Quando “Catfish: The TV Show” chegou à MTV em novembro de 2012, nunca se tinha visto nada do género em televisão. A palavra “catfish” era desconhecida, o tema das ligações criadas com estranhos na internet era exclusivo das conversas entre amigos e ninguém suspeitava de como havia tanta gente a ser enganada com mentiras mirabolantes — que, vá-se lá perceber porquê, funcionavam.

Produzido em formato de reality show, e apresentado por Nev Schulman e Max Joseph, amigos na vida real, o programa surgiu da própria experiência de Nev. Em 2010, o cineasta protagonizou um documentário chamado “Catfish“, onde descobria que a mulher na casa dos 20 anos com quem tinha um relacionamento online tinha mentido sobre a sua aparência.

Se Nev tinha sido enganado, era possível que outras pessoas estivessem a passar pelo mesmo. Foi esta a ideia vendida à MTV e, spoiler alert, funcionou. Durante sete temporadas, Nev e Max correram os Estados Unidos com uma pequena equipa de produção atrás, com o intuito de juntar pessoas que nunca se tinham visto.

Na grande maioria dos casos, na aparência eram autênticas histórias de amor: as trocas de mensagens eram intermináveis, e prolongavam-se durante meses, às vezes até anos. Havia frases ou palavras como “amo-te”, “não consigo viver sem ti”, “quem me dera que aqui estivesses” ou “és a minha namorada”.

Problema? Um dos lados desta suposta relação perfeita tinha sempre a câmara do telemóvel ou do portátil avariada (ou ambas). Bastante conveniente para nunca ser visto pelo outro, não é verdade? As desculpas para não se encontrarem presencialmente também abundavam, mesmo que às vezes não estivessem assim tão longe um do outro. Quando Nev e Max reuniam os supostos apaixonados, descobria-se a verdade: catfish. Aquela pessoa não era quem dizia ser.

Mas o caminho até lá chegar envolvia alguma investigação. Ao longo dos anos, Nev e Max ensinaram-nos a pesquisar no Google através de imagens, uma técnica essencial para descobrir mais redes sociais da pessoa com quem estamos a falar. Se o outro estiver a usar fotos falsas, é possível que descubra a verdade assim.

A cada episódio, havia sempre alguma coisa que não batia certo. Ou a foto de perfil estava associada a outro nome, ou o número de telefone presente na conta não estava certo. Quando estava prestes a ser descoberto, o catfisher tinha tendência a querer fugir — mas a ânsia de aparecer na televisão acabava sempre por falar mais alto, e perante as câmaras acabavam por revelar a mentira.

Nem sempre odiávamos estas pessoas. Às vezes tínhamos um primo à procura de vingança, noutros uma partida dos bullies da escola, noutro ainda um plano maquiavélico do ex-namorado para impedir o antigo amor de seguir em frente. Mas na grande maioria dos casos eram pessoas que só queriam ser amadas pela sua personalidade, e que sentiam que a sociedade não lhes permitia isso por não terem a aparência dita “desejada”.

A autenticidade de “Catfish” foi discutida ao longo dos anos

Desde o início que alguns telespectadores desconfiaram da veracidade do programa. Em fevereiro de 2013, o site “Hollywood” falou com 12 pessoas da primeira temporada — seis vítimas e seis presas —, e concluiu que, salvo uma única exceção, tinham sido os catfishers a entrar em contacto com o programa. Além disso, e por razões legais, todos os envolvidos tinham de assinar um contrato a ceder os seus direitos de imagem.

Em entrevista ao “Hollywood”, um catfishee revelou que não falava com o seu catfisher há meses. “Parámos durante uns meses e depois recomeçámos quando alguém foi ter com a MTV falar sobre mim e o catfisher”, disse.

As apps de dating que deve usar de acordo com a sua personalidade

Houve outras discrepâncias. Alguns participantes do programa queixaram-se de que as histórias contadas não correspondiam inteiramente à verdade, outros dois chegaram mesmo a dizer que a relação que mantinham online nunca tinha sido de teor romântico — apesar do que foi mostrado no programa.

