Ansiedade. O perigo de deixar uma emoção evoluir para uma perturbação

É diferente do stresse. É diferente da depressão. Pode ser uma emoção do quotidiano, mas pode agravar-se e evoluir para causar mal-estar.

Existem várias formas de ansiedade: a perturbação do pânico, generalizada ou social, por exemplo

Estava a chover. Eram 18h30 e estávamos em fevereiro de 2017. Rui (nome fictício) 23 anos, estava no meio do trânsito à hora de ponta na Segunda Circular, em Lisboa. Começou a ficar nervoso, o coração a acelerar e sentiu-se com falta de ar. “Achava que estava a morrer”, conta à MAGG.

Meteu-se pela faixa do BUS e só parou em casa do pai, no Areeiro. A experiência foi aterradora. Tinha cada vez mais a certeza de que estava a sofrer um ataque cardíaco: “Até comecei a sentir a perna a ficar dormente”.

Chamou uma ambulância, foi para o hospital e só aí é que se soube que o problema era outro: “Assim que me disseram que o meu coração estava ótimo, passou-me tudo e voltei a sentir-me normal”, conta.

João (nome ficticio), 35, fica ansioso sempre que alguém da família o contacta: “Acho sempre que aconteceu uma tragédia, que alguém morreu ou teve um acidente”, conta. A ansiedade já o acompanha há algum tempo e levou-o a abusar dos das benzodiazepinas (ansioliticos) durante anos. Já conseguiu superar o problema.

Foi importante a psicoterapia. Ajudou-me a desenvolver uma relação honesta consigo mesmo, de forma a perceber os meus estados emocionais

Admite que “sofre por antecipação” e que é frequente “projetar no futuro uma situação de perigo”, mesmo que nada aponte nessa direção. No trabalho, é onde mais se manifesta: “É o sítio onde passo mais tempo”, diz. A sua profissão já foi imprevisível. Os dias decorriam “com base no acontecimento”, o que abria portas para especulações de tudo o que podia correr mal. A caminho, sentia o coração acelerado ou as mãos suadas. Mas no momento em que chegava, começa a trabalhar e estabilizava.

Consciente das suas características, considera que a “ansiedade é uma palavra tão banalizada que se confunde com o nervosismo normal que toda a gente sente”. Não deixa que a “preocupação excessiva” sem causa comande os seus dias: “Foi importante a psicoterapia. Ajudou-me a desenvolver uma relação honesta comigo mesmo, de forma a perceber os meus estados emocionais, estar em sintonia com eles e ter noção daquilo que sinto e não recalcar.”

Aquilo que Rui viveu foi um ataque de pânico: “Por definição surge do nada, sem nenhum acontecimento particular. Podemos estar relaxados no sofá e ter um ataque de pânico”, explica o psicólogo da Oficina de Psicologia Nuno Mendes Duarte.

Os motivos para o ataque ainda são desconhecidos para o jovem de 23 anos. Durante algum tempo ficou com medo de ter um novo episódio: “Nos dias seguintes fiquei a pensar que não estava a conseguir respirar bem, mas consegui afastar a ideia.” Caso voltasse a acontecer, teria de consultar um psiquiatra ou psicoterapeuta. Até hoje, não foi necessário.

A perturbação de pânico — diagnóstico para o qual são necessários dois ou três ataques — é apenas uma das formas de ansiedade. O caso de João é diferente: sofre de uma desordem ansiosa generalizada.

O que é a ansiedade?

“A ansiedade é uma resposta do organismo que deve ser distinguida do medo”, diz. A diferença é lógica: no medo, “uma emoção adaptativa”, reagimos a um perigo que existe. Como todas as emoções, “é um sinalizador que nos prepara para uma ação concreta” e que, neste caso em particular, indica-nos que estamos em risco “e que devemos reagir.”

