A taróloga dos bebés: “Para quem quer fazer dinheiro isto é muito bom, porque há pessoas que ficam dependentes”

Afirma que a olham de lado quando diz o que faz, mas reage bem ao ceticismo. Entrevistámos a taróloga Inês Pereira Pina.

Inês Pereira Pina acaba de lançar o seu primeiro livro, "Tarot e Espiritualidade"

Samuel Costa / MAGG

Ganhou o cunho de taróloga dos bebés depois de ter previsto o nascimento de 200 crianças nos últimos dois anos, mas também acredita ser a “taróloga das massas”. Prova disso são as cerca de 45 mil pessoas que a seguem no Facebook e os alcances de mais de 100 mil pessoas que tem nas leituras em direto nas redes sociais.

Inês Pereira Pina, 32 anos, é tudo o que não esperamos encontrar numa taróloga, profissão ainda vista com muito ceticismo. “Acho que não tenho ar de bruxa”, diz-nos no início desta entrevista com a MAGG, a propósito do lançamento do seu primeiro livro, “Tarot e Espiritualidade”, editado pela Lua de Papel. Licenciada em Jornalismo, acredita que a sua formação na área da comunicação “é uma ajuda brutal” para conseguir fazer chegar a sua mensagem às pessoas, e é justamente isso que pretende fazer com este novo livro.

“É uma porta de entrada para o mundo espiritual”, diz-nos sobre o seu mais recente projeto, mas afirma que é feito para “toda a gente”. Nesta entrevista, falámos sobre o ceticismo existente em relação ao tarot, e Inês Pereira Pina diz que a maior desconfiança vem das marcas, e nem tanto das pessoas.

Mas há mais: Inês Pereira Pina fala do seu dom para saber coisas sobre pessoas desconhecidas apenas por olhar para uma fotografia, da sua intuição para prever o nascimento de crianças e ainda sobre a interrupção voluntária da gravidez, algo muito mal visto no mundo espiritual.

O que é o tarot?
O tarot é uma ferramenta de comunicação com o mundo espiritual. Ou seja, imagine uma app que lhe permite falar com os seus guias espirituais (entidades que nos acompanham) e transmitir uma mensagem que consiga perceber — porque às vezes recebemos estímulos, mas não os conseguimos processar. Por exemplo, eu tenho mediunidade, recebo mensagens e dizem-me coisas específicas, mas há gente que não. As cartas, que têm determinados significados para as várias áreas da vida, ajudam-nos a perceber as mensagens que nos são transmitidas.

A mediunidade permite-lhe saber coisas sobre determinada pessoa sem precisar das cartas?
No meu caso, as cartas são uma forma de validar o meu trabalho. O meu pai, que também é muito ligado à espiritualidade, diz que eu não preciso delas para nada. E o que é certo é que, muitas vezes, vou a virar as cartas e já sei o que vai sair. Mas é como se eu precisasse de validar e de mostrar, do género “está aqui a prova”. As cartas têm diversos significados, mas a nossa intuição e a nossa mediunidade ajudam-nos a perceber em que é que se aplica naquele caso.

Como é que o tarot surgiu na sua vida?
Eu sempre fui ligada ao mundo espiritual através do meu pai. Depois na adolescência desliguei-me um bocado deste lado, é normal, apesar de ver vultos e de ouvir barulhos. Sempre dei muitas opiniões às minhas colegas e amigas, sobre assuntos da vida delas, e batia certo.

Inês Pereira Pina acredita que as pessoas devem recorrer ao tarot quando sentem necessidade, mas de uma forma saudável e não dependente

Samuel Costa / MAGG

Depois trabalhei no aeroporto de Lisboa e uma colega minha, a Camila, disse-me que ia a uma taróloga e desafiou-me a ir com ela. Eu fui, porque sempre gostei deste tipo de coisas, mas nunca tinha experimentado nada do género. Assim que cheguei ao espaço, a Vitória [taróloga] perguntou-me o que é que eu estava ali a fazer. Fiquei um bocado aflita e respondi-lhe que tinha ido fazer uma leitura de tarot. “Para quê? Você sabe ler cartas”, disse-me ela.

Nunca tinha tido contacto com cartas até esse momento?
O meu pai tinha um baralho e eu só tinha visto, nem sequer tinha experimentado fazer nenhuma leitura. Depois deste episódio fiquei curiosa, comprei um baralho e comecei a fazer algumas leituras para saber se batia certo. Fazia às amigas, depois elas diziam-me que sim, batia certo, e diziam às amigas delas. Depois disto, comecei a pensar que se calhar precisava de criar uma plataforma, uma página, para comunicar com possíveis clientes. E foi assim que criei a minha página Life Coaching — até já tentei mudar para o meu nome, mas o Facebook não me deixa.

