Rafael já era pai quando, em 2016, prestes a completar 40 anos, voltou a sê-lo. Foi um filho muito desejado, mas as coisas acabariam por não correr como previsto. Rafael e a companheira eram saudáveis, foram devidamente acompanhados e nada fazia prever que algo de errado poderia acontecer.

O pequeno Salvador (nome fictício) nasceu prematuro — com 26 semanas e 725 gramas — e a precisar de muitos cuidados, depois de cinco meses de internamento. Foram momentos angustiantes para a família. O doméstico de 42 anos recorda-se de ter ouvido por parte da classe médica os “piores” prognósticos.

“Há uma frase que nunca mais irei esquecer: ‘O seu filho vai ser uma criança diferente’. Engoli em seco e disse: ‘Estarei cá para tudo o que ele precisar’. Após este discurso, e com autorização, deixaram-me tocar nele. Nesse momento assumi um compromisso e uma promessa para com o Salvador de que estaria sempre disponível para ele e que não o abandonaria”, conta à MAGG.

Isto é o pior de quem se dedica por opção ou por obrigação a estar a cuidar dos filhos: a falta de socializar”

Em casal foi decidido que Rafael, natural de Aveiro, ficaria em casa com o filho. “A opção teve que ver com vários fatores, desde a prematuridade extrema do bebé, às habilitações humanas no tratamento dele, ao meu trabalho e ao início de carreira da mãe.” Rafael era um empresário ativo e a companheira estava num quadro superior numa empresa bem implementada a nível internacional.

Salvador iria precisar de muitos cuidados. Quando recebeu alta hospitalar, o bebé foi para casa com uma sonda nasogástrica, por onde era alimentado. Precisava de receber oxigénio durante as 24 horas diárias — algo que deixou de precisar até há bem pouco tempo. Antes de ter completado 1 ano, Salvador foi diagnosticado com Síndrome de West — doença rara e uma forma grave de epilepsia em crianças. Atualmente vive com uma válvula perino ventricular.

“Ninguém o aceitava com todos estes riscos e quadros apresentados, nem eu o queria depositar em lado nenhum.” Rafael não é só pai a tempo inteiro. É também um cuidador. Os dias de Rafael e Salvador são passados entre consultas, fisioterapias e de muitas brincadeiras.

O homem de 42 anos admite que, apesar de toda a força que tem, o primeiro ano como pai a tempo inteiro e doméstico “não foi fácil, foi duro, angustiante”. É numa página de Facebook intitulada “Baby S — Pai a Tempo Inteiro”, que já conta com mais de 12 mil seguidores, que Rafael vai mostrando, entre fotos e vídeos, vários momentos que passa com o filho.

Ser pai ou mãe a tempo inteiro não é uma profissão, é uma vocação. É preciso um grande poder de encaixe , pois não é a mesma coisa que aturar um chefe parvo”

“A página começou por mera carolice de passar algum tempo e conseguir, nem que seja pelas redes sociais, socializar com pessoas — por ideia da mãe. Isto é o pior de quem se dedica por opção ou por obrigação a estar a cuidar dos filhos: a falta de socialização.”

Rafael revela ter sentido falta de compreensão por parte das pessoas quando comunicou que iria dedicar-se exclusivamente ao filho. A sociedade encara com mais normalidade quando é a mulher a decidir ficar em casa com os filhos e, na sua opinião, são estas as mais críticas — há “demasiado” feminismo.

Estudo. Ficar em casa com os filhos é mais difícil do que trabalhar

“Eu faço tudo o que uma mãe faz: limpo, lavo, passo, arrumo, mudo fraldas, dou leite, faço almoço, faço jantar, etc.. Todas as ditas atividades formatadas em mentes pequenas e fechadas que têm de ser das mulheres.” Para o doméstico, a própria sociedade não está ainda preparada para aceitar pais e mães que escolham sê-lo a tempo inteiro. “A maioria julga que quem está nessa situação são pessoas bastante avantajadas em termos monetários, o que está errado. Não sabem a engenharia financeira que se tem de fazer.”

