Manuel Reis analisa o 4.º episódio de GoT: “Está tudo muito previsível e pouco impactante”

O fundador de A Cabeça do Ned defende que a série tem vários problemas, e diz que é a prova de que "não há orçamento que melhore a escrita".

"O Joffrey podia continuar a ser um merdas, mas o grande GRRM matou-o. Nesta temporada? Meh, até agora", escreve Manuel Reis

Depois de muitas teorias no Reddit, contagens decrescente nas redes sociais e lágrimas ao rever os episódios mais dramáticos, “A Guerra dos Tronos” está de volta. O final vai ser contado em apenas seis episódios, e todos eles vão ser transmitidos na HBO Portugal e no canal SyFy.

Da política ao humor, a MAGG pediu a várias personalidades que vibram com a série que analisassem a oitava e última temporada. O quarto episódio ficou a cargo de Manuel Reis, fundador de A Cabeça do Ned, um podcast dedicado à série.

Opinião. Estes últimos episódios têm mostrado que não há orçamento que melhore a escrita. A imaginação não tem orçamento

Tensão é um elemento fulcral de qualquer drama político que se preze. E, desde o momento em que pus os olhos na série, sempre a vi como um drama político, dos melhores alguma vez feitos em qualquer meio — a ultrapassar as barreiras da luta do bem contra o mal ou da mensagem social.

Sim, há mamas e dragões mas com substância lá pelo meio. E este episódio teve toda a tensão de que um verdadeiro drama político se deve orgulhar, especialmente um em que há vidas em jogo. Vidas com que nós simpatizámos.

As cenas do Bronn com os irmãos Lannister e das interações Tyrion-Qyburn-Cersei (com esta última a evidenciar a sua grande fraqueza, o amor que sente pelos irmãos e que, acredito, vai ajudar a levar à sua queda), bem como as conversas entre Tyrion e Varys, ambos com argumentos muito legítimos e dentro do que conhecemos de cada um dos personagens, são formidáveis e clássicas, considerando o histórico da série.

Esta, sim, foi a “A Guerra dos Tronos” que comecei a apreciar naquela maratona que fiz a 18 de abril de 2012. Fosse apenas um copo de Starbucks perdido na mesa, e a coisa até tinha piada.

Mas esta temporada (e a sétima) têm tido problemas atrás de problemas. Westeros tem um avançado sistema de teletransporte do qual a série nunca falou e estas duas temporadas evidenciaram isso.

Existe também um ritmo incessante de acontecimentos, o não existir tempo para processar eventos (a história com os White Walkers podia demorar uma temporada e a morte do Rhaegal foi despachada a meio deste episódio) e a falta de mortes muitos chocantes.

Neste episódio, por exemplo, podiam ter morto o Tyrion. Quantas vezes é que a série não limpou o sebo a personagens que, teoricamente, ainda tinham história para contar?

No Red Wedding, o Robb e a Catelyn podiam ter continuado. Mas não, o sacana do George R.R. Martin matou-os. Purple Wedding? O Joffrey podia continuar a ser um merdas, mas o grande GRRM matou-o.

Nesta temporada? Meh, até agora. Jorah? Morreu a salvar a Dany. Giro, mas meh. Theon? Sem grande impacto. Lyanna Mormont? A morte dela foi fixe, mas a personagem não tem grande impacto. Missandei? Se ela está ali, não vai sair dali viva, e não saiu.

Precisamos de uma morte à Shireen Baratheon. Está tudo muito seguro, muito previsível e pouco impactante. A morte do Night King foi fixe, mas entra na ideia de ser tudo a despachar. “Não há tempo”, disse o Bran no início da temporada. De facto, não há tempo para tudo o que é preciso contar. Devia haver.

Ser fã de séries estrangeiras em Portugal e fazer parte da discussão global sempre foi um desafio interessante, quando se lhe ganha o ritmo.

Hoje em dia, sabemos com o que contar e sabemos que aquele canal, ou aquele site, vai ter aquilo que queremos ver à hora que queremos ver, seja em streaming ou em TV.

Infelizmente, “aquele” site continua a não ser a HBO, que insiste em fazer ouvidos de mercador às críticas, que são completamente justificadas pela promessa que fez logo no lançamento do canal: “A Guerra dos Tronos” em simultâneo com os EUA.

O SyFy é que se vai saindo bem nisto tudo, capitalizando apoio com as falhas da concorrência, sendo que também beneficia de ser um canal linear.

Na HBO temos de procurar a série, a temporada e o episódio, se e quando estiver disponível, com paragens a meio, “erros de ligação” em que o episódio continua a passar e downloads para ver offline que não descarregam — causando secas em viagens de avião.

Uma experiência de utilizador a roçar o horrível (sobretudo se comparada com a Netflix, supra-sumo do streaming), que nem o preço baixo a salva e que piora quando vemos que apenas em Portugal e na Hungria (que eu tenha notado) atrasam o lançamento de um episódio após um erro alemão num serviço que nem pertence à HBO.

Obviamente, 20 minutos depois da hora, e 25 minutos antes de surgir em Portugal, o episódio já estava naquele site [pirata] em excelente qualidade.

Faltam dois episódios para “A Guerra dos Tronos” estar reduzida a toneladas de merchandising inútil e 76283456 spin-offs (e a aumentar a cada dia que passa).

Ainda é cedo para perceber qual será o legado da série para lá dos recordes de audiência. Mas estes últimos episódios (já desde a 7.ª temporada) têm mostrado que não há orçamento que melhore a escrita. A imaginação não tem orçamento. Nisso, George R.R. Martin ainda tem dois livros para nos surpreender. E será a minha próxima aventura.

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