Consegue precisar quando se apercebeu que conseguia ver coisas, como os tais vultos que referiu, que outras pessoas não viam?
O que comecei por sentir, desde pequenina, é que tinha sempre alguém perto de mim. Quando estava a estudar, por exemplo, sentia sempre alguém atrás de mim. Ou quando estava numa divisão, concentrada em alguma coisa, sentia que estava alguém a entrar nessa mesma divisão. Mas tentava desvalorizar os vultos — até porque eu sou muito medricas —, tentava pensar que eram uma ilusão de ótica. A partir do divórcio dos meus pais, que aconteceu quando eu tinha 7 anos, comecei a ficar mais atenta.

Há pessoas que podem ter o dom que a Inês tem, mas desvalorizá-lo sempre?
Sim. Há gente que, como tem medo, tenta ignorar por completo. Mas todos nós temos algum tipo de mediunidade, só que tal difere de pessoa para pessoa. Há pessoas que conseguem ver vultos, há quem veja figuras nítidas, há quem oiça, há quem sinta coisas fisicamente. Eu acabo por ter um bocadinho de cada coisa: vejo vultos, quando estou em consultas também sinto coisas de pessoas que já partiram. Por exemplo, quando estou a falar com uma pessoa e sinto uma pressão na cabeça, geralmente é a presença de alguém que faleceu com Alzheimer ou com demência. Se sinto falta de ar, é de alguém que faleceu com um problema respiratório — consigo sentir algumas coisas a nível físico.

Depois, quando digo que oiço, não é mesmo ouvir uma voz baixinha, é mais como se me colocassem na cabeça uma pen e a informação viesse. Há quem tenha sonhos premonitórios, há pessoas que têm energia através das mãos. Todos nós temos alguma coisinha, mas como não estamos despertos para isso, acabamos por não utilizar como poderíamos. E isso até nos pode trazer implicações negativas: quem tem muita energia de cura e não a utiliza, acaba por ficar com bloqueios até a nível da saúde. Tal como o sangue, a energia tem de fluir. Se começa a ficar muito presa, não circula bem e causa-nos outro tipo de problemas.

“A taróloga é sempre a burlona, a oportunista.” O ceticismo em relação ao tarot

Qualquer pessoa pode ler cartas?
As pessoas acham que ser taróloga é deitar meia dúzia de cartas e já está, mas há muito para além disso. Uma das partes que é extremamente importante no nosso trabalho é a forma como comunicamos a mensagem que nos é transmitida, porque isso pode ter um impacto muito grande na pessoa com quem estamos em consulta. Aliás, o que nós dizemos pode fazer essa pessoa mudar de profissão, terminar uma relação, etc..

Para além de ser necessário ter capacidades mediúnicas — porque existe a cartomancia, e isso sim é colocar meia dúzia de cartas e ler de acordo com o que está escrito —, para mim, ser taróloga é usar essas capacidades para interpretar cartas. Implica muita ligação ao mundo espiritual, muitas horas de treino, não é fazer um curso e um mês depois estar a fazer leituras, nem pensar. Antes de consultar alguém para uma leitura, é importante pesquisar, saber quantos anos aquela pessoa tem de tarot, qual é o passado dessa pessoa em termos profissionais, e tentar perceber se é alguém credível ou não. Até porque, hoje em dia, é muito difícil perceber quem é um profissional sério.

Atenção, eu sei que as minhas consultas são caras [Inês cobra 50€ por uma consulta de meia hora, que pode ser presencial, por videochamada ou telefone, e 15€ por respostas a duas questões], o valor é alto. Há quem cobre muito menos, há aqueles pseudo donativos, que vai-se a ver e não há donativo nenhum, e também há quem diga que a consulta é gratuita, mas depois dizem às pessoas que têm um mal muito grande e que se tem de fazer um trabalho para desfazer aquilo. Mas esse trabalho custa 1000€ — e isto é muito perigoso. Há pessoas que pagam tanto, tanto, tanto dinheiro para desfazer coisas que, muitas vezes, nem existem. Até porque isto acaba por ser uma forma fácil de fazer dinheiro.

Acha que existem muitos falsos tarólogos por aí, que se aproveitam da vulnerabilidade das pessoas?
Muitos, muitos, muitos. Uma vez perguntaram-me numa entrevista se as pessoas que iam a uma consulta de tarot não o faziam todas numa situação de fragilidade. E é verdade que vão quase todas, mas nem todas, muitas estão só curiosas. Acho que há pessoas que se aproveitam, acho que pintam sempre o pior cenário, para depois conseguirem oferecer as melhores soluções e venderem alguma coisa.

