Os leitores perguntam, a psicóloga Sara Ferreira responde. É assim todas as semanas. Saúde, amor, sexo, carreira, filhos — seja qual for o tema, a nossa especialista sabe como ajudar. Para enviar as suas perguntas, procure-nos nos Stories do Instagram da MAGG.

Caríssimo leitor,

Shhhhh…! Nem precisa dizer mais nada. Acho que sei  – ou melhor, tenho a certeza – qual será para si o pior dia da semana: segunda-feira?

Mas espere. Essa história, estou certa também, começa um pouco antes. Mais precisamente no domingo, em especial no domingo à noite, quando o leitor começa a ficar nauseado com a ideia de que tem que se levantar cedo para começar mais uma semana de trabalho.

Deixe-me dizer-lhe desde já uma coisa: o leitor não está sozinho. Longe disso. O leitor simplesmente parece fazer parte da estatística mundial que diz que mais de 70% dos seres humanos à face da Terra estão insatisfeitos com o seu trabalho. Assim, estas linhas são para si, mas também para muitas outras pessoas cujo pior dia da semana é declaradamente a segunda-feira (facto científico). Portanto, este é um assunto que – literalmente – tira o sono a muito boa gente, aliás, cada vez mais. Que tristeza.

Tenho familiares e amigos tóxicos. O que é que posso fazer para lidar com isso?

Como uma pessoa comum gasta cerca de 90 mil horas de trabalho durante a vida, diria que é importante descobrir como sentir-se melhor com o tempo que você gasta para ganhar a vida, concorda?

O leitor não só não gosta, como o-d-e-i-a (ui, olhe a “má onda”…) o seu trabalho, sendo que fácil também é adivinhar que o único dia em que talvez se sinta feliz é à sexta-feira. Os contornos da sua questão ficam (ainda) mais delicados quando associado ao facto de “odiar” o seu trabalho ,o leitor diz sentir não ter coragem de mudar (ou seja, pedir demissão, é assim?).

É aí que a coisa fica difícil mesmo. Mas tenha calma! Prometo-lhe que sairá hoje daqui com um sorrisinho de esperança no seu rosto (e no final, ainda começará a dormir melhor, vai ver).

As vias que lhe irei sugerir valem para si como para toda a (não grande, gigantesca) maioria silenciosa de pessoas, conforme disse, que se encontra na mesma situação de “odiarem” o seu trabalho e não terem a coragem/possibilidade/oportunidade/capacidade/tudo- isto-existe-é-triste-e-é-fado de sair.

Então, quem quiser entender porque é que atualmente “odeia” o seu trabalho, e quais são as alternativas possíveis para que possa fazer as pazes com o ele (pelo menos, de forma a que não precise pedir demissão imediatamente), venha daí, puxe uma chávena de qualquer coisa quentinha (para mim, pode ser um café – que é algo que adoro –, por favor) e vamos a isso.

A primeira coisa que lhe proponho que faça é o seguinte.

1. Analise o seu momento atual

Ou seja, faça uma avaliação em relação ao momento presente, em relação ao seu trabalho. Quais são os verdadeiros motivos que fazem com que o leitor odeie o seu trabalho? Será que têm que ver com a empresa? Ou será o trabalho em si? Serão os seus colegas de trabalho?

Por outro lado, será que o facto de o leitor não estar feliz neste momento tem que ver única e exclusivamente com o trabalho ou também poderá ter que ver com a sua vida? Explico.

Quando não estamos felizes com a nossa vida (pessoal, leia-se), ou porque estamos insatisfeitos por diversos motivos (não sei, talvez porque, por exemplo, “eu” gostaria de seguir uma carreira que não é a que estou a seguir; ou porque gostaria de fazer uma formação e ainda não tenho condições para isso; ou talvez porque gostasse de ter algo e não tenho, enfim) isso pode refletir-se na relação que temos com o nosso trabalho. Os motivos poderão ser inúmeros, logo é-me impossível a mim especificar qual poderá ser o seu. Mas o leitor pode!

