ModaLisboa. Entre fatos e vestidos, Gonçalo Peixoto levanta questões sobre o futuro do trabalho manual

O designer português propõe uma reflexão sobre o futuro da criatividade numa era marcada pela Inteligência Artificial e explora o equilíbrio entre tecnologia e trabalho manual. Saiba tudo.

Vivemos tempos em que a Inteligência Artificial parece querer começar a infiltrar-se em quase todos os processos criativos. Por isso, Gonçalo Peixoto decidiu fazer aquilo que a moda faz sempre com frontalidade: assumir dúvidas. A coleção This is AI, apresentada na edição Pebbling da ModaLisboa, este sábado, 14 de março, nasce precisamente desse território de incerteza em que a reflexão é o ponto de partida.

À MAGG, o designer explica que a intenção nunca foi tomar uma posição definitiva sobre o impacto da Inteligência Artificial na criatividade, mas antes “que fosse o início de uma conversa sobre o que é que vai ser o futuro”, sublinhando que o objetivo da coleção não passa por dar respostas fechadas. “Quero que se discuta sobre isto e que se abra um debate”, frisa.

Esse espírito atravessa todo o desfile. A coleção constrói-se a partir de uma tensão entre os mundos da inovação tecnológica e da manualidade, assim como entre o da rapidez digital e o da paciência do gesto humano. Na prática, isso traduz-se numa série de peças que reafirmam precisamente aquilo que nenhuma máquina consegue replicar: “o trabalho artesanal”, adianta o designer.

Das rendas trabalhadas com o já habitual detalhe minucioso a penas “aplicadas uma a uma”, passando por aplicações feitas manualmente, há todo um universo que reforça essa dimensão quase tátil da linha. Uma das peças que Gonçalo Peixoto considera mais marcantes, um blazer superestruturado e curtíssimo, surge rematado com brilhantes aplicados à mão na bainha, o que condensa a filosofia do designer de que tecnologia pode inspirar, mas o valor da peça continua a nascer de mãos reais.

Há um lado humano que eu acho que não se pode perder“, explica. “Esta parte da Inteligência Artificial pode ser muito boa para o nosso trabalho, mas a parte manual tem de estar lá”, acrescenta. Aliás, a própria apresentação reforçou essa narrativa. Em vez do habitual arranque direto com modelos a desfilar, o público foi confrontado com um cenário inesperado que ajudava a contextualizar a história da coleção.

O espaço sugeria uma espécie de ambiente “híbrido”, situado algures entre um aeroporto e uma estação de trabalho, no qual figuras masculinas desempenhavam tarefas técnicas, sentadas ao computador, enquanto as modelos atravessavam o cenário com a mesma naturalidade de sempre. O contraste era deliberado e funcionava quase como comentário social, cuja intenção era, de acordo com Gonçalo Peixoto, provocar uma estranheza inicial.

Eu acho que, de vez em quando, é importante surpreender as pessoas“, diz, acrescentando que gosta de trazer para a moda temas muito ligados ao presente. Nesse sentido, a dinâmica criada no desfile, composta por homens a trabalhar e mulheres a ocupar o centro da ação, foi pensada como parte da narrativa.

Mas se o conceito revela um lado mais reflexivo do designer, a construção da coleção mostra também uma evolução clara na linguagem da marca Gonçalo Peixoto. Quem acompanha o percurso da insígnia reconhece facilmente alguns códigos, como a feminilidade marcada, as silhuetas que celebram o corpo ou o glamour contemporâneo, mas percebe também que há uma maturidade crescente na forma como esses elementos são trabalhados.

gonçalo peixoto
créditos: © ModaLisboa | Photo: Alexandre Azevedo

Um dos sinais mais evidentes dessa mudança é a redução das transparências, ainda que estas continuem presentes, não fossem elas uma assinatura recorrente das suas coleções. Desta vez, a aposta recai mais sobre silhuetas estruturadas, alfaiataria e peças com maior versatilidade no dia a dia, decisão que resulta também de uma escuta atenta das clientes e da forma como as peças são realmente usadas pelas mesmas.

“Os blazers são o nosso bestseller neste momento”, diz, acrescentando que é impossível ignorar aquilo que as clientes pedem. “Se me pedem fatos e blazers, eu tenho de ir atrás da minha cliente”, continua, dando até o exemplo de Margarida Corceiro, uma das suas amigas mais próximas, que é vista constantemente com os conjuntos do género, nos quais a marca tem vindo a apostar cada vez mais. Por isso, se antes fazia aquilo que lhe apetecia, hoje também há espaço para ouvir quem veste a marca.

No fundo, a linha funciona como retrato desse equilíbrio entre intuição criativa e maturidade profissional. É uma coleção que questiona o futuro da criatividade numa era dominada pela tecnologia, mas que o faz através de algo profundamente humano, como o gesto, o tempo e o olhar do criador. E talvez seja precisamente por isso que funciona tão bem.

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