O que é que séries como “Veep”, “The Marvelous Mrs. Maisel”, “Russian Doll”, “Fleabag”, “Sharp Objects”, “The Act” e “Orange is the New Black” têm em comum além da várias nomeações que receberam para os Emmys? A resposta, ainda que óbvia, é personagens femininas fortes capazes de conduzir a história por si só.

Mas há mais produções encabeçadas por atrizes que não fizeram parte das nomeações por terem estreado muito depois do período obrigatório, como “The Handmaid’s Tale”, “Unbelievable” ou “Big Little lies”. Longe vai o tempo em que o meio era olhado de lado e atores de cinema tremiam só de pensar na hipótese de deixar a representação em ponto grande para fazer séries ou programas de televisão.

Pegando nas palavras de Bryan Cranston, a estrela de “Breaking Bad”, durante a 71.ª edição dos Emmys, “a televisão nunca foi tão grande, nunca importou tanto e nunca foi tão incrivelmente boa como agora.” Mas a televisão está também mais atenta ao público que a vê e, por isso, mais inclusiva.

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Prova disso é o facto de, entre 2018 e 2019, as séries mais interessantes terem sido protagonizadas por atores negros (como “When They See Us” ou “Pose”, que fez com que Billy Porter se tornasse no primeiro gay afro-americano a vencer o Emmy de Melhor Ator) ou por mulheres em papéis complexos — como Patricia Arquette por “The Act” ou Amy Adams por “Sharp Objects”.

Numa altura em que pedimos uma sociedade mais igualitária e justa para todos, porque é que nos assusta tanto que os prémios como os Óscares ou os Emmys passem a ter categorias de género neutro? O que conta, afinal, não é a qualidade da representação independentemente do género de quem desempenha o papel?

A ideia não é nova, mas ganhou tração quando, em 2017, os Prémios MTV retiraram o género das suas categorias e Emma Watson foi a primeira atriz a ganhar a estatueta na categoria de Melhor Performance em Cinema.

No seu discurso, a declaração de intenções: “Na representação, o que fazes é essencialmente pôr-te nos sapatos de outra pessoa. A única distinção deveria ser entre a qualidade das várias prestações nomeadas.”

Porque é que temos medo de dizer que num frente a frente entre Kit Harrington e Jodie Comer (que venceu o Emmy de Melhor Atriz Principal por “Killing Eve”), provavelmente ganharia Jodie Comer?

Não há dúvidas de que a sua prestação está acima da de Harrington em “A Guerra dos Tronos” e isso nada tem que ver com o facto de Jodie Comer ser mulher. A atriz é o pilar de uma série de drama que, por resvalar várias vezes para a comédia e para uma narrativa que parece ter vindo a perder o norte, ainda nos mantém colados ao ecrã numa altura em que oferta abunda e enjoa.

Há dois argumentos que têm vindo a ser usados com o objetivo é contrariar a ideia de categorias sem género e o primeiro tem que ver com a duração da cerimónia. Há cada vez mais séries para ver e mais atores para premiar, o que obriga a que as galas sejam longas e aborrecidas, especialmente sem apresentador.

Foi o caso da última dos Emmys em que o momento memorável foi uma piada dita pelas Kardashian que não pensaram bem no que iam dizer.

Pelo contrário, a junção de categorias de Melhor Ator e Melhor Atriz em papéis principais e secundários obrigaria a uma redução de pelo menos uma hora (se contarmos com o intervalos durante a emissão). O segundo argumento diz que a junção das categorias pode levar a que as mulheres deixem de ter representação nas cerimónias.

Se este ano não chega para provar o quão errado este argumento está, só no ano passado estiveram nomeadas séries como “The Americans”, “The Marvelous Mrs. Maisel”, “The Crown”, “Stranger Things” e “Westworld” com personagens femininas bem mais interessantes do que masculinas na mesma produção.

A conjuntura atual, desde as nomeações à entrega dos prémios, mostra que as mulheres estão mais representadas do que nunca. Aliás, nos prémios da Associação de Críticos de Televisão só um homem esteve nomeado para a categoria de Drama que se viu a braços contra Amy Adams, Patricia Arquette, Christine Baranski, Michelle Williams e Jodie Comer.

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Em Comédia, o cenário foi o mesmo: Bill Hader foi o único nomeado numa categoria repleta de mulheres como Pamela Adlon, Julia Louis-Dreyfus, Phoebe Waller-Bridge e Natasha Lyonne.

Mesmo este ano, durante os Emmys, os atores nomeados para os papéis principais eram claramente menos interessantes do que as mulheres nomeadas nas categorias correspondentes (é o caso de BIlly Porter contra Jodie Comer ou Peter Dinklage contra Julia Garner).

E também não é por acaso que Phoebe Waller-Bridge levou para casa três Emmys pela capacidade de realizar, escrever e representar numa série que tem como protagonista uma figura feminina cáustica, sensível e humana. Tal como nós.

As categorias sem género promovem precisamente aquilo que procuramos de um bom profissional de cinema ou televisão que é, espante-se, boa representação e boa capacidade de entrega ao papel.

Além disso, permitem que atores que se identifiquem como não-binários possam ter representatividade num meio e numa celebração que é suposto ser de todos e para todos. Posto isto, porque é que ainda continuamos com medo de discutir o assunto?