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"Joker". Filme não inspira à violência, mas devia inspirar-nos a lidar melhor com potenciais vilões

Nelson Nunes, escritor e jornalista de formação, diz que "Joker" mostra um vilão antes de o ser, precisamente porque ninguém nasce mau. E deu-lhe 5 estrelas. Leia a crítica.

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"Todd Phillips [realizador e argumentista] atira-nos à cara um dos maiores problemas da sociedade contemporânea: marginaliza-se a doença mental"

Warner Bros. Pictures

"Todd Phillips [realizador e argumentista] atira-nos à cara um dos maiores problemas da sociedade contemporânea: marginaliza-se a doença mental"

Warner Bros. Pictures

As notícias da manhã desta quinta-feira, 3 de outubro, dão conta de um pedófilo de 27 anos, do Cacém, que se dirigiu a uma esquadra da polícia, pedindo que o prendessem. Tem a consciência de que possui um problema mental que poderá fazê-lo abusar de crianças e, como mecanismo de prevenção, solicitou que o mantivessem longe da sociedade.

Num evento aparentemente sem relação com este, definiu-se nos Estados Unidos que a exibição do filme “Joker” teria de ter medidas de segurança reforçadas, não apenas por causa do estigma habitual com a liberalização das armas, mas também por haver um histórico de tiroteio em massa numa exibição de um filme do universo do Batman. Contudo, a principal justificação era a de que o filme poderia inspirar um ato de violência, por glamorizar um psicopata.

Em que é que tudo isto pode relacionar-se com uma obra cinematográfica? Em tudo e em nada. Primeiro, não há provas definitivas de que uma peça cultural possa servir de inspiração a atos de violência, mesmo que tenha já havido relatos de perpetradores que fossem ávidos consumidores de um determinado estilo musical ou videojogo (Anders Breivik, por exemplo, treinava as suas habilidades de tiro no Call of Duty e a cena de black metal norueguês teve em Euronymous a sua vítima mais emblemática).

O novo “Joker”. O homem que se tornou num vilão perverso empurrado pela sociedade

Mas, caso pudéssemos afirmar com elevado grau de certeza que uma obra cultural poderia servir de inspiração para infligir sofrimento noutras pessoas, então a Bíblia já teria sido banida há algumas centenas de anos.

A lucidez do pedófilo do Cacém é impressionante e enternecedora: aquela pessoa parece saber de antemão que a marginalização de que seria vítima, aliada à sua patologia, poderá vir a desencadear violência para com crianças. Esta pessoa sabe que não é má, mas que poderá vir a ser má. Esta é, também, a grande lição de “Joker”.

Ao contrário do que é habitual nas narrativas unidimensionais, seja em filmes de super-heróis ou não, onde vingam as lógicas bonzinhos vs malvadões, “Joker” mostra um vilão antes de o ser. Porque ninguém nasce mau.

No início do filme, Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) nunca poderia perpetrar os atos maníacos que virá a cometer enquanto Joker. Porque ainda é um desgraçado, e ainda não sente a incompreensão do mundo hostil, que pouco faz para empatizar e demonstrar compaixão para com os que não têm privilégios sociais ou económicos, mas acima de tudo para com quem padece de um determinado diagnóstico de doença mental.

“O pior de ter uma doença mental é que as pessoas exigem que nos comportemos como se não as tivéssemos”, diz uma página do diário de Joker. É essa a luta do vilão que, para nós, espectadores, é herói.

Nelson Nunes, autor de livros como "Quem Vamos Queimar Hoje?", diz que a vitória do filme está na capacidade de "transformar um dos maiores vilões da história da cultura pop numa personagem densa"

Carla Oliveira/MAGG

Este não é um filme clássico de super-heróis. É um filme sobre um ser humano, e nós vivemos dentro da sua cabeça, entendendo as suas lutas, as suas derrotas e a espiral de desespero a caminho de um descolamento absoluto da realidade.

Quem for ver este filme, não pode esperar as explosões de Christopher Nolan nem as patacoadas de Tim Burton. Este filme é cinema de autor, contra tudo aquilo a que Hollywood nos habituou, com muitos momentos de desorientação, muitos momentos de aprofundamento de personagem, muita compaixão para com o homem que se transforma no psicopata que todos conhecemos como némesis de Batman, tudo demonstrado com subtilezas de cinematografia.

A grande vitória do filme de Todd Phillips, realizador e argumentista, é precisamente transformar um dos maiores vilões da história da cultura pop numa personagem densa, com motivações claras para ser mau, não obstante as breves nuances de bondade que ainda ali vivem.

Porque um mau não é só mau, e um bom não é só bom. Os bons também são maus — como o filme tão bem o prova, não posso dizer porquê — e os maus também sabem ser bons.

Ao mesmo tempo, Phillips atira-nos à cara um dos maiores problemas da sociedade contemporânea: marginaliza-se a doença mental, atiramo-la para um ângulo morto, transformamos o cunho de louco numa inconsequência que se resolve apenas com uma clausura ou com a aniquilação.

Mas nós, vivendo com Arthur durante cento e vinte e um minutos, passamos a ter compaixão de um psicopata. Entendêmo-lo, quase ao ponto de lhe desculparmos as atrocidades.

Este filme não inspira à violência, mas devia inspirar-nos a lidar melhor com potenciais vilões. Porque a salvação está na prevenção e na compreensão. E no amor.

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