Nunca querendo justificar o crime, Maria das Dores revela no seu livro lançado esta semana — “Eu, Maria das Dores, me confesso” — que o estado de quase loucura em que vivia, resultado das traições do marido, a levaram a orquestrar o assassinato de Paulo. Ao longo do livro, a socialite fala recorrentemente do facto de o marido ter outras mulheres, mas explica também que isso é uma consequência direta do facto de ela andar “depressiva”, de ter “engordado bastante”, de ter ficado “sem parte de braço”, o que a deixava com a autoestima em baixo.

De acordo com o que relata no livro, Maria das Dores teria mudado de atitude se o marido tivesse parado com o estilo de vida que levava. “Se te tivesses sentado ao meu lado, se me tivesses pedido desculpa pelos dias e meses vividos num clima de mentira, de ficção… Tu sabes que não estavas em jantares de negócios ou em trabalho até tarde, como dizias, e sim com outras mulheres. (…) Eu fiz de tudo, esperei, calei-me, aguentei as dores do braço… mas o beco não tinha saída. Eu amava-te mais do que a minha própria vida, mas naquele momento, naquele dia, o ciúme cegou-me”, escreve a socialite, que mandou matar o marido em janeiro de 2007, e que foi condenada em novembro do mesmo ano a 23 anos de prisão, pena que acabou por ser reduzida para 21. “Errei. Tive cinco minutos de apagão, do bom senso e da lucidez. Porquê? Por ciúmes, falta de autoestima, revolta, solidão — um cocktail explosivo ao qual ainda juntava aqueles comprimidos para emagrecer com anfetaminas”.

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Os ciúmes e a insegurança, de acordo com Maria das Dores, eram diários, porque, acreditava, o marido lhe mentia a toda a hora sobre o tempo em que estava fora de casa. “Por muito trabalho que tivesse na empresa, não era possível que o Paulo estivesse a trabalhar todas as noites até tão tarde (…) As inseguranças e os ciúmes dominavam-me com frequência e eram muitas as ocasiões em que me surpreendia a mim mesma a pensar na possibilidade de que o Paulo tivesse uma amante”, revela no seu livro, escrito em co-autoria com a espanhola Virginia López. Maria das Dores conta mesmo um episódio em que apanhou Paulo a mentir. “Num desses serões solitários, depois de deitar o Duarte, decidi pegar no carro e ir à fábrica. Queria surpreender o Paulo. Queria demonstrar o amor que tinha por ele. É certo que também queria confirmar pelos meus próprios olhos que era verdade que ainda estava a trabalhar (…) Parei o carro no parque de estacionamento da administração e comprovei desiludida e sem grande surpresa que o lugar reservado para o carro do Paulo estava vazio”. Nessa noite, Maria das Dores sabia que o marido não lhe estava a dizer a verdade, mas quis confirmá-lo com um telefonema final. “Com um misto de raiva e medo, peguei no telemóvel e marquei o número dele (…) O Paulo atendeu (…)

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— Ainda falta muito? — perguntei num fio de voz, fazendo o possível para disfarçar a mistura de sentimentos que me oprimiam por dentro (…)

— Maria, já te disse. Ainda estou na fábrica para resolver uns assuntos de última hora. Não me esperes acordada.

Desliguei com as lágrimas que me inundaram os olhos a não pararem de escorrer”.

Ainda assim, Maria das Dores não teve coragem de confrontar Paulo com as mentiras. “A cada dia, o Paulo chegava mais tarde a casa e, quando lhe perguntava onde tinha estado ou por que motivo chegava tão tarde, repetiam-se as mentiras. Naquela noite, não me atrevi a dizer-lhe que tinha estado na empresa e comprovado com os meus próprios olhos que o carro dele não estava lá”.

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Um dos confidentes de Maria das Dores era João Paulo, “um brasileiro que às vezes levava e fazia recados”, e que a socialite conhecera através de Duarte Menezes, um conhecido cabeleireiro de celebridades. O moço de recados, que também trabalhava para Paulo, e que viria a ser autor material do crime, desvalorizava as traições e mentiras do patrão. “João Paulo, eu não aguento mais isto. (…) O meu marido engana-me com outras mulheres e você diz-me que não se passa nada?”. Maria das Dores conta mesmo um caso específico em que viu mensagens que confirmavam as traições. “Noutro dia, estive no escritório, abri a gaveta e sabe o que encontrei? Um desses telemóveis baratos que pelos vistos usa para falar com as suas amiguinhas (…) Claro que o liguei. E sabe o que li? (…) “Oi, gostei muito de estar com você, meu gatão (…)”

Foi então que começou a crescer na mente de Maria das Dores a ideia de mandar matar o marido. “Eu não estava disposta a tolerar que me fosse infiel debaixo do meu próprio nariz”. “O Paulo vai pagar por tudo o que me tem feito”, disse na altura a João Paulo. “E como vai fazer isso, doutora?”, perguntou o moço de recados. “Tu vais ajudar-me”. Mas João Paulo não se mostrou muito interessado. “Eu, doutora? Nem pense! Não me meta em mais problemas, que já tenho suficientes com o engenheiro”.

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De acordo com Maria das Dores, estes “problemas” de João Paulo com Paulo tinham a ver com drogas. E conta mesmo um episódio para o justificar.

“— De que problemas estás a falar, João Paulo?

— São coisas nossas, doutora, negócios que tenho com o engenheiro, já sabe.

— Não, eu nunca sei de nada, João Paulo (…)

— Bom, o engenheiro tem-me dado algumas coisas para vender, porque está a precisar de dinheiro.

— Que coisas, João Paulo?

— É melhor a doutora não saber. Digamos que são coisas que toda a gente compra, né? Só que depois demoram a pagar… e eu tenho de pagar ao engenheiro (…)

—Não estava a perceber a conversa, e por mais que tivesse insistido, o João Paulo não continuou a falar (…)

De repente recordei uma conversa que tínhamos tido umas semanas antes. Eu ia mandar algumas peças de roupa à lavandaria e, antes de entregá-las à Ivana [empregada], tinha o costume de verificar os bolsos para que não fosse fora algum bilhete ou papel importante. Num dos casacos do Paulo, encontrei uma bolsinha com um pó branco. Guardei-o e mostrei-o ao Paulo à noite (…)

— Não tens mais nada para fazer do que andar a mexer nos meus bolsos? (…)

— Mas o que é, afinal? — insisti.

— É só um pó que usamos para conservar as maçãs”.

Maria das Dores acabaria por acordar com João Paulo, que subcontratou o amigo Paulo Horta, o assassinato do marido. O empresário foi assassinado em janeiro de 2007, num apartamento na Avenida António Augusto Aguiar, em Lisboa.