A ansiedade é diferente. Apesar de a resposta fisiológica ser semelhante, “não está presente perigo nenhum”. Depende de uma “construção nossa sobre antecipação de um perigo que podemos viver no futuro.” É aquilo a que se chama sofrer por antecipação, em que nos preparamos para um determinado cenário, ainda que este “só existe na nossa cabeça.”

Com “maior ou menor grau”, a ansiedade é um estado emocional comum e transversal a todas as pessoas, em diferentes situações de vida: seja no trabalho, nas relações com a família, amigos ou qualquer outra situação que desperte este medo pelo que ainda está para vir. Do ponto de vista físico, os sintomas da ansiedade variam conforme o grau: pode passar por palpitações e um aperto no peito — que são os mais comuns — ou ainda pela sensação de ter um nó na garganta, no estômago ou tremores.

Mas uma coisa é a ansiedade e outra é a perturbação que nasce deste estado emocional. De acordo com o especialista, “estima-se que cerca de 15 a 20% da população é afectada por uma disfunção ansiosa já expressiva do ponto de vista clínico, e muitos mais a sofrerem a sua influência mais benigna no dia-a-dia.”

Existem várias formas de ansiedade, com “expressões distintas”, consoante “os quadros sintomáticos específicos.”

A ansiedade não é toda igual

“Clinicamente, a ansiedade torna-se significativa quando falamos em perturbação de ansiedade”, diz o psicólogo. Neste caso mais agravado, “a pessoa tem um conjunto de sintomas que pela sua frequência, intensidade e influência no dia-a-dia causam um mal-estar que não deve ser ignorado.”

O que aconteceu com Rui foi apenas um ataque. Se tivessem ocorrido mais episódios, este poderia ser diagnosticado com a perturbação do pânico, que é uma das formas em que se exprimem as desordens ansiosas.

A forma como depois digerimos o ataque é capaz de influenciar o rumo das coisas. Pode tratar-se de um acontecimento pontual, mas poderá também repetir-se: “Se começarmos a ter medo de passar pelo mesmo, começarmos a dar muita atenção aos sinais físicos e voltarmos, num curto espaço de tempo, a ter mais ataques de pânico — que levam a que se evitem atividades associadas ao mesmo — então estão reunidos os critérios de diagnóstico para perturbação de pânico.”

A perturbação de ansiedade generalizada — a do João — é a mais difícil de diagnosticar porque pode confundir-se com o nervosismo banal do quotidiano. A origem do problema está num “entrelaçar de preocupações excessivas e recorrentes sobre os aspetos do dia-a-dia, acompanhada de sintomatologia física”.

Estima-se que cerca de 15 a 20% da população é afectada por uma disfunção ansiosa já expressiva do ponto de vista clínico, e muitos mais a sofrerem a sua influência mais benigna no dia-a-dia

“Tenho uma paciente que foi mal diagnosticada com depressão e que afinal sofre desta perturbação. Vive preocupada com os filhos, com medo que estejam doentes”, exemplifica. “A preocupação é tal que é como estar preso num circulo.” Entre os sintomas estão também a irritabilidade, cansaço, agitação nervosa, dores musculares, perturbações do sono ou dificuldade de concentração.

A perturbação de ansiedade social é a menos conhecida e “mais negligenciada”. Tem origem no sentimento de nervosismo e desconforto em contextos sociais. A pessoa que sofre desta perturbação teme causar má impressão, ser ridículo, julgado e avaliado por quem o acompanha.

A abrangência e intensidade desta ansiedade diferem consoante a pessoa. Pode acontecer de forma generalizada ou isolada. A ansiedade pode surgir em todas as situações ou limitar-se apenas a algumas: mais formais, de trabalho, apresentações, reuniões, em festas a socializar com amigos ou com pessoas que não conhece.

Há quem lide bem com a emoção, mas há quem sinta desconforto e receio profundo. Este nervosismo face aos outros nasce de alguns traços de personalidade, como a timidez (ficam desconfortáveis em situações sociais em que têm de comunicar, sobretudo, com desconhecidos), introversão (evitam este tipo de situação por serem mais sossegadas e gostarem, frequentemente, de estar sozinhas) e até perfeccionismo (estas pessoas preocupam-se excessivamente com as expectativas sobre si mesmo e sentem-se ansiosas em publico pelo medo de serem julgadas negativamente).

