Portugal é o país da Europa com a taxa de natalidade mais baixa — são apenas 1,2%, enquanto que a Turquia, onde os valores são mais elevados, chega aos 2,07%. Desde a crise de 2008 que ter uma família numerosa é quase impensável, a começar pelas creches e a acabar nos livros escolares. Impossível? Nem por isso. Muito difícil? Sem dúvida.

Quando Filipe d’Avillez, jornalista da Renascença na secção de Religião, viu um cartaz afixado em Sintra, junto à estrada e de frente para o areal da Praia das Maçãs, ficou surpreendido. Escrito em inglês, lia-se: “Celebrate low birth rates” que, em português, pode ser traduzido para “Celebrem a baixa natalidade”. A campanha chama-se The Great Decrease e é um projeto da empresa holandesa Ultra, que pretende encorajar países com baixas taxas de natalidade a verem estes números como uma bênção.

Portugal é o 5.º país mais envelhecido do mundo — e a culpa não é dos jovens

“Os cientistas alertam que o crescimento explosivo da população mundial é a força motriz por detrás dos principais problemas da atualidade, incluindo a mudança climática, a perda de biodiversidade e a escassez de recursos”, lê-se no site oficial da campanha.

Voltemos a Filipe. Pai de seis filhos, o jornalista de 39 anos estava a passar férias na zona quando se deparou com o cartaz: “Nós íamos jantar fora com uns amigos na Aldeia das Maçãs. Eu ia levantar dinheiro e naquela área só existem dois multibancos — um não tinha dinheiro, portanto tive que ir ao outro. Quando me viro para ir embora, dou de caras com o cartaz”, conta Filipe d’Avillez à MAGG.

Na sexta-feira, 2 de agosto, decidiu juntar a família em frente ao cartaz para tirar uma fotografia. Mais tarde, partilhou-a nas suas redes sociais, Facebook e Twitter.

“O gesto na fotografia foi contra a vontade da minha mulher e só o fizemos porque esta mensagem parece-me uma coisa chocante e triste tendo em conta que a taxa de natalidade em Portugal é tão baixa”, diz o pai de seis filhos, com idades compreendidas entre os 12 e 1 ano e meio. “Esta iniciativa remete-nos para uma mentalidade perigosa que age como se os seres humanos fossem uma praga. Estar a apresentar uma iniciativa como uma ameaça é preocupante e o gesto significa isso mesmo: que esta vossa campanha é a resposta que merece”.

A fotografia tornou-se viral e até chegou ao Adland, um blogue de marketing e publicidade. As críticas não tardaram: alguns utilizadores chegaram a questionar a legalidade do mesmo, uma vez que pode violar o Artigo 7.º do Código da Publicidade, que diz, na alínea C), que é ilícito qualquer anúncio que “atente contra a dignidade da pessoa humana”, definindo igualmente, mais adiante, na alínea h), que é ilegal um anúncio que “tenha como objeto ideias de conteúdo sindical, político ou religioso”.

A Câmara Municipal de Sintra admitiu à Renascença ter ponderado remover o cartaz, que também foi publicado na Holanda e em Singapura, países com iguais baixas taxas de natalidade. No entanto, chegou à conclusão de que não viola o Código da Publicidade, uma vez que “não ofende valores nem tem linguagem imprópria”.

Sascha Landshoff, responsável pela campanha, explicou à Renascença que o objetivo desta iniciativa passa por incentivas “diferentes debates públicos sobre o crescimento população mundial”, acrescentando que a “organização que financiou o projeto é formada por fundos culturais e artísticos” e “não é a posição do governo holandês”.