A polémica em torno das declarações de Cristina Ferreira sobre um caso de violação continua a gerar reações, agora com Catarina Furtado a posicionar-se de forma crítica sobre o impacto de discursos públicos.

Dias depois da controvérsia em torno das declarações de Cristina Ferreira sobre o caso de violação de uma menor de 16 anos, Catarina Furtado decidiu quebrar o silêncio. A apresentadora recorreu às redes sociais para partilhar uma reflexão extensa, onde critica o impacto de determinadas mensagens públicas e alerta para a forma como podem contribuir para a normalização da violência de género.
Sem reagir “a quente”, como faz questão de sublinhar, Catarina Furtado começa por condenar o ambiente gerado nas redes sociais, marcado por ataques e insultos. “Critico fortemente todo o tipo de insultos gratuitos que se soltam em momentos destes”, escreveu, acrescentando que esse tipo de comportamento “em nada contribui para a reflexão”.
A apresentadora refere-se diretamente à origem da polémica, lembrando que “a frase que motivou a indignação colectiva e milhares de queixas na ERC foi dita por uma colega que tem a mesma profissão”, dizendo o nome de Cristina Ferreira de forma direta. Apesar de reconhecer que “errar em directo acontece” e que “pedir desculpa e tentar fazer melhor é sempre uma opção”, considera que o problema vai além de um deslize pontual.
“Não é intencional, é estrutural”, afirma, apontando para “uma postura machista que é abraçada por muitas mulheres” e que, na sua perspetiva, acaba por alimentar problemas mais profundos. “É de facto grave quando esse discurso é normalizado, porque isso contribui e muito para a banalização do crime, da violência, da desigualdade de género”, escreve.
Com mais de duas décadas de trabalho ligado a causas sociais e direitos humanos, Catarina Furtado sublinha a responsabilidade de quem comunica para o grande público. “Comentar assuntos seríssimos de cidadania e direitos humanos exige preparação, leitura de informação fidedigna e verificação de estudos”, defende.
Ao longo do texto, partilha ainda a sua experiência no contacto com vítimas e alerta para a realidade que continua a observar, sobretudo entre os mais jovens. “As meninas continuam mais desprotegidas” e há “rapazes [que] normalizam os seus comportamentos que evidenciam retrocessos gigantes”, nota.
A apresentadora vai mais longe ao afirmar que “frases públicas ambíguas sobre violência não são só frases infelizes”, uma vez que “a linguagem abre espaço, branqueia, legitima, normaliza”. Para Catarina Furtado, este tipo de discurso pode ter consequências diretas na forma como a sociedade encara temas como o consentimento e a igualdade.
Na chamada “vida real”, garante, o impacto é evidente e que “as meninas andam cada vez com mais medo”, escreve, defendendo que “a relativização da violência deve ser sempre confrontada”. E reforça: “Defender a vítima significa garantir que o crime não deve ser nunca normalizado através de uma retórica descuidada”.
A reflexão termina com um apelo à mudança de mentalidades e à responsabilidade coletiva – incluindo dos meios de comunicação –, deixando claro que não se trata de um ataque pessoal. “Gostava muito que esta minha reflexão […] não fosse interpretada como um ataque pessoal a uma colega de profissão porque, honestamente, não é mesmo”, sublinha. “Quero apenas contribuir construtivamente para uma mudança de mentalidades, também no meu meio profissional”, remata.