A aprendizagem enquanto pai do Salvador tem sido “intensa”. Como tal, não existe, para já, a intenção de regressar à atividade profissional de empresário. É “um dia de cada vez”. “Ser pai ou mãe a tempo inteiro não é uma profissão, é uma vocação. É preciso um grande poder de encaixe, pois não é a mesma coisa que aturar um chefe parvo. É o nosso filho — imprevisível em todos os seus atos ou disposições pessoais”, finaliza.

Depois de um episódio de burnout, Filipa decidiu ser mãe a tempo inteiro

Filipa Castelo tinha uma vida profissional desgastante. Licenciada em Desporto e com pós-graduação em gestão de ginásios, saía de casa às 7h30 da manhã e chegava às 22 horas. Pelo meio também era proprietária de um ginásio. Era muito pouco o tempo que passava com os dois filhos, de 10 e 6 anos na altura.

A mulher residente em Alcobaça recorda que, para além de todo o stresse diário, num determinado ponto da carreira profissional via-se a ganhar cada vez menos. Não teve direito a lua de mel depois de se casar devido ao trabalho. Há vários anos que o patrão lhe prometia mudanças no horário para poder estar mais tempo com as crianças, mas permanecia tudo igual.

Até a minha filha ter 10 anos eu nunca a consegui levar a uma atividade desportiva. Faltei a muitas festas da escola dela porque sempre que eu ia, eu tinha que ir embora”

Em agosto de 2014, o seu corpo começou a dar sinal. “Acabei por ir imensas vezes ao hospital. Tive um colapso de tanto trabalhar — foi um burnout — e o médico deu-me de baixa”, conta à MAGG. Seguiram-se seis meses de baixa. A mulher de 42 anos admite não ter gostado de estar naquela situação de inatividade. Mas a verdade é que não voltaria à sua profissão. Em abril de 2015, no final da baixa médica, decidiu despedir-se.

A decisão teve como impulso um episódio que aconteceu num jantar em família, algo que até ter ficado de baixa era raro devido à sua ocupação profissional. “Nós nunca jantávamos juntos. Então, os miúdos estavam a ficar extremamente felizes pelo facto de a mãe estar à noite, por estarmos em casa. Certo dia a minha filha diz-me: ‘Ai, mãe. Que bom! Já não comemos tantas vezes grão com atum, douradinhos…’. E começou-me a relatar as comidas. Isto é muito mau e foi aí que eu disse chega, nunca mais.”

A mulher natural de Seia tornou-se mãe a tempo inteiro. “Até a minha filha ter 10 anos eu nunca a consegui levar a uma atividade desportiva. Faltei a muitas festas da escola dela porque sempre que eu ia, tinha que ir embora.” Tornar-se mãe a tempo inteiro nunca tinha feito parte dos seus planos. “Se bem que, em pequena, quando me perguntavam sobre as profissões, eu dizia que queria ser mãe.” Era uma nova fase na sua vida e na dos filhos que iam, finalmente, passar tempo de qualidade com a mãe.

O que sinto neste momento é que é importante estar com eles para crescerem com valores e com educação, para saberem dizer bom dia, boa tarde, obrigada, para saberem que há uma família e que essa família não é apenas uma palavra”

Filipa Castelo e o marido perceberam que os pontos positivos da nova situação familiar eram diversos: não pagam Atividades de Tempos Livres (ATL), amas ou serviços de limpeza. Estavam a poupar dinheiro. “Claro que houve coisas das quais abdiquei, alguns luxos. Houve algumas coisas que deixei de fazer. Para além de que ser mãe a tempo inteiro ou doméstica é um trabalho muito extenuante, desgastante. Mas estou super satisfeita por ter tomado esta decisão.” Agora há tempo para conversar, pintar, brincar, ler uma história ou dançar com os filhos, algo que antes não sucedia.

Histórias de quem foi criado pelos avós. “A casa da avó era o nosso lugar”

Ainda assim, a decisão de Filipa e do marido não escapou às críticas dos mais próximos. “Toda a gente me critica. As pessoas falam-me logo na reforma, mas eu explico que não vou fazê-lo para sempre. As minhas amigas começaram a dizer-me muitas vezes: ‘Então e a tua profissão? Tu não sentes que estás a morrer profissionalmente? E quando os miúdos forem para a universidade o que é que vais fazer?’. O futuro eu não sei, mas tento explicar que neste momento estou realizada.” Filipa tem uma certeza: se mantivesse o estilo de vida que tinha, não estaria cá com saúde.

