduzir a ingestão total de calorias e hidratos de carbono se utilizados em vez de adoçantes calóricos e sem a compensação das calorias poupadas pela ingestão de outras fontes alimentares.”

Vítor Hugo Teixeira, investigador e professor de composição nutricional dos alimentos e de alimentação humana na Faculdade de Nutrição e Alimentação da Universidade Porto, explica que não há consenso entre a comunidade cientifica e que “o efeito dos edulcurantes na saúde é incerto.”

O trabalho científico mais recente, de 2017, que resume tudo o que foi estudado até então, comprova-o. Por um lado os ensaios clínicos mostram efeito benéfico dos adoçantes no peso. Mas, por outro, os observacionais mostram um aumento no risco de excesso de peso, obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes tipo dois (aumenta o risco de 14%), e síndrome metabólica (um conglomerado de condições, da qual fazem parte pressão arterial elevada, perímetro da cintura elevado, níveis de triglecerideos altos, colesterol bom baixo e glicémia em jejum alta — destes cinco problemas é necessária a presença de três para ser diagnosticado).

Pelo rótulo, entende-se que a Coca Cola Zero mantém o sabor doce através da utilização de três adoçantes: acesulfame-K (E950), aspartame e ciclamato, este o último referenciado no rótulo como E952 (é um derivado do petróleo e já foi banido de alguns países, por ter sido considerado potencialmente cancerígeno, apesar de os testes terem sido realizados em animais).

Os refrigerantes são os principais responsáveis pela obesidade infantil, pois ao conterem muito açúcar, torna-se fácil ingerir uma grande quantidade de calorias sem darmos por isso. A redução do açúcar pode torná-los um pouco menos perigosos”

“Estes aditivos estão em doses permitidas por lei, mas se consumirmos este tipo de bebidas artificiais em excesso, corremos o risco de prejudicar a nossa saúde a longo prazo”, diz Maria João Ibérico Nogueira que considera que a redução de açúcar não faz com que estas bebidas sejam mais aconselháveis.

“Os refrigerantes são os principais responsáveis pela obesidade infantil, pois ao conterem muito açúcar, torna-se fácil ingerir uma grande quantidade de calorias sem darmos por isso. A redução do açúcar pode torná-los um pouco menos perigosos, mas não passam a ser saudáveis nem a dar melhores hábitos alimentares.”

Este ácido também é comercializado em produtos de limpeza para limpar ferrugem”

Apesar de livres da droga principal, os refrigerantes — até os que têm zero calorias — podem ser aditivos. Ana Lúcia Silva, explica que o citrato de sódio que é adicionado “para diminuir a acidez, contém sódio, aumentando a sede e a vontade de beber mais.” Ou seja, não é só o doce que é capaz de desencadear a vontade por mais: “O sal faz-nos querer ingerir mais líquidos.”

A este problema, somamos outros: o ácido fosfórico. Corresponde ao E338 do rótulo e potencia um pH sanguíneo muito baixo, pelo aumento do fósforo. Ao aumentar os níveis deste mineral, o corpo compensa através da libertação de cálcio dos ossos, potenciando a osteoporose. “Este ácido também é comercializado em produtos de limpeza para limpar ferrugem”, adianta Ana Lúcia Silva.

A Guess What considera que a marca está no rumo certo, mas que ainda há caminho para percorrer, onde se inclui “muita investigação e desenvolvimento”, de modo a que não se perca a essência do produto ícone da empresa, neste caso a Coca-Cola, com um sabor que é “tão característico”.

Litpon assume compromisso para reduzir o açúcar desde 2013

A Lipton Ice Tea é dos sumos preferidos dos miúdos. Há o sabor a limão, manga e pêssego, mas também já há chá verde, matcha ou lichia. Um dos objetivos da marca é o da redução do açúcar, desde 2013, quando ainda não se falava de impostos ou taxas em bebidas. Até à data, nos sabores tradicionais, já diminuiram a quantidade deste ingrediente de 7 gramas para 4,5 por mililitro. Na constituição passam a incluir a stevia, um adoçante natural.

“A nossa preocupação foi em ter produtos naturais e saudáveis e, para isso, tivemos de procurar um substituto que fosse ao encontro disto. A stevia é 100% natural e é capaz de manter o sabor da bebida”, diz à MAGG Sónia Pargana, Marketing Manager da Lipton. “O consumidor quer ser mais saudável e quer propostas melhores, mas também não quer prescindir do que gosta”.

Declaração nutricional do Lipton Ice Tea Limão

Por 100ml
Energia 81Kj/19Kcal
Lípidos <0,5g
– dos quais ácidos gordos saturados<0,1g
Hidratos de carbono 4,6g
– dos quais açúcares 4,5g
Proteínas <0,5g
Sal 0,057g

Ingredientes:
Chá (água, extrato de chá preto) (4,0%), açúcares (açúcar, frutose), reguladores de acidez (ácido cítrico, citrato de sódio), aromas, sumo de limão à base de concentrado (0,1%), antioxidante (ácido ascórbico), edulcorante (glicosídeos de esteviol).

Ao contrário de outras bebidas, Sónia Pargana garante que a Lipton Ice Tea— que não se assume como refrigerante, mas antes como “bebida refrescante” — “não tem ingredientes artificiais”, utilizando apenas aqueles de “origem natural”. Assume que a bebida não poderá nunca substituir o chá, mas salienta o facto de esta planta ser a sua origem: “São apanhadas folhas nas nossas plantações. Dá-se um processo em que se extrai a bebida e é introduzida numa garrafa e é vendida com o sabor da fruta.”

“Não dizemos 100% natural por causa do açúcar refinado”, diz. “É um produto equilibrado, contudo temos de ter noção das calorias que ingerimos”, acrescenta a marketing manager, que defende o produto como “uma boa solução para o dia-a-dia.”

Mesmo assim, Maria João Ibérico Nogueira não vê benefícios no consumo destas bebidas. Apesar de mais natural e de menor quantidade de açúcar, ele ainda está lá e as suas consequências sentem-se, sobretudo porque é muito fácil consumir em excesso.

Com ou sem redução de açúcar, light, zero ou normal, os refrigerantes e sumos industrializados são produtos processados, longe de serem naturais. Se quiser acompanhar uma refeição com alguma bebida que não seja água, siga as recomendações das nutricionistas: opte por águas aromatizadas, infusões ou sumos naturais.

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