Web Summit

Web Summit. Está mesmo alguém a espiar-nos do outro lado do ecrã?

Há uma luz que acende quando a câmara do portátil está a ser usada, mas é possível desativá-la. Dois especialistas explicam quão reais são os riscos e se deve ou não preocupar-se.

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Cobrir as câmaras dos portáteis é um método cada vez mais popular. Mas vale a pena? Um especialista garante que "é melhor do que nada"

Samuel Costa/MAGG

Cobrir as câmaras dos portáteis é um método cada vez mais popular. Mas vale a pena? Um especialista garante que "é melhor do que nada"

Samuel Costa/MAGG

Junho de 2016. Mark Zuckerberg, CEO e fundador do Facebook, celebrava com a publicação de uma fotografia o facto de a rede social que criou no seu quarto da Universidade de Harvard, nos EUA, ter chegado aos 500 milhões de utilizadores ativos. Mais do que o marco atingido pela rede social, foi a fotografia de Zuckerberg que deu que falar, tendo até chegado a ser manchete de vários órgãos de comunicação social. A explicação? O facto de Zuckerberg cobrir a câmara do seu MacBook Pro, um portátil, com uma fita adesiva preta.

Se Mark Zuckerberg, programador informático e um dos criadores da rede social mais utilizada do mundo, tapa a câmara do seu computador, não deveríamos também nós, meros utilizadores, seguir o exemplo? A pergunta é cada vez mais pertinente. Especialmente numa altura em que as preocupações com a segurança informática parecem estar na ordem do dia.

Não é por acaso que um dos grandes nomes da edição de 2019 da Web Summit, a maior conferência de empreendimento e tecnologia na Europa, tenha sido Edward Snowden — o ex-analista da CIA que, em 2013, revelou o programa intrusivo e vigilância em massa do governo dos EUA.

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“Temos de ter consciência de que não é apenas informação que está a ser acedida e manipulada desta forma. São pessoas. A informação é das pessoas e, por isso, são as pessoas que estão a ser manipuladas”, disse Snowden para as mais de 70 mil pessoas que o quiseram ouvir desde a Rússia, onde se encontra exilado, e de onde falou em videoconferência.

Mas será que está mesmo alguém a espiar-nos do outro lado do ecrã? Faz sentido cobrirmos as câmaras e os microfones dos nossos portáteis e telemóveis ou é paranoia generalizada? E porque estar na Web Summit é estar rodeado de quem percebe do assunto, fomos perguntar a dois especialistas informáticos que se encontravam no recinto do Parque das Nações, em Lisboa.

José Pereira, CTO e co-fundador da Fyde, uma empresa americana especializada em segurança informática no contexto corporativo, embora conceda que hoje seja mais difícil estar alguém do outro lado do ecrã a ver-nos e a ouvir-nos, garante que é perfeitamente possível.

“Estou na área da segurança informática há dez anos e já trabalhei com pessoas que estiveram, precisamente, do outro lado do ecrã. Muitas faziam ferramentas que permitiam enviar um e-mail com uma hiperligação que, caso o utilizador a abrisse, comprometia de imediato o computador”, começa por contar.

"É perfeitamente possível que a câmara de um computador seja acedida sem que se saiba que isso está a acontecer", revela José Pereira

Samuel Costa/MAGG

As consequências são as que já se conhecem e que têm sido amplamente reforçadas por analistas e especialistas como Edward Snowden. “A partir daquele momento, seria perfeitamente possível aceder aos dados privados e sensíveis daquele utilizador e fazer coisas tão simples como ligar a câmara sem que ele soubesse o que estava a acontecer.”

Sobre a simples fita adesiva a cobrir as câmaras, diz que acaba por ser um método que dá algum conforto psicológico se a ideia for jogar pelo seguro. “É melhor do que nada”, remata, “até porque é perfeitamente possível que a câmara de um computador seja acedida sem que se saiba que isso está a acontecer. Nos portáteis da Apple, por exemplo, a luz verde acende sempre que a câmara é usada pelo sistema. Mas é possível desligá-la.”

