Carlão regressa aos discos com a ‘essência’ que faltava. “É um destilado, uma coisa mais pura”

Em conversa com a MAGG, Carlão afirmou que “Quinta-Essência 75/25” foi a melhor maneira que conseguiu para juntar 50 anos de vida a 30 de música, e promete contar uma história do início ao fim.

O regresso de Carlão aos discos não aconteceu por acaso – e muito menos de um momento para o outro. Entre singles, projetos paralelos e colaborações, o artista de 50 anos foi construindo, quase de forma invisível, aquilo que viria a dar origem a “Quinta-Essência 75/25”, o seu novo álbum editado esta sexta-feira, 27 de março, e que funciona tanto como balanço como ponto de partida.

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“Não houve nunca uma pausa”, começou por explicar o artista à MAGG, afastando desde logo a ideia de um silêncio criativo. “Na verdade, eu estive sempre a editar singles ao longo destes anos, fui gravando música, fui fazendo coisas. Aconteceu o regresso dos The Weasel, aconteceu também a minha participação em televisão, aconteceu muita coisa.”

No entanto, por trás desse percurso aparentemente mais disperso, havia uma ideia que foi ganhando forma: EPs pensados, organizados, quase prontos a ver a luz do dia (como “Formas do Verbo Amar” ou “Detox”), mas que acabaram por ficar pelo caminho. “A ideia era lançar vários EPs, todos um bocadinho diferentes entre si, mas o tempo foi passando e, por uma razão ou por outra, nunca saíram”, recordou.

E foi precisamente nesse adiamento que nasceu o disco, uma espécie de ponto de encontro entre tudo o que ficou por dizer. “Pensei ‘isto tudo faz parte daquilo que eu sou’. E como ia fazer 50 anos, pareceu-me uma oportunidade muito fixe para fazer um apanhado, um balanço, um ponto de situação. Não consegues meter num disco 50 anos de vida e 30 e tal anos de música, mas acho que está aqui uma boa essência”.

Até porque, mais do que uma espécie de best of, “Quinta-Essência 75/25” é exatamente isso: essência. Um retrato honesto e de várias fases, influências e versões do próprio artista. “A ‘quinta essência’ é isso mesmo, é um destilado, uma coisa mais pura. Em vez de ir buscar os maiores êxitos, fui buscar aquilo que são as minhas diferenças, as minhas fases, e juntei isso tudo agora”, disse.

Esse percurso reflete-se também na escolha dos produtores que acompanham o disco, nomes que representam diferentes fases do trajeto artístico de Carlão. João Nobre, seu irmão, surge como uma presença íntima e ligada às origens, enquanto Fred Ferreira entra a partir de uma relação artística. Já Branko reforça a ligação a uma sonoridade mais global e contemporânea, e o duo Stereossauro e DJ Ride trazem ao álbum uma dimensão rítmica e experimental muito própria.

E nesse retrato cabem todas as dimensões – passado, presente e até o futuro do artista. “Há aqui temas que apontam caminhos, há coisas que ainda estou a tentar perceber em mim também”, admitiu o artista. Além disso, Carlão assume praticamente todas as letras ao longo do disco, mergulhando assim em reflexões pessoais, mas também sociais. “Apesar de haver mais liberdade para escrever, eu acho que as pessoas arriscam menos”, disse. 

“As pessoas autocensuram-se muitas vezes. Têm medo de tomar posições, medo do backlash, medo de serem canceladas ou simplesmente de terem muita gente contra elas”. Uma realidade que, acredita, afeta sobretudo quem está mais exposto. “Quem está na primeira linha, com mais audiência, sente mais isso. E isso acaba por condicionar”. No seu caso, no entanto, a escrita continua a nascer de um lugar profundamente íntimo, quase inevitável. 

“A minha escrita vem sempre de um lugar de necessidade. Seja porque estou apaixonado, seja porque estou zangado, seja porque me sinto injustiçado. É uma coisa terapêutica. É uma forma de lidar com a vida, de dizer coisas que às vezes são difíceis de dizer de outra maneira”.  E é essa necessidade que acaba por atravessar todo o seu novo álbum, não como conceito forçado e sim como um impulso natural que precisava de ser sentido. 

Até porque num tempo dominado por singles e consumo rápido, Carlão quis ir contra a corrente e regressar ao formato que o formou: fazer um álbum para ser ouvido do início ao fim. “Há muita coisa para dizer que não cabe em singles. Só cabe num disco”, afirmou. “Eu cresci a ouvir álbuns do princípio ao fim, a olhar para o alinhamento, para a capa, para tudo o que envolve um disco. E gosto de pensar a música dessa forma”. Isto porque, acredita, é aí que se revela verdadeiramente um artista. “Quando ouves um disco completo, percebes várias camadas, várias fases.”

No final, “Quinta-Essência 75/25” não surge como um ponto final, mas também não é apenas mais um capítulo. É um lugar intermédio, feito de tudo o que foi e de tudo o que ainda pode vir a ser. “Não fecha totalmente um ciclo, mas já aponta coisas novas”, rematou o artista.

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