As minhas consultas acabam por ser mais uma terapia, uma conversa quase como a nossa agora, onde falo tranquilamente com a pessoa, de forma aberta, sem tabus, não julgo ninguém e acho que isso também tem um efeito positivo na vida da pessoa que recorre a mim — gosto de dar consultas com uma componente mais motivacional.

Existem sinais claros para conseguirmos identificar alguém que só quer dinheiro?
Acho que a melhor forma de tentar perceber isso é quando a pessoa diz que a consulta é gratuita, mas depois começa a pedir valores para outras coisas complementares. Isso não é bom sinal.

Essas pessoas dão má fama à profissão de taróloga?
Claro que sim, porque depois a taróloga é sempre a burlona, a oportunista. Eu digo que sou taróloga e as pessoas olham assim de lado. Eu tenho audiências brutais nas minhas redes sociais e tenho uma capacidade de chegar ao público muito, muito boa, mas as marcas fogem de mim, porque eu tenho este rótulo do tarot. Se eu fosse influenciadora (porque tenho os números que muitas têm, um direto meu tem mais de 120 mil pessoas de alcance), se fosse só Inês, se calhar era diferente.

Por exemplo, eu sou patrocinada por um salão de cabeleireiro e a apresentadora e influenciadora digital Olívia Ortiz também fez uma parceria com este salão: a Olívia tem 261 mil seguidores no Instagram, eu tenho quase oito mil na minha página. As marcas apostam em quem? Na Olívia. Mas muito do público dela são homens que a acham uma boazona, o meu público alvo são mulheres entre os 23 e os 50 anos. O que é que aconteceu? A minha promoção ao cabeleireiro deu muito mais frutos do que a da Olívia Ortiz. Lá está, as marcas têm um grande ceticismo em relação a mim, têm muito medo de se associar a mim.

Se estivesse atrás de dinheiro era muito fácil, porque as pessoas ficam mesmo viciadas

Não são apenas as marcas: ainda existe muito ceticismo em relação ao tarot e à espiritualidade. Como é que lida com isso?
Tranquilamente. Aliás, adoro quando um cético se senta à minha frente e faz uma leitura comigo porque geralmente até deita uma lágrima, começa a perceber que se calhar há realmente mais qualquer coisa.

Tem clientes que a procuram com bastante regularidade e pedem a sua ajuda para todo o tipo de decisões? Isso não pode acabar por ser viciante?
Sim, claro, e chego a ter de bloquear as pessoas. Lá está, voltamos ao que estávamos a falar antes: para quem quer fazer dinheiro isto é muito bom, porque há pessoas que ficam dependentes. Eu dou consultas de urgência, que têm um valor de 100€, e eu convenço as pessoas a não o fazer, para esperarem um pouco mais e lidar com a ansiedade que estão a sentir nesse momento. Se estivesse atrás de dinheiro era muito fácil, porque as pessoas ficam mesmo viciadas. Não acredito que exista uma frequência ideal para fazer consultas, acho que devem acontecer quando as pessoas sentem essa necessidade, mas de uma forma saudável.

A taróloga dos bebés: “Quem me procura com o desejo de engravidar, consegue fazê-lo depois de uma leitura”

Acabou de lançar o seu primeiro livro, “Tarot e Espiritualidade”. Porque é que o decidiu escrever?
Eu sou filha de professores, por isso fui educada numa onda de partilhar conhecimento. E também acredito que o conhecimento que nós temos tem de ser partilhado, se não o que é que andamos aqui a fazer, não é? Se podemos ajudar pessoas com aquilo que sabemos, acho que é uma parvoíce não transmitir aos outros a nossa aprendizagem. Neste livro, tentei resumir tudo aquilo que me perguntam nos diretos e não só, tentei compilar as maiores dúvidas das pessoas que me procuram.

"Tarot e Espiritualidade" já está nas livrarias e tem um preço recomendado de 14,90€

Samuel Costa / MAGG

É dirigido a que tipo de pessoas?
Toda a gente. Não é só para quem gosta de tarot. Talvez a segunda parte, mais prática, seja para pessoas mais familiarizadas com o tema, mas também acredito que alguém que leia a parte um, mesmo que não goste de tarot, fique com curiosidade e vá experimentar ler e ver as cartas.

Pretende desmistificar o tarot com este livro?
Sim, mostrar que não é um bicho de sete cabeças, que é algo natural, que nos ajuda e que facilita a nossa vida. Podemos ser mais felizes e ter uma vida mais fluída se trabalharmos com o meio espiritual.