Isto levanta problemas a vários níveis para José, já que o utilizador deixa de estar em controlo do seu equipamento e sente-se em risco constante de ver a sua segurança comprometida. Especialmente numa altura em que é “muito difícil desligar completamente”, e dá o exemplo em contexto mobile, com os novos smartphones de última geração.

“Em casos de extrema necessidade, será assim tão fácil desligar completamente da rede? É muito difícil porque, mesmo quando desligas um telemóvel, ele não está realmente desligado. No iPhone não consegues tirar a bateria. Há várias variantes que impedem essa desconexão.”

Apesar de considerar este tipo de invasões e ataques cada vez mais difíceis, pelo menos no que toca a utilizadores comuns, garante que se acontecem é porque há uma certa responsabilidade do utilizador alvo que, por um motivo ou outro, não está verdadeiramente consciente dos perigos do online.

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Por isso, recomenda: “É importante que os utilizadores saibam como podem ser atacados e de que forma é que se podem proteger. Atualmente, há cursos gratuitos e abertos a todo o tipo de utilizadores e que são muito úteis.”

Mas também ataca as empresas pela falta de cuidado na forma como apresentam a informação às pessoas: “Há termos e condições que, por serem tão longos, quase nunca ninguém os vai ler. Por isso, a mudança de paradigma e a aposta na preocupação pela preservação dos dados privados e sensíveis também tem de passar por aí”, explica.

Já Alexandre Santos, também presente na Web Summit e CEO da Santor, uma empresa canadiana especializada em segurança informática em contexto governamental, tem uma visão mais pessimista (embora prefira a palavra “realista”). Com um discurso assertivo, diz que “vivemos numa época de guerra económica em todos precisam de dinheiro para sobreviver”. E o problema é que há muitas empresas que sabem disso — produzindo aparelhos com microfones integrados.

“Até os relógios ou os óculos inteligentes têm microfones integrados. A informação é captada por voz que, depois, é tratada com inteligência artificial com o único propósito de ser comercializada. Afinal, a informação é o coração e alma de uma qualquer empresa”, adianta.

Alexandre Santos, CEO da Sandor, uma empresa especializada em segurança informática em contexto governamental. O novo aparelho da empresa encripta o som, distorcendo-o

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Isso permite-lhe afirmar, sem rodeios, que ninguém se pode considerar protegido. “As pessoas pensam que os microfones dos telemóveis só funcionam quando carregamos num botão, mas eles estão sempre a funcionar e a captar informaçãoe as empresas usam esta informação de uma forma muito simples. Se estiver em casa ao telefone e, em conversa, disser que era boa ideia pedir pizza, o mais certo é que a próxima publicidade que lhe surgir na internet seja a de um restaurante perto de casa que venda pizza.”

E continua: “A maioria não sabe como isto acontece, mas é simples: a voz foi captada durante aquela chamada e o sistema vende esta informação a quem pagar mais. Há sistemas muito inteligentes capazes de cruzar as palavras que foram ditas com as várias empresas de publicidade através da tecnologia avançada de reconhecimento de voz.”

Tal como José Ferreira, CEO da Fyde, também Alexandre Santos diz que é difícil confiar nas câmaras dos computadores e que são cobertos porque as utilizadores sabem que estão vulneráveis. “É um olho que está a ver tudo a toda a hora.”

Mas a questão complica-se quando Alexandre garante, sem medo de exageros, que não é possível estarmos seguros e confiantes nas soluções de segurança que nos são apresentadas. Porque, mais uma vez, não nos são dadas garantias de que essas mesmas empresas não possam usar a informação privada dos seus utilizadores de forma indevida.

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“Por vezes, algumas destas empresas podem estar ligadas ao governo de um determinado país e, por isso, é perfeitamente possível que o roubo dos dados aconteça.”

Mas, se assim o é, qual a solução, afinal? Alexandre responde sem rodeios: “A única forma de estarmos totalmente protegidos é não usarmos aparelhos com microfones, câmaras e que sejam capazes de estabelecer uma ligação com a internet. É a resposta mais honesta que posso dar.”

“Se existe um microfone, existe um ouvido que está à escuta. Se há uma câmara, alguém está a ouvir”, remata.

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