Depois que avaliou o seu momento atual, provavelmente já terá chegado a algumas conclusões. Caso tenha verificado que o problema está no seu trabalho mesmo, o leitor precisará antes de tudo ter uma estratégia para sair. Assim, a minha segunda dica para si é esta:

2. Adopte uma estratégia, porque para mudar é preciso coragem, mas acima de tudo, planeamento

Existe ainda alguma coisa que o leitor possa aprender no seu atual trabalho? O que é que pode desenvolver, aprimorar, expandir, explorar? Existem projetos que possam tornar o seu trabalho mais interessante ou que o façam estar em contacto com outras pessoas, outras áreas? Seria importante (e interessante) investigar, não?

Ok. Nada disto. A insatisfação prevalece? Muito bem, sigamos para o plano de ataque mais hardcore e arriscadamente infalível para se por a mexer.

3. Faça um planeamento de pelo menos 6 meses para garantir o seu “colchão financeiro”

O dinheiro que coloca de parte e que poderá estar ao seu dispor como reserva/segurança financeira que lhe permita viver autonomamente durante pelo menos este período de tempo, 6 meses) e preparar-se para novas oportunidades no mercado de trabalho.

É importante que se dê um prazo de, pelo menos (no mínimo) uns 6 meses para que possa planear e preparar-se para sair do seu atual emprego. Este planeamento serve não só do ponto de vista financeiro (para respaldar-se financeiramente, para prevenir sustos) como também para lhe permitir reavaliar o mercado, ver qual é a “temperatura” dele (se há vagas ou não dentro da sua área), se as coisas estão aquecidas.

Vivemos num tempo que impele à cultura do imediatismo. Todos nós, a diferentes níveis, somos muito imediatistas e por vezes não fazemos planeamentos seguros, não temos estratégias, acabamos por tomar muitas decisões por impulso e sem avaliar muito bem as coisas no seu cômputo mais geral.

E já que falamos em “avaliar”, a minha próxima dica poderá ser, talvez, uma das etapas mais difíceis a realizar, e é o quê?

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4. Avalie qual tem sido a sua postura e atitudes no ambiente de trabalho

E porquê? Porque talvez (just saying!) isso também poderá estar a tornar-se insatisfatório neste momento. Por exemplo, como é que está a sua relação com os seus colegas? Qual é que é a sua postura em relação a conflitos? O que é que, na verdade, o pode estar a prejudicar?

O facto do leitor odiar o seu trabalho faz com que descure as suas responsabilidades ou faça o trabalho de qualquer maneira porque no fundo apenas “reza” para que alguém o mande embora?

Se esta é a estratégia, meu amigo, nã nã nim na não. Eu sei que é tentador, não é? Mas não é bom e vou dizer-lhe porquê.

Quando nós não honramos as nossas responsabilidades profissionais no atual emprego – mesmo odiando-o de morte – isso faz com que uma pessoa se queime. Porque, por hipótese, por melhor profissional que o leitor seja, se faz tudo de qualquer maneira só para ser mandado embora, saiba que o mercado de trabalho é um ovo. Aliás, é uma ervilha. As pessoas comunicam entre si (seja um ex-chefe ou um ex-colega a quem tenha prejudicado, e que mais à frente pudesse reencontrar numa nova oportunidade de trabalho, por exemplo) e isso poderia, no futuro, não abonar nada a seu favor, a vários níveis.

Por isso, por mais que o leitor não goste do seu trabalho, honre as suas responsabilidades pelo tempo em que ainda lá estiver, e a isto chama-se profissionalismo (sempre).

Fernando Pessoa dizia: “Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive.”

Ou seja, o leitor pode até nem fazer o que gosta, mas “goste” do que faz! E para isso a próxima dica também poderá ajudar.

5. Priorize o trabalho que lhe dê uma sensação de propósito

Ou pelo menos, alguma noção de sentido ou significado. A verdade é que todos nós queremos um trabalho significativo, no entanto, o significado raramente nos é dado. Cabe a si mesmo fazer a conexão entre aquilo que faz todos os dias e aquilo que valoriza – e isso exige reflexão e esforço deliberado (já para não falar de um mínimo indispensável de auto-conhecimento que é necessário ter).

