Grande parte das memórias de infância de Patrícia Nunes, 26 anos, são com a avó Rosa, com quem viveu até aos 9 anos. “A minha mãe, que se separou do meu pai biológico quando eu tinha meses de idade, trabalhava a tempo inteiro e vivia longe da casa da minha avó. Não era fácil ir e vir diariamente de casa da minha mãe para a da minha avó, dado que o emprego da minha mãe não permitia que eu fosse com ela para o trabalho, por isso a solução foi ser criada pela avó Rosa”, conta Patrícia Nunes à MAGG, que apenas estava em casa da mãe aos fins de semana.

Patrícia tem memórias a acompanhar a avó para todo o lado até aos 4 anos, inclusive para várias casas, dado que Rosa, hoje com 82 anos, trabalhava como empregada doméstica. “Talvez por isso sempre tenha tido noção do quanto a vida custa a ganhar, pois fui exposta a essa realidade desde muito cedo”, salienta.

A 26 de julho, celebra-se o Dia Mundial dos Avós, figuras de apoio incontornável à educação das crianças, com estudos que o comprovam: em 2014, uma investigação publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian demonstrou que Portugal, juntamente com outros países do sul da Europa, apresenta uma maior percentagem de avós a cuidar dos netos a tempo inteiro.

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O pediatra Mário Cordeiro, em declarações à Lusa, também já chegou a afirmar que o convívio intergeracional é fundamental e adiantou que “os avós podem transmitir sabedoria aos netos. Este contacto humano é bom, calmo e tranquilo, mas firme, com regras e afeto”.

Mas e quando os avós não são apenas um apoio, mas sim educadores a tempo inteiro, e tornam-se pais na verdadeira essência da palavra? Pagam estudos, oferecem um teto e assumem todas as responsabilidades normalmente atribuídas aos pais? Para além da história de Patrícia Nunes, a MAGG relata outros testemunhos de quem foi criado pelos avós, todos com um denominador comum: o amor entre avós e netos.

“Acima de tudo, a minha avó ensinou-me a ter conteúdo”

A avó de Patrícia foi, sem qualquer margem para dúvidas, a educadora primordial nos primeiros anos de vida da fotógrafa: “Era ela quem me dava comida, banho e me levava ao parque depois de sairmos do trabalho. Aos 4 anos entrei na creche e era ela quem me ia levar e buscar, e assim continuou até eu terminar a primária”.

A fotógrafa começou a retribuir a educação que a avó sempre lhe deu desde cedo. Rosa era analfabeta, pois nunca teve a oportunidade de frequentar a escola, e assim que Patrícia Nunes aprendeu a ler e a escrever, não hesitou em partilhar o conhecimento e ensinou o mesmo à avó.

Patrícia Nunes, 26 anos, com a sua avó Rosa, 82 anos

BORDERLAND

“Esses são alguns dos meus momentos preferidos com ela pois, de certa forma, pude dar-lhe algo depois de tanto que ela já me tinha dado”, recorda Patrícia, que foi viver com a mãe aos 9 anos, depois de esta refazer a vida com um novo companheiro, ter um filho e comprar uma casa perto da residência de Rosa.

Mesmo assim, já a viver com os pais, Patrícia Nunes sentia-se em casa com a avó, e confessa que foi difícil adaptar-se à nova rotina: “A partir dessa altura comecei a ficar mais vezes em casa dos meus pais, uma vez que já não tínhamos o problema do trânsito e da distância. Mas pedia muitas vezes para ficar com a minha avó pois sentia-me melhor com ela, na casa dela, do que com os meus pais. Afinal, aquela tinha sido a minha vida”.

A fotógrafa afirma que esta mudança na sua vida a tornou uma adolescente rebelde. “Talvez porque me era exigido um elevado nível de perfeição, mas também porque queria muito ficar sempre com a minha avó. Não me permitirem isso criou uma espécie de revolta”, explica.

Para Patrícia, a avó Rosa é quem sempre a percebeu e a aceitou, tal e qual como é: “Nunca me quis mudar, nem pediu que eu fosse algo que não sou. Talvez porque somos muito parecidas em vários aspetos, não sei. Mas sem dúvida que é ela a primeira a rir-se das minhas aventuras e a apoiar as minhas decisões”.

E há vantagens em ser criada pelos avós e não pelos pais? Patrícia Nunes não tem dúvidas de que, com esta realidade, ganhou ferramentas muito válidas para a sua vida.

“A minha avó passou-me valores que o meu irmão não tem, por exemplo. Com ela aprendi que a vida é difícil, mas também bonita. Que se queremos algo temos de arregaçar as mangas e ir, mesmo que nos custe. Que vamos ter sempre um ‘não’ garantido, mas que isso não significa que não possamos tentar. Aprendi a ser humilde e a não exigir dos outros algo que nem eu estou disposta a dar, que as coisas materiais não devem substituir sentimentos, conexões, cuidado com o próximo. Acima de tudo, a minha avó ensinou-me a ter conteúdo, a não ser fútil numa sociedade que, cada vez mais, não sabe ser outra coisa”.

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Até hoje, Patrícia Nunes tem uma ligação com a sua avó Rosa que não tem com a mãe, algo que considera inevitável.

“Foi a minha avó quem me criou, e isso é um laço difícil de quebrar. Nestes últimos anos a mente dela tem falhado, mas ainda há muitas histórias que vivemos juntas das quais ela me fala constantemente. Sei que um dia ela não estará mais cá, mas também sei que grande parte dela viverá sempre dentro de mim, pois ela é parte do que eu sou”.

