Em três horas, 240 voluntários recolheram 270 mil beatas de cigarro do chão das ruas de Bruxelas. Andreas Noe viu este feito, aplaudiu e pensou: “Eu consigo fazer ainda mais”.

A consciência ambiental deste alemão de 31 anos há muito que está desperta. Afinal, é biólogo molecular e surfista, o que faz com que o contacto com mar — e o plástico que por lá se deposita — seja próximo.

Chegou a Lisboa há dois anos para trabalhar, mas rapidamente percebeu que estar num computador oito horas por dia não era atividade com futuro. Despediu-se em julho e começou a aproveitar mais a casa móvel na qual escolheu viver.

“As rendas em Lisboa tornaram-se insuportáveis e eu troquei a minha casa por uma autocaravana”, conta à MAGG. Desde aí que tem aquilo que chama “estilo de vida perfeito”, uma vez que consegue ter a casa sempre perto do seu local de trabalho. É que ainda que não receba um ordenado por isso, Andreas dedica agora o seu dia a dia a uma causa: limpar o mundo.

“Quando quero apanhar lixo da praia, estaciono em Carcavelos, quando quero fazer limpeza urbana, estaciono no Intendente. É perfeito”, resume.

Com este novo estilo de vida, Andreas criou uma página de Instagram na qual partilha, de forma divertida, a quantidade de lixo que todos os dias apanha do chão. “Eu gosto de toda a gente, não consigo apontar o dedo e dizer: ‘Ei, apanha o lixo do chão’. Então prefiro usar a minha música para passar a mensagem”, conta. É por isso que usa o seu ukulele ou acordeão para criar músicas com piada e, ao mesmo tempo, irónicas, mas sempre com o propósito de alertar para o lixo que cada um produz e que acaba depositado em locais impróprios.

Ainda que assumidamente apaixonado por Lisboa, começou a sentir que a sua missão tinha que saltar fronteiras. Não que não haja lixo suficiente para apanhar por cá, mas Andreas quer contaminar cada vez mais pessoas com este vírus de proteção ambiental.

The Cigarette Surfboard. O projeto que transforma beatas em pranchas de surf

Em setembro, começou na Alemanha uma viagem que passou já por França, Espanha, Portugal e que se prolonga até Marrocos. Ao todo, já recolheu quase 210 quilos de lixo, ainda que os números aqui sejam pouco importantes. “Eu posso recolher centenas de beatas e, no final, por ser um produto leve, isso corresponde a pouco peso”, explica.

E é por isso que para este sábado, 9 de novembro, Andreas mantém-se afastado dos números, mas próximo dos resultados. Propõe-se a fazer a maior limpeza urbana do mundo em Lisboa e, para isso, pede ajuda a quem se queira juntar “a esta loucura”, como lhe chama.

Andreas vai apanhar beatas do chão durante dez horas. Começa no Marquês de Pombal e, dependendo da ajuda que tem a longo do dia e que vai marcar o ritmo da limpeza, quer passar pela Avenida da Liberdade, Bairro Alto, Chiado, Intendente e Graça. O final está marcado para as 20 horas no Terreiro do Paço e aí Andreas propõe mostrar o resultado final do trabalho que espera ser feito por vários voluntários que se deixem contagiar pelo seu espírito. “Ninguém precisa de ficar comigo as dez horas. Fico contente com quem, ao ver-me passar, se junte por cinco minutos apenas, ou mesmo quem apanhe uma só beata”.

Por isso, se no sábado, 9 de novembro, andar por Lisboa e vir uma espécie de Pai Natal alemão que, em vez de prendas, leva no saco quilos e quilos de beatas, é o Andreas. Caso se junte à causa, além de sair de lá com a consciência mais limpa — tal como o chão — ainda pode ser protagonista do livestream que Andreas está a preparar para o Instagram. Mete ukulele e músicas com piada.