“As famosas fobias também são perturbações ansiosas, ou seja, temos um medo irracional em relação a qualquer objecto”, diz o especialista. “É estarmos em frente a uma aranha inofensiva e sentirmos o coração a disparar, a respiração acelerada, começarmos a tremer e a querer fugir dali. Isto é a resposta ansiosa na fobia.”

A importância de procurar ajuda

Quando a ansiedade “se desregula” e passa a perturbação é “preciso tratá-la”. Consoante o tipo, pode ser mais fácil ou difícil identificar o problema. Ao contrário das perturbações do pânico, a ansiedade generalizada pode aparecer lenta, subtilmente e ser confundida com os problemas banais do dia-a-dia. Pode coexistir com a do pânico, apesar do psicólogo dizer que não é comum.

“É importante tratar a ansiedade não só pelo desconforto e impacto negativo que têm na qualidade de vida, como também pelo facto de, na sua generalidade, as perturbações deste foro serem progressivas, isto é, terem tendência a piorar com a passagem do tempo”, explica o psicólogo.

Deixar progredir, é agravar o grau de uma perturbação, ao ponto de o tratamento desta se tornar “muito mais difícil e dispendioso”. Detetada numa fase inicial, permite ajudar o paciente a delinear “um conjunto de estratégias para regular os sintomas”, ajudando também “na reformulação das crenças (pensamentos automáticos) que mantém a perturbação”, o que “promove a mudança de uma forma consistente e duradoura.”

É importante tratar a ansiedade não só pelo desconforto e impacto negativo que têm na qualidade de vida, como também pelo facto de, na sua generalidade, as perturbações deste foro serem progressivas, isto é, terem tendência a piorar com a passagem do tempo

Num estado mais agravado, uma perturbação de ansiedade pode ser tratada com antidepressivos: “Modulam os circuitos neuronais, muitas vezes através da regulação de neurotransmissores [mediadores entre dos circuitos subjacentes ao medo e à preocupação]”, diz. “São por isso fármacos utilizados para as perturbações ansiosas, além das perturbações depressivas.”

Os fármacos ansioliticos — sobretudo as benzodiazepinas — são muito populares porque “oferecem um alivio imediato dos sintomas ansiosos”. No entanto, “não têm a capacidade de modular os circuitos que estão desregulados na ansiedade como os antidepressivos fazem”. Além disso, podem ser perigosos pela relação “benefício/risco”, uma vez que provocam dependência. A sua toma não deve exceder um mês de tratamento.

Ansiedade, stresse e depressão

A ansiedade, o stresse e a depressão são coisas diferentes, ainda que possam coexistir. A confusão, segundo o especialista, é frequente. Mas é fundamental distinguir para que se identifiquem sinais e se procure a ajuda adequada.

No stresse — que pode agravar os sintomas de algumas perturbações ansiosas — não se trata de sofrer por antecipação, mas antes por ter a capacidade para gerir e concretizar todos os desafios lançados pela vida, sejam familiares, profissionais ou de gestão financeira. Acontece porque “os recursos psicológicos e físicos de que dispomos estão a ser pressionados para lá da daquilo que percepcionamos como tolerável para nós”. Em permanência, ou seja, quando está sempre presente, pode transforma-se em “stresse crónico.”

A depressão é uma perturbação do humor. Do ponto de vista afetivo, é muito diferente da ansiedade: “Estamos a falar de experiência de tristeza diária, choro fácil, pouca vontade de fazer actividades que antes davam prazer, perturbação do sono e do apetite.”

O especialista termina com uma sugestão: “Convém ter, pelo menos, uma noção do impacto que a ansiedade poderá estar a ter.” Se acha que pode ter alguma perturbação do foro ansioso, faça este teste, mas, muito mais importante: consulte um especialista.

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