Numa das centenas de aulas que Lúcia Vaz Pedro deu ao longo dos últimos 25 anos, enquanto professora de Língua Portuguesa, foi confrontada com uma resposta caricata de um aluno. À questão “qual a função do apóstrofo?”, um dos miúdos respondeu prontamente: “Os apóstrofos são os discípulos de Deus e andavam sempre com ele”.

Apesar de ser complicado conter os risos com esta resposta, a mesma é elucidativa do quão mal as crianças, jovens e até adultos escrevem, falam, e compreendem o português nos dias de hoje. E embora existam muitas distrações na sociedade atual, das redes sociais às apps e jogos, a professora de 51 anos encontra uma razão para tal infeliz fenómeno.

“Cada vez se escreve pior, porque as pessoas leem cada vez menos”, diz Lúcia Vaz Pedro à MAGG, numa conversa a propósito do lançamento de “Camões Conseguiu Escrever Muito para Quem Tinha Só um Olho…”, um novo livro pedagógico e prático, mas recheado de humor, que chega às livrarias esta quarta-feira, 18 de setembro.

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Com mais de 30 livros publicados, entre romances, livros infantis e escolares, a professora de Língua Portuguesa, que leciona na Escola Inês de Castro, em Vila Nova de Gaia, utiliza o humor para chegar aos alunos.

E o humor está presente não só no tom descontraído deste livro, onde relata os pontapés na gramática e os erros dos mais novos, com a devida explicação, mas também dentro da sala de aula — até porque acredita que é possível rir enquanto se ensina a falar e a escrever em bom português.

“À semelhança de Gil Vicente, gosto muito da lógica de utilizar o cómico para ensinar os outros, a tal história do ‘a rir se criticam os costumes’. Acho que utilizando o humor é mais fácil conseguir atingir determinados objetivos pedagógicos”, salienta a professora, que também acredita que o humor pode ser uma ferramenta para recuperar nos jovens o gosto pela leitura e pela língua.

Lúcia Vaz Pedro é professora de Língua Portuguesa há mais de 25 anos e foi entrevistada para o jornal "Folha de S. Paulo" a propósito do Acordo Ortográfico

Para Lúcia Vaz Pedro, que leciona alunos do 7.º ao 12.º ano de escolaridade, “atualmente, é muito difícil ensinar e fazer com que os alunos aprendam. Eles não têm noção do que estão a responder porque nem leem a questão, fazem-no superficialmente e com dificuldades em aprofundar o sentido do texto e perceber aquilo que lhes é pedido. Respondem a primeira coisa de que se lembram”.

Assim, a professora acredita que têm de ser usadas “estratégias e metodologias diferentes” para chegar aos alunos. Lúcia Vaz Pedro assume que o facto de estes se rirem de si próprios, ao verem no livro muitas das respostas que já deram ou ao identificarem-se com as mesmas, pode fazer com que a informação correta, que está obviamente presente nas mesmas páginas, chegue “de uma forma lúdica, mais leve e solta”.

Os livros estão fora de moda?

Apesar de a oferta literária em Portugal ser vasta e de grande qualidade, os miúdos leem cada vez menos. Mas porquê? “Cada vez temos mais livros, com muita qualidade, muitos escritores, mas as crianças e os jovens têm outros veículos de informação e entretenimento mais apetecíveis”, salienta Lúcia Vaz Pedro.

Para a professora, os computadores, os telemóveis, os jogos de consola e tablets, entre outros, “são veículos de distração”, e longe de serem os melhores: “É que não estamos a falar de brincadeiras de rua ou de brincar às casinhas, que são atividades que os ajudam a socializar, a falar uns com os outros. Estas distrações atuais fazem com que os miúdos fiquem cada vez mais isolados no mundo deles, e nem sequer aprendam a comunicar”.

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Mas as plataformas digitais e os ecrãs não são os únicos culpados para este distanciamento dos mais jovens com a leitura. “Os filhos imitam os pais. Quando eu era criança e adolescente, estava ansiosa por chegar a casa e ler, e muito porque esse hábito me foi incutido pelos meus pais. Ambos liam muito, e o meu pai chegava a dizer-me que livros eu devia ler primeiro, por grau de dificuldade, e fazia-me sempre perguntas detalhadas depois de eu terminar, para ter a certeza que eu tinha mesmo lido”, recorda a professora.

