“Linhas Tortas”. O filme português que mostra um romance a nascer no Twitter

Para Carmo Afonso, argumentista, a rede social é um autêntico "fight club" onde também há verdade e se pode ser sincero.

Joana Ribeiro dá vida a Luísa, uma jovem atriz que se apaixona por um homem que não conhece

A discussão é quase sempre subjetiva, mas talvez seja possível argumentar que, apesar de ser a rede social com menos utilizadores ativos diários como o Facebook ou o Instagram, é no Twitter que as conversas começam. E é esse o pronto de partida de “Linhas Tortas”, o novo filme português da realizadora Rita Nunes (“Madre Paula”) com um guião assinado por Carmo Afonso, advogada de 45 anos e estreante nesta coisa de, palavras suas, “escrever algo que se vê e que se ouve sem dar mais nenhuma explicação circunstancial.”

Em pouco mais de uma hora, a história acompanha a vida de Luísa, uma jovem atriz que, no Twitter, é seduzida por um homem que se esconde por detrás de um rosto e de um nome que não é o seu.

Embora se chame António, e seja um dos jornalistas e cronistas mais conceituados do País, é através do nome Rasputin que assina tweets introspetivos que apelam à capacidade de pensar e de nos reconciliarmos com a ideia da fragilidade humana.

A atração é mútua e não demora muito até que da interação em tweets passem para as mensagens privadas e, mais tarde, para um encontro que nunca chega a acontecer. Tal como a vida, também a narrativa assenta numa certa tragédia e todo o filme se assemelha àquilo que tem pautado a boa televisão ao não dar um final que ofereça resolução às personagens e aos espectadores.

A forma como a história foi pensada é responsabilidade da argumentista Carmo Afonso que, segundo conta à MAGG, nunca tinha lido um único guião na vida.

“A Rita Nunes [realizadora] convidou-me para escrever um guião a propósito de umas coisas que eu ia escrevendo no Facebook. Mas comecei a escrever aquilo em 2014 com todas as dificuldades que se sentem quando se escreve uma coisa que se vê e que se ouve sem dar mais nenhuma explicação circunstancial. Toda essa coisa que teria merecido uma formação qualquer, eu não tive”, explica.

Carmo Afonso, advogada, escreveu o seu primeiro guião sem nunca ter lido um na vida

Imagem cedida por Carmo Afonso

Algumas das críticas ao filme “Linhas Tortas” é que faltava uma maior profundidade às personagens e Carmo entendeu desde muito cedo que aquilo que escreveu e que viria, mais tarde, a ser apoiado pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual, seria muito diferente do que viria a ser gravado.

No argumento original, por exemplo, Luísa não era uma atriz mas sim uma violoncelista de uma orquestra da Gulbenkian. “Sabia que não podia haver grandes cenas de exteriores. Foi tudo feito numa lógica de poupança mas estou muito orgulhosa que tenhamos feito isto com tão pouco”, continua.

A argumentista revela que sempre achou fascinante a maneira como nós interagimos com os outros através de um ecrã, seja um telemóvel ou um computador. Quanto à ideia de um Twitter mais romântico, e não tão virado para discussões e ofensas, Carmo Afonso garante que não é apenas ficção: ele já existe neste momento.

“Existem muitos Twitters e somos nós que escolhemos em qual queremos estar através das contas que seguimos. Claro que, por vezes, somos visitados por personagens que só querem desestabilizar mas isso faz parte da graça da plataforma”, diz. Carmo assemelha a rede social a um clube de pancadaria, onde também há verdade e honestidade.

“O Twitter é um autêntico fight club para andar à pancada mas também serve para ser sincero. E eu tenho relações de amizade com muitas pessoas dali, até mesmo com aquelas que não sei quem são. Sei que se alguma coisa me acontecer, elas vão estar ali para me apoiar”, conclui.

No elenco de “Linhas Tortas” estão nomes como Joana Ribeiro (“Prisioneira”), Américo Silva (“O Fura-Vidas”), Ana Padrão (“Cabaret Maxime”) e Miguel Nunes (“Cartas da Guerra”)

O filme vai estar em exibição nos cinemas Nimas, El Corte Inglés e Amoreiras, em Lisboa, bem como no Teatro Campo Alegre, no Porto, e no Arrábida 20, em Gaia. A 28 de julho há uma sessão especial de visionamento no Cinema Monumental, em Lisboa.

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