Se pensar na lista de presentes de Natal que os seus filhos têm entregado nos últimos anos, possivelmente recorda-se de alguns kits de maquilhagem ou de um smartphone que tinha acabado de ser colocado à venda. Dependendo da idade, e das possibilidades económicas naquela altura, considerou dar aquilo que lhe foi pedido a si (ou ao Pai Natal). Mas a questão que se coloca é: será que foi a idade certa para dar esses produtos?

Um estudo publicado a 22 de agosto tentou responder a esta questão. Para isso, recolheu a opinião de 1.628 pais britânicos. A investigação tentou perceber qual a idade ideal para dar determinadas liberdades aos filhos, tais como usar maquilhagem, adquirir um smartphone ou até sair à noite. A maioria dos pais britânicos (68%) considera que as filhas não deviam usar maquilhagem até aos 16 anos. As mães (58%) acham que não há problema em antecipar esse passo e que as filhas podem começar a colocar um batom ou uma sombra aos 14.

Quanto às tecnologias, quase metade dos britânicos considera que aos 11 anos as crianças podem ter um telemóvel antigo e que os smartphones só devem chegar às mãos dos jovens por volta dos 13 anos (46%) ou dos 14, cuja percentagem é de 59%.

No que toca à liberdade para sair de casa, as estatísticas registam uma maioria de 52%, que corresponde aos pais que permitem que os filhos saiam depois do anoitecer a partir do 15 anos. Mas aqui a idade dos adolescentes não é o único fator a ter em conta. É que mais de metade (53%) do pais britânicos mais jovens, entre os 18 e os 25 anos, estabelecem um limite etário mais baixo para sair à noite do que os pais mais velhos (28%), com 65 ou mais anos.

Estes números fazem sentido na realidade portuguesa? Foi isso que a MAGG foi tentar perceber junto de uma mãe e de um pai português. Pedimos ainda a opinião de três especialistas — uma psicóloga clínica, uma dermatologista e uma maquilhadora profissional — para esclarecer se há ou não idades ideais para dar algumas liberdades às crianças e qual o impacto dessas cedências.

A idade ideal para usar maquilhagem é aquela que parte do bom senso

“O uso autónomo da maquilhagem deve-se dar quando o adulto educador e a criança/jovem demonstram consciência no seu uso, que penso ser sensato ocorrer a partir das faixas etárias da adolescência”. A opinião é de Joana Madureira, mãe de uma menina com 5 anos e de um rapaz com 7. A portuense de 36 anos acrescenta que o uso da maquilhagem antes dos 5 anos deve ser feito num contexto de aprendizagem e experimentação, como por exemplo numa simulação do papel dos pais e ou adultos de referência, ou de forma artística — para um teatro, em eventos culturais ou épocas festivas propícias.

O problema talvez esteja mais relacionado com a finalidade e não tanto com o uso da maquilhagem. Isto porque muitas vezes a sua utilização é associada à estética, que pode resultar da pressão social sobre os padrões de beleza que a sociedade estabelece. “A pressão social de padrões de beleza atuam quando existe uma fragilidade na sua auto imagem”, esclarece Vera Ribeiro, psicóloga clínica. Existem mesmo estudos publicados no Jornal da Academia Americana de Dermatologia e na revista “Cutis“, que mostram que a utilização de maquilhagem pode melhorar a auto-estima das crianças afetadas por lesões dermatológicas.

Nas redes sociais e no YouTube encontramos um vasto mundo de influenciadores na área de maquilhagem que partilham o seu trabalho com os seguidores, entre eles crianças. Os influenciadores acabam por se tornar numa referência e numa fonte de marketing, que se reflete nas lojas. “Existe alguma influência dos vídeos das tão faladas influenciadoras que se numa semana mostram um novo produto, é esse produto que elas vão procurar”, revela Andreia Ferreira, gerente de uma loja de maquilhagem e maquilhadora profissional.

Sabemos que não é possível mudar o mundo em que vivemos, portanto não é expectável conseguir que as crianças vivam à parte. Mas Vera Ribeiro refere que os pais devem “acompanhá-las e ajudá-las a transformar tudo aquilo que veem e ouvem, para que possam optar conscientes [pelo uso de maquilhagem], seja qual for a idade”.

