Superar uma traição não é fácil. Nem todos reagem da mesma forma, é verdade — há quem esqueça o que aconteceu partindo rapidamente para outra —, mas a maioria precisa de um esforço maior para virar a página. Afogar as mágoas em dois pacotes de gelado, umas batatas fritas e um filme de Nicholas Sparks (só para chorar mais um bocadinho) ajuda, mas não há nada como deixar o tempo fazer a sua parte. Com o passar das semanas as coisas vão-se recompondo e começamos a tolerar a possibilidade de uma nova relação.

E se é difícil desbloquear a ideia de “nunca mais vou conseguir confiar em alguém, vou ficar sozinha para sempre”, imagine quando começa de facto a envolver-se. O pior pode já ter passado, mas os desafios continuam. Agora, é preciso confiar outra vez noutra pessoa.

“A auto-estima está frágil, a desilusão impera e a confiança está comprometida”, explica o psicólogo Tiago Lino à MAGG. Mas, neste processo, a pessoa que está a conhecer também sofre: vê-se vitima de desconfianças sem motivo, tem de aprender a gerir as tentativas de controlo e sente dificuldade em gerir a informação. “Devo contar ou é preferível omitir?”, é, infelizmente, uma questão frequente.

A vontade de ajudar nem sempre se reflete na ajuda, isto é, às vezes não sabemos como devemos proceder e agimos, ainda que de boa vontade, no sentido contrário. Mas para que saiba exatamente o que fazer, o psicólogo Tiago Lopes Lino deixa algumas dicas. Há três tópicos essenciais de que não se pode esquecer.

Não minta nem omita — mas seja inteligente a escolher os momentos para falar sobre tópicos mais sensíveis

É importante que perceba que este não será um processo fácil. Com o receio de ser traído novamente, o seu parceiro vai tentar controlar tudo em dose redobrada. As “ações vão ser analisadas à lupa e tudo será motivo para esclarecer.”

Em todas as relações é importante que haja transparência e abertura, mas claro que, sabendo que existem marcas em determinados assuntos, vai evitá-los. Porém, essa não deve ser a medida a tomar. Segundo Tiago Lino, não devemos deixar de abordar os assuntos, “apenas temos de ter o cuidado de escolher o momento mais oportuno para o fazer.” 

Não faça promessas

A tendência será sempre tentar garantir que o que aconteceu no passado não se voltará a repetir nesta relação. Deve fazê-lo, mas não através de promessas que não pode cumprir.

A tendência de querer compensar a vulnerabilidade do outro e resgatar o sofrimento é comum, explica o psicólogo à MAGG. Mas querer prometer que nunca nada daquilo se vai repetir e usar frases como “comigo não vais passar por isso” não é a melhor estratégia.

“No tempo e no espaço, iremos distorcer alguma verdade e a pessoa com quem nos estamos a relacionar vai perceber e, implacavelmente, irá cobrar-nos”.

Em vez disso, sente-se com o seu companheiro e falem abertamente sobre o tema. A traição é sempre uma possibilidade e um assunto que, ainda que sensível, deve fazer questão de tocar. “Falar dos fatores que poderão levar alguém a trair é favorável aos relacionamentos, pois indica-nos como podemos agir para evitar situações constrangedoras”, explica Tiago Lino.

Aja com naturalidade e seja tolerante

A traição está presente diariamente, mesmo fora das relações: “O chefe que nos prejudicou depois de termos sido exemplares, o amigo que nos trocou pelo programa mais divertido ou o familiar que contou coisas sobre nós que não eram verdadeiras”, afirma.

Ainda assim, é importante reforçar que o avanço e a recuperação dependem da vontade de cada pessoa. Neste sentido, o seu papel será apenas o de ajudar e não piorar a situação.

Para que as coisas se tornem num processo natural e de progresso, “aja com sinceridade e naturalidade, não oculte nada mesmo que o assunto seja duro, não minta, seja compreensivo e tolerante.” Se mesmo assim perceber que as coisas não vão resultar e que isso também o está a deixar pior, “dê espaço ao outro pois poderá não estar ainda preparado para amar novamente.”