Para isso, mantenha um registo diário dos seus projetos e tarefas, anotando quais os que o leitor considera satisfatórias (e quais são gratificantes apenas a curto prazo). Por exemplo, você sente-se satisfeito ao fazer apresentações para os clientes? Você fica energizado ao orientar e treinar colaboradores mais novos? Em seguida, na medida do possível, priorize o trabalho alinhado com os seus valores. Se ajudar as pessoas a crescer faz parte da sua identidade profissional, faça da formação, por exemplo, uma das suas actividades semanais.

Se o auto-desenvolvimento é um valor essencial, faça com que escutar podcasts, por exemplo, ou fazer um curso online seja um ritual diário. E converse com colegas sobre de que forma você está a priorizar o trabalho significativo. Ouvir sobre os esforços de outras pessoas irá ajudar também a que se concentre no que mais importa.

6. Outra coisa que o leitor pode ainda fazer é criar metas para a sua carreira

Muitas vezes nós escolhemos a nossa carreira aleatoriamente. Ou porque alguém disse que era bom ou porque estamos a precisar de dinheiro e lançamo-nos à primeira coisa que aparece, e então nós não avaliamos muito bem as condições, ou nem sequer lemos os detalhes da vaga a que nos candidatamos. Muitas vezes, também não pesquisamos sobre a empresa ou focamo-nos só no valor do vencimento ou benefícios, e quando chegamos para trabalhar, no convívio diário, é que vemos que não é assim tão bom, etc. e tudo isso é também falta de planeamento e de ter metas para a sua carreira (algo fundamental para qualquer nível).

Sabe aquela perguntinha indigesta que as pessoas em geral a-d-o-r-a-m (só que não!), durante a entrevista de emprego, em que lhe questionam “onde é que se vê / quer estar daqui a 5 anos?”.

Meu querido, esta pergunta não é só para o emprego, esta pergunta é para vida!!

Muito antes de a responder perante o recrutador, todos nós deveríamos respondê-la perante nós mesmos. “Onde é que eu quero estar daqui a cinco anos?” Será que a fazer o que por agora me encontro a fazer, ou será que gostaria de galgar outras áreas, outras promoções? Uma vez mais, planeamento aqui é a palavra de ordem.

Acha que vale a pena esperar cinco anos para tomar essa decisão? Muitas vezes, esperamos chegar ao limite da insatisfação (odiando muito o que nós fazemos) para tomar alguma atitude. Infelizmente, só depois que a situação se torna insuportável é que as pessoas, geralmente, se decidem mexer. E não precisa ser assim.

O leitor já é suficiente na sua vida, olhe de verdade para trás, lembre-se da criança que foi, não importa se ainda não chegou ao pódio do que realmente quer (já agora, sabe o que quer?), você sempre esteve com a medalha ao peito. Isto não é um convite ao conformismo, mas à apreciação e à gratidão, coisas raras em tempos de insatisfação crónica coletiva.

Por último, procure por oportunidades melhores dentro da sua própria empresa.

7. Participe de processos seletivos dentro da empresa e/ou veja oportunidades em outros setores

Às vezes, o “problema” não é a empresa e nem o trabalho em si. Muitas vezes, o foco “simplesmente” pode estar errado. Por exemplo, pode estar numa área em que não é desafiado, e acaba por tornar-se improdutivo, sem conseguir por em prática as suas habilidades ou interesses particulares. Ao poder observar os processos de recrutamento dentro da sua empresa, quem sabe, o leitor pode candidatar-se a uma outra área, na qual poderá ser mais desafiado ou motivado para aprender/crescer.

Isso poderá ser importante porque assim previne aquela maldita dor de cabeça por conta do “peço demissão ou não?” ou “como será que está o mercado de trabalho?”, o que o coloca num mar de incertezas. Assim, comece a olhar para dentro da sua empresa se existe (ou não), de facto, essa possibilidade.