Entretanto, Filipa Castelo ficou grávida e tem mais uma bebé de 2 anos que esteve consigo em casa até aos 14 meses, altura em que foi para a escola. Às 15 horas, é hora de Filipa ir buscá-la.

“Está a ser muito enriquecedor ser mãe a tempo inteiro e estar em casa com os meus filhos. O que sinto neste momento é que é importante estar com eles para crescerem com valores e com educação, para saberem dizer bom dia, boa tarde, obrigada, para saberem que há uma família e que essa família não é apenas uma palavra. Para saberem que, quando precisarem, a mãe está cá, que quando é preciso chorar ou desabafar, a mãe está cá”, concluiu.

Um trabalho “desvalorizado” e “extremamente” desgastante

De um lado, a vontade de um dia poder vir a ser mãe a tempo inteiro — até então não tinha sido possível tal acontecer. Do outro, a profissão de técnica de spa que implicava trabalho aos fins de semana e turnos. Ana Cristiano já tinha dois filhos com alguma idade quando o sonho de ser mãe de uma menina, e de poder acompanhar o seu crescimento, se concretizou aos 43 anos.

Era a altura certa para colocar uma vontade antiga em prática: ser mãe a tempo inteiro. E assim foi em 2016. “Ainda não estava grávida e eu e o meu marido já ponderávamos fazê-lo se acontecesse”, diz Ana Cristiano, 46 anos, à MAGG. “Então foi mesmo uma questão de não conseguir conciliar as duas coisas [trabalho e ser mãe] e de não querer mesmo.”

Voltar à antiga atividade profissional não faz parte dos planos de Ana Cristiano

Matilde tem agora 3 anos e tudo gira à volta dela. “Seja o que for, é sempre com ela. No fundo, sou a companheira de brincadeira dela. Não paramos.” Os dias de mãe e filha são preenchidos. Matilde tinha ainda meses quando filha e mãe começaram a frequentar aulas de ioga para bebés. A ideia de Ana, residente em Aveiro, não era deixar a filha num sítio, mas sim frequentar o mesmo espaço e fazer as atividades com ela.

Mas as aulas deixaram de ser realizadas e surgiu a oportunidade para a ex-técnica de SPA dar corpo a um projeto idêntico: o PlayGroup — Grupo de Socialização, que é, no fundo, um grupo para mães. Todas as sextas-feiras, na Biblioteca de Aveiro, Ana começou por promover encontros onde mães e crianças podem realizar várias atividades. Um outro dia da semana é preenchido com aulas de música e outro com aulas de natação. O grupo foi aumentando e desde então já lá vai um ano e meio.

Voltar à antiga atividade profissional não faz parte dos planos de Ana Cristiano. Tirou formação de professora de ioga para crianças. “Entretanto abri o meu espaço, Atelier da Calma, por sentir que realmente há uma necessidade para os bebés. Depois as mães também gostam de estar um bocadinho juntas e de falarem umas com as outras, porque é uma fase em que acabam por cair no isolamento.” Ana tem a companhia da filha Matilde que a acompanha mesmo nas aulas lecionadas pela agora professora de ioga. “É uma hora e meia em que estamos ali, a fazer os exercícios de ioga com os bebés, mas em que também falamos um pouco sobre tudo: rotinas, amamentação, horários de sono, etc..”

Nem tudo tem sido fácil nesta caminhada como mãe a tempo inteiro, neste que é um trabalho “desvalorizado” pelas pessoas e “extremamente” desgastante. “Senti muita falta de compreensão por parte das pessoas.” O deixar de trabalhar com a idade que tem, o depender do salário do marido ou os comentários dos outros sobre o que faz o dia inteiro em casa são alguns exemplos dessa incompreensão.

Ainda assim, Ana Cristiano não tem dúvidas em afirmar o quanto tem sido enriquecedor estar no papel de mãe 24 horas por dia. “É o poder estar disponível para ela, brincar com ela, vê-la a crescer, o próprio desenvolvimento dela, que já é muito. Tem sido muito bonito, mesmo. Cansativo, mas não me arrependo nada”.