Porque é que lhe chamam a taróloga dos bebés?
Ao longo dos anos, tem-se vindo a perceber que quem me procura com o desejo de engravidar, consegue fazê-lo depois de uma leitura. Tenho gente que andava a tentar há anos e anos, fez uma leitura comigo e engravidou. Não lhe sei explicar o que é que se passa comigo a nível energético para desbloquear este tipo de situações de fertilidade, mas o que é certo é que as pessoas vêm falar comigo ao fim de muito tempo a tentar, mesmo depois de tratamentos de fertilidade que não resultaram, e acontece.

A consulta comigo acaba por desbloquear qualquer coisa. Claro que há uma componente espiritual, mas também há uma psicológica. Porque a pessoa pensa: “A Inês disse-me que eu vou engravidar, então posso fica tranquila”. E como a nossa cabeça controla o nosso corpo, estas mulheres ficam muito mais relaxadas, e acabam por conseguir engravidar naturalmente.

Mas pode ser apenas a parte psicológica, e não ter que ver com a consulta.
Sim, acontece, pode ser apenas psicológico. Não é só a minha parte, mas a minha abordagem e a forma como transmito calma às pessoas, também ajudam a desbloquear o problema.

São as cartas que lhe dizem que essa mulher vai engravidar num futuro próximo ou basta-lhe olhar para ela?
Vou-lhe dar um exemplo: ainda ontem estava a dar uma espreitadela no Instagram, vi uma fotografia de uma rapariga que eu conheço e senti. Enviei-lhe uma mensagem a dizer que achava que vinha aí uma surpresa, e ela respondeu-me que sim, era verdade, mas que ainda não tinha divulgado porque já tinha perdido um bebé.

Sou o Mourinho do tarot”

Então é-lhe possível saber coisas de uma pessoa apenas através de uma fotografia?
Sim, tenho essa capacidade, mas não exploro. Aliás, eu conheci o meu companheiro e pai da minha filha no Tinder. Olhei para as fotografias dele, e quando começámos a falar mais disse-lhe tudo o que tinha sentido quando olhei para as imagens que ele tinha no perfil. E ele foi tentar perceber como é que eu sabia isso tudo, se tínhamos amigos em comum, se eu era amiga de uma ex-namorada dele, mas eu sinto, é incrível.

Considera-se uma pessoal especial por ter este dom?
Dizem que sim. Cai um bocado mal eu dizer que sou especial, até porque não sou o José Mourinho. Mas sou o Mourinho do tarot.

O aborto é mal visto no mundo espiritual

No livro, fala das mulheres que fizeram interrupções voluntárias da gravidez (IVG), que estas devem escrever uma carta a pedir perdão ao mundo espiritual por o terem feito.
Ou explicar de alguma forma, ajuda no processo de luto, na parte psicológica, e para o mundo espiritual também é importante. Quando alguém morre, mandamos rezar uma missa, fazemos um funeral, vamos ao cemitério colocar flores, ou seja, há um culto àquela entidade. Neste caso, também é necessário fazer um culto a esta entidade, mesmo que não exista um corpo — e essa é uma das formas.

Mas ia-lhe perguntar o seguinte: uma mulher que foi abusada sexualmente, engravidou e decide interromper essa gravidez, também tem de escrever essa carta a pedir perdão?
Não precisa de pedir perdão, mas pode justificar de alguma forma porque é que fez isso, acaba por ser libertador. Não é pedir perdão, até porque também aconselho este ritual da carta a pessoas que passaram por uma perda gestacional, que é um processo involuntário. Não é necessariamente um perdão, mas fazer um luto.

Inês Pereira Pina é mãe de três filhos e acha que ainda vai ter mais

Samuel Costa / MAGG

Também no livro, escreve que a interrupção voluntária da gravidez, seja porque motivo for, não é bem vista no mundo espiritual. Porquê?
Isto é um bocadinho complexo de explicar: quando uma pessoa nasce, foi uma alma que escolheu aquela família para reencarnar, escolheu os pais para os ajudar a cumprir determinada missão. Quando este processo é interrompido por motivos que foram alheios a essa alma, podem existir implicações negativas e bloqueios na vida da pessoa que decidiu interromper o processo. E é por isso que a tal carta, a justificação, é importante, porque a pessoa tinha uma responsabilidade com a entidade que ia reencarnar.

Por falar nisso, escreve também que as mulheres que fazem uma IVG podem ter problemas ou bloqueios numa futura gravidez.
Sim, é um pouco do estilo: “Ah não quiseste, então vais ter de lutar muito para ter um novo filho”.

A Inês tem uma grande ligação ao mundo espiritual. Isso faz de si uma pessoa contra o aborto?
Foi aquilo que lhe disse no início da entrevista, não julgo ninguém, cada pessoa tem as suas razões, mas eu não o faria.

Mas acredita que as mulheres devem ter essa opção?
Sim, devem ter essa opção. Mas eu não o faria.

Texto de Catarina da Eira Ballestero, fotografia de Samuel Costa.
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