E para isso é fundamental conversar com o seu chefe, ou supervisor, ou coordenador, enfim, converse. Tenha uma conversa franca e honesta (sem revoltas ou choraminguices), na qual você não precise ter medo de falar com ele, desde que… o leitor se prepare também. Aqui, de novo, do que é que falamos? Planeamento. Para além de que, para o seu chefe, é uma boa ideia, seguramente, ter colaboradores mais motivados e que possam com isso trazer resultados positivos para a área.

Bom, se mesmo assim, já depois de ter percorrido este longo corredor de possibilidades, o leitor continuar a odiar o seu trabalho (neste momento já roxo e a desgrenhar-se em frente ao seu ecrã), o melhor e o mais interessante a fazer será sair da empresa mesmo.

Reveja o que é mais importante para si. Pondere o peso de ficar e o peso que sair também poderá acarretar mas sempre com os 3 P’s em mente: Preparação, Planeamento e Porra-Preciso-Por-me-a-Pensar (esta, porém, não está cientificamente testada), ok? 😉

Faça o que fizer, faça-o com estratégia e atitude inteligente.

Capacite-se se isso o ajudar a fazer essa transição. Existem inclusive plataformas online que disponibilizam cursos gratuitos na Internet.

Ah, só mais uma coisinha (esta também, diria, fulcral). Ouça os sinais de alerta do seu corpo. Os estudos dizem que ninguém aguenta mais do que 20 meses num trabalho que não gosta. Sabe, é que o corpo e a mente pagam. E isso tem um nome: burnout.

Neste artigo que escrevi aqui na rubrica “A Psicóloga Responde”, apresento-lhe algumas estratégias para combater o fluxo de pensamentos ansiosos que levam ao stress com o trabalho e à famigerada síndrome de burnout.

Estou sempre stressado com o trabalho. Como é que posso deixar de me preocupar tanto?

Não viva para ser feliz apenas durante um dia da semana. A vida é muito curta para se sentir permanentemente infeliz. E a sua vida é demasiado poderosa para se limitar a isso. Viver (ou melhor, apenas sobreviver, ou será antes sub-viver?) à luz (apagada) disso seria puro nonsense insano. Porque o recibo que nós damos é muito barato em relação ao dom que nós recebemos de estarmos vivos!

E se já sofre no domingo à noite ao imaginar a semana que está por vir (agoniando secretamente a tentar descobrir como irá sobreviver a isso…), precisa urgentemente de repensar onde está e o que é que está a fazer com a sua vida.

Como coragem não se vende em farmácias, caro leitor, aproveite para mesmo assim mudar de alguma forma a sua situação profissional através de algo que lhe fará igual proveito, neste caso, que é – como percebeu – um bom planeamento. Na verdade, isso é tudo.

Leia e releia estas dicas e, acima de tudo, reflita sobre o que poderá fazer para ressignificar esse seu trabalho, de forma a criar oportunidades, desenvolver novas competências, saber criar estratégias, preparação, planeamento e preparar-se para um novo trabalho se for caso disso, e se tiver chegado de facto a hora certa de pedir demissão.

Não sei se o leitor chegará a mudar (de trabalho), mas de uma coisa tenho a certeza. Se começar por mudar a frase “odeio o meu trabalho” para “como gostar do meu trabalho?” a sua realidade – garantidamente – já começa a mudar. E porquê?

Porque podemos não escolher tudo o que acontece connosco mas podemos escolher sempre como vamos ver as coisas. Nós temos a capacidade de inserir perspetiva numa situação. Não podemos mudar os obstáculos, mas o poder da perspetiva pode mudar a aparência do obstáculo.

Cada aspeto do que passou pode ser uma ponte para uma história diferente a partir de agora. Ressignificar nada mais é do que a capacidade de olhar para a mesma história com outros olhos. Porque quando mudamos a forma de ver as coisas, as coisas mudam de forma.