Duas décadas depois, Stella McCartney volta a juntar-se à gigante sueca, mas não por uma questão de nostalgia. A nova coleção chega com a ambição de mostrar que o luxo pode (e deve) ser mais democrático, sem comprometer o estilo ou os valores.
Mais de 20 anos depois da primeira colaboração, Stella McCartney volta a unir forças com a H&M e desengane-se quem acha que se trata de apenas mais uma colaboração cujo objetivo é revisitar um momento marcante dos anos 2000. A nova coleção nasce como uma continuação lógica desse encontro pioneiro, claro, mas com a premissa de provar que é possível democratizar o luxo sem descurar os princípios, a estética ou a exigência.
Inspirada em 25 anos de percurso da casa Stella McCartney, a proposta é o cruzamento do passado e do presente. Isto é, há peças que remetem diretamente para o arquivo, como os tops com logótipos ou os estampados adornados, ao mesmo tempo que surgem silhuetas contemporâneas, pensadas para o ritmo frenético dos tempos de hoje, como camisas oversized, sobretudos estruturados, vestidos de festa, denim e coordenados de malha com a icónica corrente Falabella incorporada.
Claro que também há peças statement. Por exemplo, o vestido branco comprido com manga-capa reforça o lado mais dramático e escultórico da linha, a par de tops e vestidos de rede com padrão de cereja ou uma reinterpretação da mítica T-shirt Rock Royalty com tachas (olá, Met Gala de 1999), que também cumprem a missão de conferir uma energia mais irreverente à linha. Nos acessórios, há malas em diferentes escalas, um modelo em tom chocolate com corrente, mocassins com detalhes metálicos e joalharia produzida a partir de metal reciclado.

Por trás do inegável impacto visual da coleção, há uma base técnica sólida referente à sustentabilidade. A coleção privilegia algodão orgânico, lã certificada segundo a norma RWS e materiais reciclados, como vidro e alumínio, ao mesmo tempo que explora alternativas inovadoras para acabamentos revestidos, como derivados de milho industrial e óleo vegetal reciclado. E isto prova que, quando a fast fashion quer fazer uma mudança, a fast fashion consegue.
Durante a conferência de imprensa do lançamento da coleção, na qual a MAGG marcou presença, Stella McCartney foi clara sobre o porquê desta abordagem e também sobre o motivo que a levou a aceitar voltar a colaborar com a gigante sueca. “Costumam convidar-me para projetos destes e, regra geral, digo que não, porque normalmente não são os parceiros certos em termos de valores ou padrões”, admitiu.
“Mas há 20 anos aceitei com uma condição muito clara: tudo tinha de girar em torno da sustentabilidade. Caso contrário, não faria sentido”, continuou a designer britânica. Por isso, além de uma colaboração, descreve este tipo de projetos quase como uma forma de “se infiltrar no sistema” e dar um empurrão para que a indústria veja que é possível criar através de práticas mais conscientes, incentivando-a a fazer o mesmo.
Esse impacto, garante Ann-Sofie Johansson, diretora criativa e conselheira da marca, não ficou no passado. “Uma das razões para voltarmos a trabalhar com a Stella é precisamente mostrar o progresso destes 20 anos. Ela inspirou-nos a ser melhores”, afirmou. A evolução, da qual já nos tinha falado numa entrevista anterior, traduz-se em números e escolhas concretas: correntes produzidas com 95% de alumínio reciclado, cristais compostos por 80% de vidro reciclado e um esforço contínuo para integrar soluções mais responsáveis em escala.
Ainda assim, o discurso não ignora o caminho que falta. “É importante falar sobre isto de forma transparente e aberta – e torná-lo apelativo”, acrescentou, assumindo que a sustentabilidade tem perdido espaço no debate e precisa de regressar ao centro da conversa. Essa transparência é, aliás, um dos pilares desta coleção, sendo que Stella McCartney afirma com todas as certezas: “Podem ser céticos ou otimistas, mas estes são os factos: neste momento, isto é melhor do que qualquer outra colaboração deste tipo no mundo“.
Contudo, a coleção não se cinge à lógica conceptual, porque foi desenhada para ser, sobretudo, prática. “Quis criar um guarda-roupa virado para as soluções”, explicou a designer, frisando que desenhou as peças para serem “combináveis” entre si, de modo a “facilitar a vida” de quem a usar. “Há uma certa empatia nisso, porque estamos sempre com pressa e precisamos de confiar no que compramos“, continua, deixando claro que a ideia de funcionalidade atravessa todas as propostas.
Mas talvez o ponto mais direto (e político, até) diga respeito ao acesso. “Odeio o quão elitista a minha indústria é. Sempre fui contra isso”, afirmou, sem rodeios, acrescentando que “o facto de trabalhar de forma sustentável faz com que os preços sejam mais altos”. Foi por isso que quis voltar a unir-se à H&M: “para chegar a um público mais amplo, mais jovem, e dar acesso” ao que cria. A colaboração com a gigante sueca é, então, uma forma de manter a integridade criativa e ética, mas dar espaço a quem normalmente fica de fora.
E quando é que as portas se vão abrir, então? Bem, a nova coleção de Stella McCartney para a H&M chega às lojas selecionadas e ao site da marca a 7 de maio. Para que possa matar a curiosidade, e ver o que quererá potencialmente adicionar ao carrinho, deixamos-lhe as imagens dos looks da linha.


