E os benefícios da leitura vão muito além do entretenimento. “São muitas as vantagens”, salienta a educadora. “Conseguimos ter mais reconhecimento do mundo, de outras culturas. É possível desenvolver a expressão oral, escrita, a compreensão, para além de enriquecermos o nosso vocabulário. Mesmo a nível profissional, os livros são uma forma de desenvolver conhecimentos em áreas especificas, desenvolver competências linguísticas.”

Lúcia Vaz Pedro acredita que o facto de os adultos também lerem cada vez menos faz com que, por consequência, as crianças também não o façam: “É verdade que os tempos são outros, que hoje em dia há muita corrida, que os pais não têm tempo e que chegam a casa sempre aflitos para dar banhos, fazer o jantar, etc.. Mas mesmo quando têm esse tempo, preferem outras coisas que não os livros e claro que os miúdos vão fazer o mesmo”.

Para além de tentarem incutir este hábito nos filhos, a professora também acha que os pais têm de ter mais tempo para as crianças. “As famílias têm de falar, conversar, fazer refeições sem uma televisão ou telemóveis. Perdeu-se o hábito de conversar”, lamenta.

“A Língua Portuguesa é transversal e a disciplina mais importante do currículo”

Para além de um bom português, falado e escrito, ser extremamente importante para a disciplina de Língua Portuguesa, as possíveis dificuldades das crianças e jovens com esta matéria pode afetar outras aulas. “A Língua Portuguesa é transversal e a disciplina mais importante do currículo, pois é através desta que se veicula toda a informação”, refere Lúcia Vaz Pedro.

Apesar de sempre dividirmos as pessoas como “as de letras e as de números”, ser mau nas aulas de Português pode levar exatamente ao mesmo resultado nas de Matemática, por exemplo.

Como pôr os miúdos a ler

A autora salienta que os alunos “não compreendem os sentidos das questões, não sabem o que é enumerar, por exemplo” e, muitas vezes, Lúcia Vaz Pedro acaba por se articular com a professora de Matemática para explicar aos alunos o sentido de determinadas coisas. “O mau português afeta muitas outras áreas.”

No livro que acaba de lançar, a professora de Língua Portuguesa refere muitos exemplos destas dificuldades. Num dos capítulos, Lúcia Vaz Pedro recorda a resposta de um aluno a uma questão matemática: colocada a pergunta “a altura de um jogador de basquetebol é de 180 centímetros. Qual é a sua altura em metros?”, o jovem respondeu “a minha é 1,72 metros”.

Editado pela Manuscrito, o livro "Camões Conseguiu Escrever Muito para Quem Tinha só um Olho..." tem um preço recomendado de 14,90€

Dando outro exemplo ilustrativo das dificuldades dos alunos em compreender o que lhes é pedido, uma outra criança não percebeu uma questão geométrica. No enunciado, podia ver-se a representação das figuras geométricas de um triângulo, um quadrado e um retângulo. “Observe as figuras geométricas e dê-lhes nomes”, pedia o exercício. “Paulo, Pedro e Patrícia” foi a resposta do aluno.

Lúcia Vaz Pedro também recusa a ideia de que o Novo Acordo Ortográfico seja o culpado das dificuldades dos alunos, ou de um pobre português: “Isso não tem nada que ver, cada vez se escreve pior porque as pessoas não leem. E não são só as crianças, os adultos também escrevem mal. São as mensagens escritas sem cuidado, as redes sociais. Se fizermos uma breve pesquisa nestas redes, vemos coisas muito graves, que me deixam com os cabelos em pé. Não há o mínimo de preocupação em escrever bem, é assustador”.

Para a professora, o veredito é simples: “Entramos num restaurante e vemos um grupo de pessoas à mesa todas em silêncio, com o telemóvel nas mãos. As pessoas não sabem falar, não se sabem exprimir bem, sabe porquê? Porque não se conversa”.