Qual é o poder das celebridades e dos influenciadores nas Semanas de Moda? 3 designers respondem

Celebridades, atores, músicos ou criadores de conteúdo: a primeira fila da ModaLisboa mudou e a forma como a moda portuguesa chega ao público também. Mas qual é, afinal, o verdadeiro impacto destas figuras para os designers?

Durante muitos anos, a primeira fila dos desfiles era dominada por atores, apresentadores de televisão e nomes da música. Contudo, vivemos num mundo diferente hoje em dia, graças ao advento das redes sociais e à ascensão de novas plataformas de comunicação, que catalisaram uma transformação. Hoje, criadores de conteúdo digitais, influenciadores e personalidades de diferentes áreas culturais são também o reflexo de uma nova forma de comunicar, partilhar e consumir moda.

Na ModaLisboa, por exemplo, essa evolução tem sido acompanhada de perto pela organização, que procura equilibrar diferentes perfis e linguagens dentro do próprio evento. Quem o diz é Joana Jorge, project manager da associação ModaLisboa, que frisa que esta diversidade faz parte da própria essência da semana da moda lisboeta e da forma como o evento se posiciona dentro do ecossistema criativo.

“A nossa preocupação é sempre ter um conjunto de convidados profissionais e que não são profissionais, mas que são de várias áreas, numa lógica que para nós é muito importante de sinergia e de heterogeneidade“, explica a responsável à MAGG, no rescaldo do último dia de desfiles da ModaLisboa Pebbling, que chegou ao fim este domingo, 15 de março. “Para nós é importante que haja perspetivas diferentes no evento e pessoas de ambientes muito diferentes”, adianta.

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Joana Jorge, Project Manager da ModaLisboacréditos: LOUIE THAIN

Essa pluralidade de convidados não é um mero reflexo da evolução mediática, mas também uma estratégia pensada para reforçar a ligação entre a moda e outras disciplinas artísticas, algo que a organização considera essencial para ampliar o alcance do evento. “Procuramos trazer pessoas desde a parte da televisão, do cinema, atores, pessoas da música, que é também uma aposta grande nossa durante este momento”, acrescenta Joana Jorge. Afinal, as artes andam todas de mãos dadas umas com as outras.

No entanto, num contexto em que tudo se tornou cada vez mais digital, a presença de figuras públicas assume também uma dimensão estratégica para a moda. Mais do que marcar presença na primeira fila (para a qual existe um Tetris minucioso, como já aqui lhe explicámos), muitas destas personalidades funcionam como pontes entre a passerelle e audiências que poderiam não se cruzar com o trabalho dos designers portugueses.

ModaLisboa. Afinal, quem é que se senta na primeira fila dos desfiles (e porquê)?
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Através das redes sociais de atores, músicos, criadores de conteúdo ou outras figuras mediáticas, os desfiles ganham novas narrativas e chegam a públicos que, muitas vezes, não fazem parte do circuito tradicional da moda. “Através de alguém com quem têm empatia, [os seguidores de quem é convidado] podem descobrir um designer novo ou interessar-se pelo evento“, explica Joana Jorge, frisando que o trabalho que a ModaLisboa tem na área digital serve, também, para prolongar o ciclo de vida do certame, além dos dias em que este acontece.

“É algo que faz sentido e que ajuda o trabalho da ModaLisboa e o trabalho dos seus designers a chegar mais longe, a audiências mais vastas”, sublinha, acrescentando que há uma grande vontade de dar aos talentos portugueses “mais audiência, mais visibilidade, mais notoriedade“. Naturalmente, ao longo do tempo, o objetivo é “e que isso se possa concretizar em mais vendas e também reforçar os seus negócios”, continua.

O que dizem os designers?

Para os designers, a visibilidade adicional à que o evento, só por existir, já dá pode traduzir-se em diferentes tipos de impacto, que vão do crescimento da notoriedade da marca à aproximação a novos públicos. Um desses exemplos é o designer Gonçalo Peixoto, cujos desfiles costumam atrair um número significativo de criadores de conteúdo e celebridades. Assim, considera que o efeito é palpável.

“Sinto que converte [em vendas]”, afirma, em declarações à MAGG, acrescentando que, uma vez que há cada vez “mais designers no mercado, as coisas acabam por se diluir”. Isto significa que apostar no digital, seja por via de criadores de conteúdo ou de figuras públicas, “é muito importante”, uma vez que estas personalidades “gostam de usar a marca e ela vende com isso”.

Gonçalo Peixoto. SS26
© ModaLisboa | Photo: Ugo Cameracréditos: The images used are the property of Associação ModaLisboa, which also holds all the rights to the same.