Quanto ao resto, era tudo verdade: grande parte da investigação de Nev e Max era verdadeira, uma vez que nenhum dos apresentadores conhecia os participantes antes das filmagens.

Nev e Max eram amigos antes do programa

A MTV nunca confirmou se as histórias apresentadas em “Catfish” eram verdadeiras, falsas ou um simpático meio termo. Mas a possibilidade de haver alguma adulteração da narrativa não afastou os fãs que, ano após ano, continuaram a seguir fielmente o programa.

Como o amor verdadeiro e o Google quebraram feitiço

O primeiro casal que não mentiu em nada: Lauren e Derek

Sejamos sinceros: “Catfish” era o programa de televisão que nos deixava agarrados até ao momento em que aparecia o catfisher. Nós queríamos ver o quão longe tinha ido a mentira, fosse em termos de aparência, estilo de vida ou até género. Tudo mudou com Lauren e Derek, o primeiro casal a ser exatamente como dizia ser.

Aconteceu na segunda temporada: depois de oito anos a namorar online, o casal conheceu-se e não houve desilusões. Eles eram exatamente quem dizia ser e sim, estavam apaixonados.

Depois disso, outros casais revelaram-se igualmente verdadeiros. As audiências começaram a baixar — sentiu-se logo na transição da primeira para a segunda temporada, quando, da média de três milhões de espectadores nos Estados Unidos, passaram para 1,5. Na terceira os números rondavam perto dos dois milhões de espectadores, uma média simpática, na quarta — e daí para a frente — começaram a debater-se só para chegar a um milhão de espectadores.

Além das narrativas se terem tornado mais românticas, com a evolução própria das redes sociais e da internet, toda a gente passou a dominar as estratégias de descobrir um catfishing. As técnicas de Nev e de Max eram fáceis de apanhar: pesquisar pelas fotos de perfil no Google, ver o número de amigos, interagir com eles para confirmar a identidade do alegado catfisher, analisar as publicações.

Já não havia muito que nos pudessem ensinar.

Nev foi acusado de assédio sexual, Max decidiu ir à procura de coisas novas

Em maio de 2018, Nev começou a ser investigado na sequência de uma acusação de má conduta sexual. Ayissha Morgan, que participou no programa em 2015, publicou dois vídeos no YouTube a contar a alegada verdade sobre o “Catfish”. E revelou que o apresentador fez vários comentários impróprios e sexuais.

Nev negou todas as acusações. Num comunicado enviado ao “USA Today“, disse: “O comportamento descrito neste vídeo não aconteceu e tenho a sorte de ter ex-colegas que estavam presentes durante esse período de tempo que estão dispostos a contar a verdade. Sempre fui transparente sobre a minha vida e iria sempre assumir a responsabilidade pela minhas ações. Mas essas afirmações são falsas”.

O programa foi suspenso. A investigação concluiu que Ayissha Morgan tinha mentido, mas o futuro do programa continuou por definir. Em agosto, mais um golpe: Max anunciou que ia abandonar o programa.

Para o apresentador, era importante sair para explorar novas oportunidades. Afinal, tinham passado quase dez anos.

Depois de muito se ponderar se seria o fim do programa, a solução apresentada pela MTV foi a de ter um co-apresentador diferente em cada episódio. O conceito também mudou um bocadinho: agora a ideia é ter coisas novas em todas as histórias, seja em sítios diferentes, no perfil dos catfishees e catfishers — agora há pessoas com registos criminais — ou na introdução de práticas de dating, bem comuns nos dias de hoje, como por exemplo o ghosting.

A estratégia não parece estar a funcionar. Se as primeiras temporadas chegaram perto dos três milhões de espectadores nos Estados Unidos, hoje os números não chegam sequer perto de um milhão. Em 2019, o episódio mais visto chegou a apenas 560 mil pessoas. O menos popular ficou-se pelos 340 mil.

O fim de “Catfish” ainda não foi anunciado, mas de acordo com a imprensa internacional, da “Volture” ao “The Guardian“, não parece haver dúvidas de que está para breve. Está na altura de dizer adeus ao programa — os catfishers podem continuar a existir, mas estamos todos mais espertos quando se trata de apanhá-los. Esperemos.