Megan Rapinoe. A futebolista que desafiou um presidente e uma sociedade misógina

Recusou cantar o hino, visitar a Casa Branca e compactuar com o status quo. A sua luta é a da igualdade dentro e fora de campo.

Megan Rapinoe é uma das críticas mais fervorosas da administração Trump

Getty Images

Estávamos em 2016 quando Colin Kaepernick, quarterback norte-americano, se ajoelhou durante o hino nacional em protesto contra a descriminação racial no país. Não demorou muito até ser acusado de antipatriotismo e de ser tornar num dos alvos dos tweets de Donald Trump — que escreveu que a NFL (a Liga Nacional de Futebol Norte-Americano) deveria despedir jogadores que não respeitassem a bandeira e o hino dos Estados Unidos da América.

Megan Rapinoe, a futebolista que ajudou a seleção norte-americana a vencer o Mundial de Futebol Feminino a 7 de julho, foi uma das que apoiou o colega. Tal como ele, também ela viria a tornar-se num dos alvos de Donald Trump depois de, em entrevista, ter dito que se recusava a ir à Casa Branca caso a sua equipa fosse a vencedora do campeonato.

E porque as línguas têm esta coisa de oferecer resistência quando a ideia é traduzi-las, deixamos a reação original de Megan Rapinoe ao momento em que o jornalista lhe pergunta se estaria entusiasmada por ir à Casa Branca de modo a ser condecorada pelo presidente caso os EUA vencessem o torneio. “I’m not going to the fucking White House”. Em português, uma tradução possível seria qualquer coisa como: “Não vou à merda da Casa Branca”, ainda que a força das palavras não seja a mesma.

Diferenças linguísticas à parte, a justificação é simples. Além de ter sido uma das primeiras jogadoras brancas a apoiar publicamente Colin Kaepernick, Megan Rapinoe é uma das críticas mais fervorosas da administração Trump. E não ajudou o facto de usar o futebol também como uma plataforma para fazer valer o seu ativismo.

Tal como Kaerpernick, também a jogadora adotou a ideia de se ajoelhar durante o hino como uma forma de protesto. Mais tarde, passou simplesmente a permanecer de pé e em silêncio — recusando-se a cantá-lo.

Depressa a mulher de 34 anos se viu atacada em todas as frentes, chegando mesmo a ser posta de parte pela própria Federação depois do choque face ao apoio a Kaerpenick. Por ter acabado de regressar aos campos depois de uma lesão, viu-se sem lugar na equipa que representava com o argumento de não estar ao seu mais alto nível e esteve durante cinco meses sem jogar.

Tudo isto foi especialmente difícil porque, para Megan, o futebol não era só uma profissão. Cresceu como uma maria-rapaz e viu no futebol um escape e, em certa medida, uma forma de sobrevivência a um meio opressivo onde sentia não pertencer.

Tal como recorda num texto escrito por si no “The Player’s Tribune”, a sua vida mudou quando, em 1999, viu a seleção feminina norte-americana tornar-se campeã mundial.

“Foi naquele dia que tudo mudou e que, por certo, muitas raparigas pegaram numa bola e disseram que era aquilo que queriam fazer.” Rapinoe foi uma dessas raparigas com a particularidade de, desde muito cedo, se imaginar, não só com uma bola nos pés, mas também a passar pelos centrais em caminho à baliza adversária enquanto o pública vibrava a cada desmarcação, a cada lance.

As acusações, a desconfiança e a pouca vontade de apostar nela defendiam uma tese datada e pouco ou nada consensual. “A Megan não devia desrespeitar o nosso país, a Casa Branca ou a nossa bandeira, especialmente quando muita coisa já foi feita por ela e pela equipa. Tenha orgulho na bandeira que usa”, escreveu Donald Trump no Twitter.

Em resposta, a “NBC News” preferiu descrever Megan Rapinoe como a definição de patriotismo e que Donald Trump “deveria tirar notas.”

Se dúvidas houvesse, os vídeos do Campeonato Mundial de Futebol Feminino de 2011 não deixam esquecer. Num jogo contra a Colômbia, Rapinoe marcou um golo e festejou cantando com um microfone ligado aos amplificadores do estádio. A canção? O hit “Born in the U.S.A” de Bruce Springsteen.

Para uma jogadora que sempre se identificou como “um protesto em movimento”, a sua presença num meio tipicamente masculino é, já de si, uma forma de crítica e de mudança de paradigma. “Acho que a nossa presença em competições desportivas é, por si só, um protesto perante uma sociedade sexista como aquela em que vivemos”, explicou.

A BBC escreve que o mundial de 2019 será, para sempre, o mundial de Rapinoe. Fora de campo, desafiou um presidente, uma sociedade misógina, pôs um processo à federação norte-americana de futebol (pela igualdade de salários e de condições de trabalho) e renunciou o status quo.

Segundo Jill Ellis, treinador da seleção norte-americana, Megan nasceu para estes momentos. “Quanto maiores forem os holofontes, mais ela brilha.” E tem brilhado quer dentro ou fora de campo, como mostram as várias campanhas publicitárias em que já participou — uma delas da Nike, ao lado de Cristiano Ronaldo.

Não se livram desta miúda assim tão facilmente. Parece uma frase feita e sem grande significado, mas é da autoria da própria num texto publicado a 23 de junho, quase que prevendo o desfecho do campeonato no domingo, 7 de julho.

O beijo entre Megan Rapinoe e Sue Bird após a vitoria dos EUA sobre a Holanda

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A seleção feminina norte-americana voltou a conquistar o campeonato depois de bater a Holanda por 2-0, sendo que um dos golos foi marcado pela jogadora norte-americana através de uma grande penalidade.

Após a vitória, o festejo consumou-se com um beijo a Sue Bird, estrela de basquetebol feminino, com quem mantém uma relação há dois anos, e que foi transmitido para milhares de pessoas em todo o mundo.

Embora pareça um simples beijo, é também este uma forma de protesto em movimento. Afinal, e tal como disse várias vezes em entrevistas, “é impossível ganhar torneios sem gays na equipa.”

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