Acordar a pensar no pequeno-almoço, comer o pequeno-almoço enquanto se pensa já no almoço ou até no que vai ser o jantar. Os portugueses são assim: passam o dia a pensar no que vão comer, até porque é à mesa que se continuam a fazer muitos negócios ou que se junta a família.

Para celebrar esta ligação que os portugueses têm com a comida, não há melhor altura do que o Dia Mundial da Alimentação, que se celebra anualmente a 16 de outubro. Já passaram 38 anos desde que foi marcada esta data no calendário — em 1981 —, por isso fomos tentar perceber o que mudou na forma como comemos.

Quem é da década de 80 lembra-se certamente de pequenos-almoços à base de papas Cerelac ou o Nestum, de levar para a escola um Capri Sun ou de verem os pais comerem torradas com azeite.

Estes eram alguns hábitos que dependiam de família para família, claro, mas eram frequentes em muitas famílias. Na década de 80, o geral da população fazia cerca de quatro refeições por dia. Os portugueses não eram cá de modernices, como as papas de aveia ou as tostas de abacate, por isso os alimentos mais consumidos eram simples e incluíam a batata, o pão, as gorduras líquidas (como o azeite) e o açúcar. Este era o quotidiano alimentar dos portugueses, de acordo com o primeiro Inquérito Alimentar Nacional.

Nesta altura também os produtos industrializados continuavam a chegar a um ritmo estonteante. Desses, alguns persistem ou foram renovados.

Mas toda a evolução foi ditada pela forma como se praticava a agricultura e como a informação cientifica chegava até à pessoas. Para perceber o que é que mudou desde os anos 80, a MAGG falou com o engenheiro Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), e com Ana Rita Lopes, coordenadora da unidade de nutrição no Hospital Lusíadas Lisboa.

Como funcionava a produção?

“Portugal produzia menos azeite do que produz hoje, menos frutos secos, menos tudo”, começa por dizer à MAGG o engenheiro Luís Mira, secretário-geral da CAP. Foi precisamente na década de 80 que as máquinas começaram a dominar o setor agrícola, o que permitiu aumentar a produção — no caso do leite e do tomate industrial, por exemplo, em quase 40 anos duplicou.

Aquilo que separa a década de 80 dos tempos modernos está, por isso, na evolução que agricultura sofreu nos âmbitos da produtividade e da maior eficiência na utilização de recursos como a água, os inseticidas, os pesticidas, os adubos.

“Aliás, aquilo que o Ministério da Agricultura dizia como um conselho de boas práticas nos anos 80 — o chamado ‘guia de prudência’ que passava na televisão — dizia que o agricultor, quando usasse os pesticidas, devia queimá-los e enterrá-los. Esses conselhos do Ministério da Agricultura, na altura em que não havia sequer Ministério do Ambiente, são hoje crimes ambientais. Acho que este exemplo demonstra a evolução”, explica o engenheiro Luís Mira.

Há outro fator que não existia há 38 anos: a rastreabilidade dos alimentos. “Hoje, em Portugal, sabemos onde nasceram todas as vacas, ovelhas e cabras, todos os movimentos que tiveram durante a sua vida até ao dia do abate e todas as doenças que tiveram. Isso dá uma garantia em termos de segurança alimentar que nunca houve”, explica Luís Mira.

Este é também o resultado de um consumidor mais exigente. Se antes a população portuguesa apenas se importava com o facto de os alimentos serem bons do ponto de vista organolético (apelativos em termos de cor, brilho, odor, sabor e textura) e de não fazerem mal à saúde, hoje adiciona-se a estes fatores a preocupação dos consumidores com o impacto da produção no ambiente.

Os pratos aumentaram. Porquê?

Que as calorias consumidas pela população aumentaram, não há dúvidas. Prova disso são os crescentes casos de obesidade em Portugal que, de acordo com uma investigação da Direção-Geral de Saúde (DGS), fizeram com que anos mais tarde surgissem políticas específicas sobre este problema.

Mais calorias são também significado de pratos maiores, quer em casa, quer na rua. Isto porque o fast food também aumentou as porções ao longo dos anos — e hoje até há cadeias que disponibilizam um menu grande ou extra grande.

Se há 20 anos um cheeseburger tinha 333 calorias, neste espaço de tempo aumentou para 590, de acordo com os últimos dados da “The Obesity Action Coalition”. E se um bagel tinha antes três centímetros de diâmetro (e 140 calorias), em 2016 tinha mais de três centímetros e um total de 350 calorias.

Os padrões alimentares também mudaram e se hoje verifica-se um esforço para diminuir o consumo de carne por razões principalmente ambientais, “diria que na década de 80, uma família com rendimento médio, que tentaria proporcionar aos seus filhos o melhor, incluía uma a duas refeições de carne por semana. Hoje as pessoas tentam equilibrar mais a alimentação com frutas, vegetais e reduzir os açucares”, explica o secretário-geral da CAP.

Ainda sobre a carne, Ana Rita Lopes, coordenadora da unidade de nutrição no Hospital Lusíadas Lisboa, refere à MAGG que, de acordo com os dados de um estudo realizado pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) — o primeiro estudo em larga escala sobre os hábitos alimentares da população portuguesa —, era nas cidades que se consumia mais carne, com maior incidência nos distritos de Évora, Lisboa, Portalegre, Santarém e Setúbal.

A mesma investigação revela ainda que na época havia grandes contrastes regionais: “No campo consumia-se muito menos leite do que na cidade. Carne, peixe e fruta também registavam menores consumos no meio rural, e o mesmo acontecia com os produtos hortícolas”. Mas já o pão, apesar de nunca faltar em qualquer mesa portuguesa, registava um maior consumo nas cidades.

Também havia mitos nos anos 80 — só não se falava da água morna com limão

Também nesta altura os havia. Só não existiam coisas como beber em jejum água morna com gotas de limão para emagrecer, nem tão pouco se discutia se os ovos aumentavam o colesterol.

Na década de 80, aquilo de que já se falava era da manteiga: “Neste período houve umas modas. A manteiga fazia mal e a vegetal é que era boa. Depois os cientistas chegaram à conclusão de que afinal a manteiga é que era boa e que a sardinha também porque tem ómega 3”, lembra o engenheiro Luís Mira.

É por isso que, como refere o estudo do INSA, citado pela nutricionista Ana Rita Lopes, “nem todas as gorduras entravam nos hábitos alimentares dos meios rurais. O azeite, a banha e o toucinho tinham mais procura do que a manteiga, a margarina e os óleos”, dizem os dados.