Ainda assim, o designer reconhece que a relação entre influência digital e consumo tem vindo a evoluir nos últimos anos. “Há cinco anos sentia que as pessoas compravam mais quando viam uma peça numa influencer“, recorda, não descurando sentir que “agora há muito mais informação e até começa a surgir uma reação contrária”. Há quem diga que não compra “porque viu numa influencer”, acredita.

Por isso, para Gonçalo Peixoto, o futuro (que foi precisamente o debate em destaque na sua coleção, mas por outros motivos, como já aqui lhe contámos) passa menos pelo número de seguidores e mais pela autenticidade da comunicação. “Acho que vão prevalecer as pessoas que conseguem contar a história, que mostram o look, mas também explicam como chegaram até ali“, garante.

A visão de Luís Carvalho converge em grande parte com esta ideia de visibilidade estratégica, embora o designer a encare de forma ainda mais direta. “A minha marca cresceu tão bem e tão rápido graças a esse ponto das celebridades”, conta à MAGG. “Desde cedo que fui por esse caminho, que é o caminho mais rápido de fazer marketing”, reconhece.

Luís Carvalho apresenta Union, uma coleção repleta de cor, brilho e movimento
Luís Carvalho | ModaLisboa – Base. Créditos: ModaLisboa | Photo: Ugo Camera

Mais do que simples convidados de desfile, estas figuras funcionam, na prática, como uma montra. “Às vezes há pessoas que criticam porque visto demasiadas figuras públicas, mas eu faço o que é necessário para manter a minha marca viva“, diz Luís Carvalho, adiantando ainda que “Portugal é tão pequenino e a moda tem tão pouca visibilidade que é preciso ter esta ajuda extra das figuras públicas”.

Já a designer Ana Duarte, a mente por detrás da marca DuarteHajime, encara esta exposição sobretudo como uma forma de ampliar a presença da marca “especialmente na ModaLisboa, porque há muitos designers juntos e é muita coisa ao mesmo tempo“, explica à MAGG. “Tem um alacance muito maior do que se calhar a marca sozinha conseguiria ou precisaria do tipo de investimento”, continua.

Contudo, a designer diz que essa visibilidade “não se traduz necessariamente em vendas”, embora tenha perfeita noção de que pode desempenhar um papel importante na construção de “notoriedade”. “E às vezes até ajuda as pessoas a perceber como é que as peças do desfile podem ser usadas fora dele”, continua.

duarte hajime
créditos: © ModaLisboa | Photo: Alexandre Azevedo

Ao mesmo tempo, Ana Duarte sublinha que diferentes tipos de figuras públicas podem gerar impactos distintos. “Vestir um artista reflete mais do que um influenciador”, admite, não descurando “que há influenciadores muito bons, com um público específico que se calhar nunca chegaria” até à marca e que, por isso, “não se pode excluir ninguém”.

Luís Carvalho, à semelhança de Ana Duarte, tem uma visão mais cautelosa sobre a conversão imediata em vendas, reiterando que o impacto destas relações pode assumir várias formas. “Converte-se em vendas, ou em exposição, ou traz-nos outras coisas – parcerias, nome, público. De certa forma, influencia sempre”, remata.

O equilíbrio entre o espetáculo e a criação

A crescente visibilidade das primeiras filas levanta, por vezes, uma questão: poderá o protagonismo das figuras públicas desviar a atenção do trabalho apresentado na passerelle? Para a organização da ModaLisboa, o equilíbrio entre estas dimensões é claro, embora Joana Jorge tenha uma certeza: “o centro da Lisboa Fashion Week é a coleção de cada um dos designers, é o talento do seu trabalho e é isso que celebramos”.

Ainda assim, reconhece que muitas das figuras presentes desempenham um papel importante na valorização da moda nacional. “Há influenciadores e figuras públicas que são amigos próximos dos designers e da ModaLisboa e que vêm também numa atitude muito generosa de ajudar a moda nacional, partilhar nos seus canais e contribuir para valorizar o trabalho dos designers”, explica.

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Por exemplo, no caso de Luís Carvalho, a relação com figuras públicas desenvolve-se muitas vezes de forma orgânica, através de colaborações e amizades construídas durante este percurso. “Não quero esquecer as pessoas que já fazem parte da marca, porque também não quero ser esquecido“, admite. A par disso, ao mesmo tempo, existe uma preocupação em cimentar novas relações.

No final, a primeira fila acaba por refletir o próprio momento da moda contemporânea, sendo um espaço onde televisão, música, cultura e o universo digital se cruzam. É um encontro de linguagens diferentes que, quando funciona em sintonia, permite que as marcas ultrapassem os limites da passerelle e continuem a viver muito depois de as luzes se apagarem.

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