Corpo

Cirurgias estéticas em adolescentes. "Nestas idades, há pouca maturidade para saberem o que querem"

Há cada vez mais jovens a quererem colocar implantes mamários ou aumentar os lábios. Quais os riscos físicos e psicológicos? Uma especialista explica.

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Há cada vez mais mulheres jovens a quererem alterar o corpo

Pexels

Há cada vez mais mulheres jovens a quererem alterar o corpo

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As cirurgias plásticas são uma tendência cada vez maior, e as alterações cosméticas ao corpo normalizaram-se nos últimos tempos, deixando os tabus de lado. Se há 20 anos aumentar o tamanho das mamas era um assunto que se tentava esconder ao máximo, hoje em dia já são poucas as mulheres que não admitem as mudanças que fizeram no corpo.

As cirurgias de aumento mamário são uma das intervenções estéticas mais populares entre a população mundial, bem como o aumento dos lábios (erradamente referido como botox, sendo o termo correto falar de um preenchimento com ácido hialurónico), entre outros.

Quer seja devido a referências da cultura pop, como Kylie Jenner, por exemplo, conhecida pelos seus lábios carnudos, ou pelo desejo de um corpo perfeito e de corresponder a padrões de beleza, cada vez mais jovens adolescentes, com idades tão jovens como 16 anos, já querem mexer no corpo. Mas quais são os riscos?

“Não existem propriamente riscos para o corpo em termos de saúde ou desenvolvimento”, diz à MAGG Ana Silva Guerra, cirurgiã plástica, referindo-se a cirurgias como aumentos mamários ou preenchimento dos lábios, para que estes aumentem de volume e fiquem com um contorno mais definido.

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No entanto, a especialista não tem por hábito operar jovens na adolescência, quando “o corpo ainda está em desenvolvimento e não é mesmo necessário interferir naquele organismo”.

Há cada vez mais adolescentes a quererem mexer no corpo

Tal como explica Ana Silva Guerra, as assimetrias mamárias são um exemplo de uma intervenção necessária: “Isto pode ser muito dramático, quando temos uma mama bem desenvolvida e a outra praticamente não existe. Esta situação tem um impacto psicológico muito grande e as jovens não querem esperar muito. Os próprios pais são os primeiros a trazê-las à consulta e a tentar perceber o que se pode fazer”.

Ana Silva Guerra é cirurgiã plástica na clínica Ana Silva Guerra, em Lisboa

Outra situação necessária é quando ocorre uma gigantomastia, “quando as mamas são enormes, continuam a crescer, e têm um forte impacto na vida da adolescente, podendo ser devastador do ponto de vista psicológico”. Mais: quando esta situação não é tratada, com a chegada aos 30 anos, as mulheres podem sofrer grandes impactos na saúde da coluna.

Fora estas indicações, Ana Silva Guerra acredita que “aos 16 anos, por exemplo, a maturidade psicológica ainda não foi alcançada, e essa mesma maturidade tem de ser respeitada”. Tal como explica a especialista, “se recebo uma jovem com uma hipoplasia mamária, um mama pequena, que quer aumentar, recomendo calma”.

Para a cirurgiã plástica, deverá existir mais maturidade para avançar para estes procedimentos, e prefere esperar até aos 18, 19 anos, no mínimo, apesar de reconhecer que existem “cada vez mais jovens com 16 anos” a quererem realizar estas operações.

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“Já me aconteceu ter pedidos de raparigas jovens, seja de aumentos mamários ou de preenchimento dos lábios, mas tento sempre perceber o contexto do que se passa, se é um gosto, um sonho da adolescente. Como já disse, não concordo com este tipo de tratamentos em idades tão jovens, a não ser que seja para tratar algo mesmo necessário. Nestas idades, há pouca maturidade para saberem o que querem e um desenvolvimento a todos os níveis. Há tempo para amadurecer ideias”, salienta Ana Silva Guerra.

A especialista reforça também que todas estas intervenções de alteração do corpo, sejam implantes ou tratamentos no rosto, têm um forte componente psicológico associado: “Tudo isto tem de ser muito bem avaliado, é preciso perceber o risco de, ao operar, estarmos a fazer pior do que melhor. Falando dos adolescentes, não fazer nada pode ser a melhor opção”.

Os pais têm de ser envolvidos na decisão

Para Ana Silva Guerra, não existem dúvidas.”Perante a minha forma de trabalhar, não toco em nenhuma adolescente com menos de 18 anos, seja para o que for, sem a aprovação dos pais, e sem uma conversa a explicar o procedimento, os riscos, o contexto”.

Mais: mesmo quando os pacientes já são maiores de idade mas continuam jovens, a especialista faz questão de contar com a presença dos pais. “Se tenho à minha frente uma jovem de 19 anos a querer aumentar as mamas, pergunto logo pelos pais. Eu sei que estamos a falar de pessoas maiores de idade, mas acho importante”.

A cirurgiã plástica refere que considera este acompanhamento importante para que o tratamento seja bem sucedido, “para que a pessoa fique satisfeita e que não seja nefasto para a saúde de ninguém”.

Os homens também recorrem a intervenções estéticas

Apesar de as intervenções estéticas deverem ser ponderadas com calma, não existindo uma situação alarmante a tratar, Ana Silva Guerra refere que existem condições mais propícias para alterar o corpo em idades mais jovens  — ou seja, a partir dos 20 e poucos anos.

“Quando falamos de uma jovem mulher na faixa etária entre os 20 e os 30 anos, falamos de pessoas que já concluíram os estudos, começam a trabalhar e a ter algum poder económico, que começam a olhar para o corpo, identificam aquilo com que não estão satisfeitas e que querem mudar”.

A especialista explica que, nestas idades, “é possível que ainda não tenham uma vida familiar estruturada em termos de filhos, responsabilidades familiares, entre outras, e para passar pelo período de recuperação, estas condições são mais propícias para fazer uma intervenção do género, porque não existem tantos entraves e condicionantes”.

Esta faixa etária também é propícia para muitos homens optarem por intervenções estéticas. “O que os leva ao consultório são as ginecomastias, que se traduz no aumento da glândula mamária nos homens. Esta situação pode ser muito incómoda no ginásio, a correr, a usar roupa mais justa que evidencia o corpo. Estes homens jovens querem ter um corpo atraente e hoje em dia têm menos medo de ir ao médico, e acabam por não hesitar em corrigir a situação”, explica Ana Silva Guerra.

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