“Os avós estão lá quando os pais não estão”

Também Marisa Santos, 35 anos, merchandiser, viveu com os avós paternos, Guilhermina e António, desde que nasceu. E até o próprio dia do nascimento previa a grande ligação a estas figuras: Marisa partilha a data de aniversário, 21 de março, com o avô António, que também foi o seu padrinho de batismo.

“Quando nasci, o meu avô tinha 57 anos e a minha avó 52. Com o passar dos anos, a minha avó ficou incapacitada, ficou paraplégica e também sofria de obesidade. Era autónoma dentro de casa, até lavava roupa na pia. Mas quase nunca saía para o exterior, e quando o fazia, era com ajuda”, relata Marisa Santos.

Na mesma casa que Marisa e os avós viviam também os pais da merchandiser, muito ausentes devido à vida profissional: “Via-os muito pouco. O meu pai era motorista e, em criança, estava mais afastada dele. A minha mãe era costureira, trabalhava fora, e chegava a casa muito tarde, muitas vezes à hora de eu ir dormir. E mesmo aos fins de semana, preferia a companhia dos meus avós à dos meus pais”.

Marisa Santos considera os avós, António e Guilhermina, os seus pais

Marisa Santos foi criada pelos avós e assume que estes foram os seus pais. “Tudo o que aprendi foi com eles, os meus pais não se importavam muito comigo”, confessa, adiantando que os avós estão presentes em todas as suas recordações de infância.

“Foram eles que me educaram, que me pagaram os estudos, as roupas, os óculos, o primeiro computador, tudo. Vivia com eles como se fosse uma filha”, diz Marisa Santos, que permaneceu na casa dos avós até à morte destes — a merchandiser perdeu o avô aos 13 anos e a avó aos 18.

Marisa Santos não mudava nada na forma como cresceu, e conta que os avós lhe ensinaram tudo: “Aprendi muito sobre religião, mas aprendi também a cozinhar, a ser amiga, a amar, a cuidar e a respeitar os nossos idosos. Só tenho pena de ter sido curto, de ter tido pouco tempo com eles”.

Depois da morte dos avós, Marisa permaneceu na mesma casa com os pais até que estes se divorciaram, e a mãe saiu de casa. Hoje em dia, o pai de Marisa, com 62 anos, tem uma saúde mais debilitada e vive com a filha.

“Em pequena, e apesar do afastamento, era mais próxima da minha mãe, mas hoje em dia estamos mais distantes. E estou mais próxima do meu pai depois de adulta, que é a figura de avô referência para os meus filhos”, conta Marisa, que já é mãe de duas crianças, um rapaz e uma rapariga.

Para a merchandiser, a ligação entre avós e netos é de extrema importância e reconhece o poder especial que estes têm de educar os mais pequenos. “Os avós estão lá quando os pais não estão, quando não podem. Hoje sou o que sou graças aos princípios, ensinamentos, mas sobretudo ao amor que os meus avós paternos me transmitiram”, conclui.

A avó dos afetos

Helena Borges e a irmã gémea, Ana Borges, ambas educadoras de infância e professoras do ensino primário, 31 anos, viveram com a avó materna, Rosa, desde o momento do nascimento. As duas irmãs estiveram também com os pais até fazerem 11 anos, altura em que estes compraram uma casa e mudaram de residência.

“Nós mantivemo-nos a morar com a nossa avó por diversas razões: pela proximidade com a escola, pelo conforto, pela sensação de pertença, pelos amigos que ali viviam, por ser a nossa única referência de lar”, conta Helena Borges à MAGG.

A avó de Helena e Ana Borges, Rosa, com as duas gémeas ainda bebés

Até aos 19 anos, todas as memórias das irmãs são passadas na casa da avó Rosa, hoje com 85 anos, casa que sempre foi o lar das gémeas. “Os nossos pais passavam lá ao final do dia, depois do trabalho, mas regressavam a casa deles à noite. Eles iam e nós escolhemos sempre ficar, a casa da avó era o nosso lugar”, afirma Helena Borges.

Os pais das duas irmãs sempre aceitaram essa realidade, pois sabiam que as filhas gostavam de ficar com a avó, e, de acordo com Helena Borges, essa vontade das duas jovens em permanecer a viver na casa da avó materna nunca hipotecou a boa relação entre pais e filhas.

“Só ao fim de semana é que nos ‘obrigavam’ a ir com eles, mesmo quando queríamos ficar com a nossa avó. Íamos com os nossos pais para casa deles à sexta-feira à noite e regressávamos para junto da nossa avó ao domingo à noite”, recorda Helena Borges.

Rosa, hoje com 85 anos, criou as duas netas desde o nascimento

Alberto Loureiro

Paras as irmãs, a avó Rosa é especial: “Ama-nos. Ama-nos sem qualquer necessidade de que a amemos de volta. É muito mais do que aquilo que merecemos, e muito mais do que poderemos um dia alcançar. É avó de todos, com um coração suficientemente grande: das netas, dos sobrinhos, dos genros, dos namorados e amigas das netas, e até de todos aqueles que não resistem a uma avó tão avó”.

A professora e educadora de infância chama-lhe “a avó dos afetos” e considera-a “doce e especial”. “Impôs limites, sem grandes regras a cumprir, e permitiu-nos crescer rodeadas de todo o amor do mundo”, diz Helena Borges.