Essa idade não deve ser delimitada, continua a especialista, e o uso deve sempre depender do contexto e da motivação. Ainda que não haja uma idade, João Afonso, de 34 anos, considera que entre os 16 e os 17 anos seria a altura mais aceitável, indo ao encontro dos dados do estudo britânico. “Já são pré-adolescentes e já têm mais noção do que devem ou não usar. Mas sempre com a permissão dos pais”, explica.

A verdade é que não muito longe desta idade — a partir dos 14 ou 15 anos — as adolescentes começam a dirigir-se às lojas de maquilhagem para comprarem os seus primeiros pincéis e bases. Mas nem tudo gira à volta de uma idade pré-definida e moralmente correta para usar alguns pós brilhantes no rosto ou um batom de cor viva. Importa perceber quais os riscos para a pele de um uso precoce (antes da adolescência) destes materiais.

“Os potenciais riscos são o desenvolvimento de alergias (eczema de contacto alérgico), irritações (eczema de contacto irritativo) e infeções. A pele da criança apresenta diferenças importantes [mais fina, delicada e sensível, produz menos sebo (oleosidade natural da pele) e perde hidratação mais rapidamente] em relação à pele do adolescente e adulto, que a tornam mais vulnerável às agressões do exterior (incluindo a maquilhagem)”, explica Helena Toda Brito, dermatologista no Hospital Lusíadas, em Lisboa. Ainda que na adolescência a pele seja mais resistente às agressões externas, há um maior risco de aparecimento ou de agravamento da acne se não forem utilizados os produtos adequados, acrescenta.

O tipo de cosméticos pode mesmo influenciar o desenvolvimento da acne, que neste caso denomina-se acne cosmética. Para a evitar, a dermatologista indica que deve-se optar por produtos cosméticos rotulados como oil-free e não-comedogénico (que não obstrói os poros), higienizar os pincéis/esponjas de maquilhagem semanalmente, não partilhar pincéis/esponjas ou maquilhagem com outras pessoas e respeitar os prazos de validade dos mesmos.

Apesar de o saberem na teoria, na prática as adolescentes não mostram preocupar-se com os cuidados que devem ter com a pele e com os cosméticos. “Existe pouca procura por produtos de tratamento de pele, talvez por não terem acesso a informação suficiente sobre o assunto. Ao aconselhar qualquer produto de maquilhagem explico sempre a importância do cuidado da pele e a diferença que isso faz também no acabamento da maquilhagem”, refere a maquilhadora Andreia Ferreira. O interesse é suscitado, e as jovens ficam quase convencidas do benefícios dos cuidados e dos produtos de hidratação da pele, mas a verdade é que dificilmente os introduzem na rotina diária.

Será que este Natal já pode oferecer um smartphone ao seu filho?

“Não existe uma idade certa para o uso do telemóvel, porque cada criança tem o seu grau de maturidade. Os diferentes tipos de telemóvel é que ditam os diferentes tipos de consequências. Não podemos querer comparar um telemóvel que apenas recebe e faz chamadas a outro que é um pequeno computador, que permite falar com desconhecidos e aceder a informação indiscriminada, sem supervisão”, explica a psicóloga Vera Ribeiro.

Os filhos de Joana Madureira ainda têm apenas 5 e 7 anos, por isso ainda vão ter de esperar até aos 12 para ter um telemóvel, idade que a mesma pondera dar o primeiro equipamento. “Se a intenção for só fazer chamadas, creio que um telemóvel original de teclas cumpre o propósito”, refere Joana. Caso contrário, o caminho será seguir a tendência atual: um smartphone, apesar de ter noção de que isso acarreta uma maior atenção e controlo dos pais.

No caso dos filhos de João Afonso, o processo teve de ser antecipado. Quando entraram para o 5.º ano, para uma escola mais longe dos pais, os dois filhos mais velhos, agora 16 anos e 14, receberam um smartphone básico. “Nos dias de hoje, por influência da sociedade, os miúdos têm de ter telemóvel para comunicarem com os pais em caso de emergência”.

No entanto, só com 16 anos é que João considera aceitável que os seus filhos saiam até tarde. É o caso do filho de 16 anos, que já tem idade para ter uma maior liberdade para sair até mais tarde. Mas este “tarde” é relativo: “Até à meia-noite ok, uma vez por outra, e num caso excecional, até às duas da manhã”.